Tragédias no Facebook

Facebook é um lugar realmente muito estranho, mas  didático sob muitos aspectos.  É uma rede importante. A rede social real (politicamente atuante) que se torna possível montar em torno de questões relevantes e as possibilidades de atuação concreta que isso traz é fascinante. Você se diz:  os encontros e trocas que esse negócio dá são incríveis!

Mas aí você vê as pessoas se disputando o direito de medir pesos de tragédias. E pensa: é o mesmo lugar sobre outra perspectiva. E continua a observar aquela gente se acusando umas às outras da mediocridade de suas recíprocas  análises do senso comum que, convenhamos todos, em se tratando da maior parte dos assuntos aos quais tratamos por aqui, é o lugar de onde conseguimos falar.

Eu acho que existem níveis de postagens no facebook.  Claro, não existe nivelamento por simetria no mundo social. E  é bom ter isso em mente. Não esquecer mesmo. Porque é pensando nisso que sobrevivo nesse universo virtual. O trato diferencial de  textos que são impressões pessoais, reações individuais dos amigos às notícias, daqules nos quais se patilham informações com relevância política mais direta, é condição sem qual a sanidade mental é impossível  por aqui.   Para tudo há um “qual a relevância disso?” Exitem filtros dentro dos filtros do Facebook, né não?
Nesses últimos dois dias intensifiquei as atividades de partilha de informações sobre a tragédia ocasionada pelo crime ambiental cometido pela Samarco em Minas Gerais. Na minha TL, que sei ter um alcance limitado, mas que julgo importante, foi quase só isso. Mas também nos grupos de atuação dos quais faço parte. Tem função? Tem importância?  Acho que politicamente a nossa opinião,  a verdadeira opinião pública,  precisa ser forjada e bem alimentada em fontes relativamente seguras. Essa opinião pode e deve pressionar politicamente os governos a tomarem  as medidas necessárias em relação à tragédia e à prevenção de outras. Isso está ao nosso alcance. Podemos e temos o direito de expressar nosso lamento íntimo pela dor alheia, aqui ou em qualquer lugar. Seletivamente ou não,  diga-se. Isso nem é um problema real. As pessoas tem o direito de reagir às informações que recebem, da maneira que conseguirem. O que vejo com maus olhos é a seletividade tacanha da mídia corporativa,  implicada até a alma com o projeto que vem destruindo parte importante do nosso futuro,  e nós ficarmos sem poder de reação. Eis o ponto que acho importante pensar e conversar a respeito.  Porque a Internet pode ser um lugar de contraponto. E usa-la nesse sentido é imprescindível. #nãofoiacidente #prayforparis

Pedro Paulo: o falso dilema entre violência contra mulher e reação normal emotiva

A reflexão abaixo é foi feita como reação a esses vídeo e texto, e publicado em minha TL no facebook.

O machismo estrutural é uma coisa horrível de fato. A mídia expõe o caso de violência doméstica cometido pelo secretário da prefeitura do Rio de Janeiro. A notícia é dada de forma a expor sobremaneira a intimidade das pessoas envolvidas. Isso só reforça o ranço da violência por trás do ato de agressão.

Utilizando-se da voz passiva para descrever a notícia “a mulher foi agredida” e não o mais correto “Pedro Paulo a agrediu”, a notícia e o boletim de ocorrência se alinham ao senso comum do machismo vigente. Dessa maneira, ao reagir a repercussão da notícia, o agressor termina por se tornar a vítima diante da própria ex esposa (e dos telespectadores da notícia, diga-se), porque a notícia a colocou numa situação de constrangimento totalmente desnecessária.

Explico melhor esse ponto.Tratado como questão isolada, o problema ganha a versão que o próprio Pedro Paulo dá ao ocorrido: foi um caso esporádico, não se enquadra na lei Maria da Penha. Visão que, se lida num contexto cultural mais amplo, quer dizer o seguinte: eu não sou aquele preto e pobre que bate na mulher quando chego bêbado em casa, todos os dias. Eu não sou um monstro. Ora, numa visão de contexto sobre a violência contra as mulheres, eu devo ser enquadrado na lei Maria da Penha, não apenas porque não faço isso de forma recorrente, mas porque não posso fazer isso nunca. O jeito de lidar com a violência tipificada (sentido sociológico) pelo seu veio de classe faz com que no caso da violência praticada contra mulheres de classe média a agressão apareça como algo individualizado, de uma tragédia pessoal específica, na qual a violência que recai sobre a mulher (depois da cometida pelo ex-marido) seja a super exposição de fatos de sua vida íntima. Esse tipo de visão tenta passar a ideia de que a violência tenha sua causa, explicação e justificativa dentro da própria relação do casal, não estabelecendo nenhuma relação entre o “caso isolado”e os dados estatísticos sobre a violência contra a mulher de uma forma geral.

O problema do machismo é um problema público. O secretário diz que pediu desculpas para a família e que agora como figura pública pede novamente “em público”. Ora, nem digo que ele deva ir para masmorra passar o resto de sua vida lá. Mas ele deve responder de forma pública, que não é sinônimo apenas de “em público” e muito menos “para dos holofotes da mídia”, mas responder diante e dentro das instituições públicas responsáveis. Isso porque bater em uma mulher significa bater em todas do ponto de vista do problema estrutural em questão.

Além disso, a notícia consegue a incrível façanha de transformar a voz da mulher agredida numa reclamação contra a própria mídia por ter tornado a vida dela um inferno. Depois de uma cobertura dessas, imagino que a mulher deve ter se perguntado mil vezes se fez o certo em ter denunciado o marido no boletim de ocorrência da polícia, agora que uma pergunta mais difícil de se fazer, mas mais condizente com a situação, ou seja, a que precisava ser feita, seria a seguinte: ele teria batido mais vezes se ela não tivesse denunciado? E as perguntas decorrentes dessa porque cada boletim de ocorrência faz parte de algo maior do que o caso específico pode dizer de si mesmo: quantos outros homens que também não são habitualmente violentos e ou agressivos batem “apenas uma vez” as suas companheiras? Quantos mais ou menos homens bateriam em mulheres “apenas uma vez” caso essas denúncias não fossem feitas para evitar esse tipo de inferno?

O marido diz que se exceder numa discussão é uma situação normal (ao ponto de agredir fisicamente a esposa). Quebrar um copo é uma situação normal, ninguém vai à polícia por causa disso. O fato dela ter ido à polícia, que não é uma coisa que fazemos todos os dias, expõe a não naturalidade da situação. Alexandra denunciou para se defender.

Quando invisibiliza as mulheres anônimas, desconsiderando as histórias individuais por trás dos números, a denuncia pode por exemplo provocar um agravamento da violência dentro de casa. Quando super expomos as mulheres “midiatizaveis” como no caso em questão, elas ficam na situação de ter que minimizar a violência que elas sofreram para se proteger de outras, nitidamente a da própria mídia.

Se a gente que está fora da situação transforma, de um jeito ou de outro, num inferno a vida das mulheres que denunciam, estamos roubando delas um instrumento de defesa, que é a própria denúncia.