Pedro Paulo: o falso dilema entre violência contra mulher e reação normal emotiva

A reflexão abaixo é foi feita como reação a esses vídeo e texto, e publicado em minha TL no facebook.

O machismo estrutural é uma coisa horrível de fato. A mídia expõe o caso de violência doméstica cometido pelo secretário da prefeitura do Rio de Janeiro. A notícia é dada de forma a expor sobremaneira a intimidade das pessoas envolvidas. Isso só reforça o ranço da violência por trás do ato de agressão.

Utilizando-se da voz passiva para descrever a notícia “a mulher foi agredida” e não o mais correto “Pedro Paulo a agrediu”, a notícia e o boletim de ocorrência se alinham ao senso comum do machismo vigente. Dessa maneira, ao reagir a repercussão da notícia, o agressor termina por se tornar a vítima diante da própria ex esposa (e dos telespectadores da notícia, diga-se), porque a notícia a colocou numa situação de constrangimento totalmente desnecessária.

Explico melhor esse ponto.Tratado como questão isolada, o problema ganha a versão que o próprio Pedro Paulo dá ao ocorrido: foi um caso esporádico, não se enquadra na lei Maria da Penha. Visão que, se lida num contexto cultural mais amplo, quer dizer o seguinte: eu não sou aquele preto e pobre que bate na mulher quando chego bêbado em casa, todos os dias. Eu não sou um monstro. Ora, numa visão de contexto sobre a violência contra as mulheres, eu devo ser enquadrado na lei Maria da Penha, não apenas porque não faço isso de forma recorrente, mas porque não posso fazer isso nunca. O jeito de lidar com a violência tipificada (sentido sociológico) pelo seu veio de classe faz com que no caso da violência praticada contra mulheres de classe média a agressão apareça como algo individualizado, de uma tragédia pessoal específica, na qual a violência que recai sobre a mulher (depois da cometida pelo ex-marido) seja a super exposição de fatos de sua vida íntima. Esse tipo de visão tenta passar a ideia de que a violência tenha sua causa, explicação e justificativa dentro da própria relação do casal, não estabelecendo nenhuma relação entre o “caso isolado”e os dados estatísticos sobre a violência contra a mulher de uma forma geral.

O problema do machismo é um problema público. O secretário diz que pediu desculpas para a família e que agora como figura pública pede novamente “em público”. Ora, nem digo que ele deva ir para masmorra passar o resto de sua vida lá. Mas ele deve responder de forma pública, que não é sinônimo apenas de “em público” e muito menos “para dos holofotes da mídia”, mas responder diante e dentro das instituições públicas responsáveis. Isso porque bater em uma mulher significa bater em todas do ponto de vista do problema estrutural em questão.

Além disso, a notícia consegue a incrível façanha de transformar a voz da mulher agredida numa reclamação contra a própria mídia por ter tornado a vida dela um inferno. Depois de uma cobertura dessas, imagino que a mulher deve ter se perguntado mil vezes se fez o certo em ter denunciado o marido no boletim de ocorrência da polícia, agora que uma pergunta mais difícil de se fazer, mas mais condizente com a situação, ou seja, a que precisava ser feita, seria a seguinte: ele teria batido mais vezes se ela não tivesse denunciado? E as perguntas decorrentes dessa porque cada boletim de ocorrência faz parte de algo maior do que o caso específico pode dizer de si mesmo: quantos outros homens que também não são habitualmente violentos e ou agressivos batem “apenas uma vez” as suas companheiras? Quantos mais ou menos homens bateriam em mulheres “apenas uma vez” caso essas denúncias não fossem feitas para evitar esse tipo de inferno?

O marido diz que se exceder numa discussão é uma situação normal (ao ponto de agredir fisicamente a esposa). Quebrar um copo é uma situação normal, ninguém vai à polícia por causa disso. O fato dela ter ido à polícia, que não é uma coisa que fazemos todos os dias, expõe a não naturalidade da situação. Alexandra denunciou para se defender.

Quando invisibiliza as mulheres anônimas, desconsiderando as histórias individuais por trás dos números, a denuncia pode por exemplo provocar um agravamento da violência dentro de casa. Quando super expomos as mulheres “midiatizaveis” como no caso em questão, elas ficam na situação de ter que minimizar a violência que elas sofreram para se proteger de outras, nitidamente a da própria mídia.

Se a gente que está fora da situação transforma, de um jeito ou de outro, num inferno a vida das mulheres que denunciam, estamos roubando delas um instrumento de defesa, que é a própria denúncia.

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