#Ocupe Escola: os meios qualificam os fins

Meu primo Diego Valério não é o maior fã da escola que já conheci em minha vida. Vinha se arrastando a cada ano no penoso ofício de acumulação de horas inúteis da frequentação mecânica e compulsória da sala de aula. Parto dessa constatação pessoal a respeito de um personagem isolado dessa linda história para me perguntar: qual seria a importância mais duradoura desse movimento?

Faço essa pergunta pensando numa ideia que Paulo Freire defendia muito bem na crítica dele ao que chamava de ensino bancário: a gente se faz sempre com e contra as instituições nas quais estamos inseridos. Mesmo na pior escola, dizia Freire, vai sempre existir alguém que por alguma razão encontra um jeito de aprender a lidar com aquele tipo de aprendizado. Isso porque a inteligência humana consegue encontrar caminho na falha e aceitar para si, ao pesar e apesar da instituição, dentro da estrutura mesma de ensino estanque e/ou repressora, uma maneira de se proteger do mundo, um tipo de conhecimento que, se reconhecido, passa a servir de auxílio pra vida mesma em vários sentidos. Não será esse o tipo de ensinamento/aprendizado diante do qual estamos com as ocupações das escolas?

Minha impressão é que o aspecto mais poderoso e político desse movimento das escolas é o que faz a escola real ocupada transforma-se em escola símbolo. A rede escolar no Brasil na sua complexa rede segregada (particular/pública) filtra de maneira violenta um número incalculável de talentos perdidos dentro da instituição concebida tal como está. As ocupações pelos alunos revelam o imenso contraste entre o seu potencial efetivo, o que cada escola poderia ser, e a realidade, o que de fato cada uma delas é.

Volto ao caso ilustrativo de meu primo para exemplificar essa ideia. Egresso da escola privada, na qual nunca havia se sentido bem dentro, não conseguindo nem sair de vez nem aproveitar o que lá existe de bom, pressionado pelo tipo de demanda social que o sucesso escolar supostamente inscreve em seus bem sucedidos, estava meu primo ali, junto a tantos outros, de saco cheio de uma vida inteira dentro dessa instituição que sempre se mostrou incapaz de ouvir e interagir com outras competências suas que não aquelas que são requisitadas dentro da sala de aula.“Pra que serve mesmo tudo isso?” Pergunta que parece redundar na cabeça da garotada. E não sem razão, eu diria.

A Educação é um direito difuso da sociedade. E a escola pública é a responsável por ela, à frente de toda instituição escolar. Se o projeto escolar brasileiro ainda não consegue dar conta disso, a crise do ensino estadual em São Paulo tem sido o lugar onde esse papel está sendo assumido.

Por muito pouco o Diego teria perdido essa oportunidade. Quanta gente não pensaria: que pena esse menino precisar sair da escola particular? Tem me impressionado a força de contraponto de ideias tão naturalizadas como a que aparece em depoimentos como o da Lenina, mãe do Diego:

“Ele estava numa escola privada até a metade do ano. Como corria o risco de ser reprovado mais uma vez mudamos ele para escola pública. E eu dou graças a deus porque se ele estivesse na particular permaneceria alheio a tudo isso.”

O que indica que com a movimentação política e principalmente a meu ver pelo forte apelo simbólico da ocupação física das escolas algo aconteceu. Como pode esse movimento de forma tão forte alterar o significado da escola para alguém que passou já tanto tempo dentro dela sabendo na prática o que ela é?

A própria ocupação traz uma resposta possível: suas tarefas em função de um objetivo político maior  trazem à tona os significados latentes da escola em seu potencial, aquilo para que em tese ela foi criada.
A escola tornou-se como nunca para ele um lugar de interação onde é possível encontrar uma razão sincera para estar. Até então, como um zumbi sem função para as engrenagens mortificadas daquele modelo, não conseguia acreditar na própria razão de ser da escola. Uma entidade que sempre aparecia como mediadora de algo e que como tal não fazia sentido algum para ele. Com a ocupação e o movimento político, ele passou se situar num espaço-tempo repleto de sentidos urgentes, e passou a conseguir enxergar o ideal da escola republicana para além daquilo que ela conseguiu ser sendo do jeito foi para ele até ali. O cuidar do terreno da escola. O varrer as salas de aula. O reorganizar seu uso. A produção dos eventos. O participar das aulas que falam sobre aquilo que está sendo produzido por eles. O refletir sobre as estratégias políticas. O cozinhar para os demais. O pensar a serventia da escola sob diversos aspectos. O conhecer a estrutura física por esse ângulo do cuidado. O se perguntar os porquês de defendê-la sendo ela o que é.

Dou a real: estou para ver um projeto escolar conseguir produzir esse tipo de efeito pedagógico através do jeito tradicional de pensar a sala de aula! Não faz.

Na minha opinião entender a importância e a profundidade desse movimento de ocupação das escolas em São Paulo mais duradouro, passa por se dar o direito de se juntar à emoção da mãe do Diego ao vê-lo pela primeira vez se importar sinceramente com sua escola.

Se juntar àquela emoção significa entrar fundo na seguinte pergunta: como um jovem que durante toda sua vida nunca encontrou sentido na escola passa a entender seu valor apesar do que ela realmente é para ele, a saber: um lugar muitas vezes chato e inútil. Como isso ocorre por conta e através da ocupação?

A escola, tal como a conheci, foi quase sempre tratada como um meio para seleção e preparação de quem vai ascender socialmente e com isso, só com isso, ganhar status de cidadão num país onde povo é uma coisa e cidadãos são outra. A instituição fica fadada a nunca cumprir o seu papel que gregos e troianos brasileiros concordam em atribuir a ela de transformar a sociedade.
Pensemos juntos no efeito simbólico das ocupações. A escola tratada como fim pelos alunos acaba mostrando que os fins podem e talvez devam ser outros. Que aula essa garotada incrível está nos dando!

Dito de ainda de outra forma, para enfatizar a força do que está sendo feito. Talvez a gente não precise tanto de uma escola que ensine bem ao maior número possível de alunos a como conquistar para si um lugar (no vestibular ou) na sociedade tal como conseguimos faze-la até aqui: segregada, “segregadora” e “confundidora” das palavras direito e privilégio. Se reconhecermos a urgência das transformações políticas que precisamos fazer para que a educação formal tenha algum sentido, para que ela seja um direito que nos ajude a conquistar mais direitos e não a lutar cada um pelos privilégios que nos forem possíveis, podemos descobrir, finalmente, que toda essa gente a quem pensamos que temos que ensinar as matérias da escola para que eles possam entrar na sociedade, bem, talvez possamos pensar que ela já é a sociedade, tal como esses jovens estão nos mostrando que são.

É preciso atentar para a ampliação de significado da palavra “escola” que esses estudantes estão oferecendo a todos nós. As escolas ocupadas fazem aparecer na profusão de materiais que foi produzida nas ocupações algo maior do que o ganho político mais imediato já alcançado. Nele observamos encantados quase como num passe de mágica o brotar de dentro da massa amorfa de alunos estatisticamente predestinados ao fracasso, um sem número de competências e talentos que naquele formato tradicional de escola passaria, sabemos de antemão, completamente desapercebido. Como não confrontar a imagem viva da escola ocupada e cuidada pelos alunos (com sua organização ativa e modulada em função de objetivos políticos) àquela morta e sem sal que aniquila sonhos ao invés de semeá-los? Como não ver nas escolas ocupadas o embrião de uma escola ideal na qual o aprendizado está ligado à vida como forma de vínculo entre a curiosidade e um tipo de melhoramento das pessoas que à aquisição de novos conhecimentos pode em tese presumida produzir?

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No meu TCC estudei um grupo de poetas do final do século XIX chamado A Padaria Espiritual. Eles eram de Fortaleza e produziram uma espécie de jornal manifesto chamado O pão, no qual divulgavam poesia simbolista, crônicas sociais e crítica literária da poesia da época. O que me interessou naquele grupo foi menos o valor estético de seus escritos e mais o significado de ter um grupo de pessoas, de jovens intelectuais que, alguns anos após a Proclamação da República, investia parte significativa de seu tempo para oferecer “o pão do espírito” aos seus contemporâneos. Achava incrível que uma crença baseada numa ideologia (a ideia de uma república no Brasil pós escravocrata) pudesse ter gerado sonho tão potente de ascensão social através da educação – a maioria dos poetas era de mulatos que tentava usar a literatura como forma de reconhecimento público de suas qualidades. Eles declamavam seus versos em praça pública com o intuito de atrair mais gente para o universo das letras e do conhecimento.

A Padaria Espiritual talvez não tenha muito a ver com essa moçada que está hoje defendendo suas escolas. Mas há algo nesse símbolo de possibilidade de ascensão social que a ideia de escola ganha com a república que me parece, aqui como lá, algo a ser refletido como motor de uma guinada genuína na plataforma de transformação efetiva da sociedade que passe pela educação formal. Uma escola verdadeira precisa ser capaz de produzir sonhos verdadeiros.
Meu paralelo com a Padaria Espiritual é feito apenas em um sentido específico: a ideologia da República, por mais ilusória que tenha sido, provocou nos jovens intelectuais de Fortaleza a esperança de vencer através da educação. O crença na ilusão, já dizia uma máxima da sociologia clássica, não é nunca ilusória em seus efeitos. A escola real ocupada produz um efeito poderoso de lembrança do potencial latente da escola como vetor de mudança social. E daí vem provavelmente boa parte de sua força simbólica.

Indo mais além nessa leitura diria ser fundamental reconhecer algo no contexto político das ocupações. Há uma inteligência política dos meninos e das meninas do movimento que contrasta com o momento em que o Brasil se afunda numa crise causada exatamente pela falta desse tipo inteligência.

 

Não é pouco o que já conseguiram até aqui. Venceram um dos políticos mais fortes do país com fortes pretensões à presidência da república. Um político que havia passado ileso por problemas importantes ocorridas em seu governo como a crise hídrica, que afeta a toda a população de São Paulo. O atraso absurdo na ampliação da malha ferroviária. Foi esse político que conta com o apoio quase irrestrito dos principais veículos de comunicação do estado – as rádios, jornais e tvs – que foi derrotado pelas ocupações. Os estudantes desmascararam, no processo, várias táticas típicas de uma forma de fazer política que para muitos se confundia com a forma de enxergar o mundo do chamado paulistano médio. Com imaginação e inteligência, revelaram nos momentos certos a táticas escusas do governo, desmascarando o uso do aparato do Estado para produção da mentira deslavada.

De 2013 pra cá nota-se um amadurecimento da mensagem política tributária da insatisfação das pessoas: do movimento passe livre às escolas ocupadas, dos rolezinhos ao Ocupe Estelita, uma política de Estado que represente seus objetivos por cálculos de ascensão contados a partir do crescimento do consumo de bens e serviços, estará inevitavelmente fadada ao fracasso.

Sem se sentir parte de um movimento político maior, meu primo Diego seria apenas mais um que não conseguiu caminho dentro da lógica escolar. Com as ocupações ele e seus amigos se tornam um corpo mais amplo cujo a dimensão, a força e o sentido, hoje, fazem parte integrada da história do país.

 

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