Textão para comemorar a mais nova formada da família: Jeanne Oliveira Pereira

Os amigos mais próximos sabem o quanto minha relação com a disciplina escolar e acadêmica é ao mesmo tempo tensa e visceral, apaixonada e distante. Hoje faço um pós-doutorado na Unicamp desse jeito antinômico: contorcendo-me por dentro, vibrando e morrendo em meio a sociologia dos intelectuais, forma astuta que encontrei de fazer parte da “grande família dos intelectuais” ajustando minha sensação de estranheza com o meio e tornando-a suportável – é a partir da reflexão sobre os alcances e limites da produção propriamente intelectual da disciplina a qual me vinculo que consigo lidar com o universo que sempre estranhei sem precisar aceitar o desprezo que sinto de forma latente a seu respeito.

Essa breve introdução sobre mim mesmo diante da academia, sobre como me vejo nela, é apenas um gancho oportuno para essa homenagem que gostaria de fazer para minha mãe nesse momento especial da vida dela: o de sua colação de grau no curso de Direito. Plublicizando aos amigos essa egolombra reflexiva, ou seja, dizendo o que consigo dizer de mim, gostaria de expor (para ela) o que é de minha opinião sobre ela. Isso porque é a partir desse olhar que consigo ter hoje, através da lente sociológica, que posso reconhecer ao lembrar em forma de agradecimento, o quanto esse jeito de olhar só foi possível graças a ela, que dedicou do SEU tempo, para que eu e meu irmão tivéssemos o nosso livre para estudar. Não sei se todos dimensionam a potência exemplar que tem para mim a imagem que a coloca como vencedora diante dos próprios sacrifícios feitos. Não falo da imagem do sacrifício cristão que se efetua na redenção dada pelo sofrimento, dentro da negação do valor da vida exemplificada pela reencarnação do Cristo depois da crucificação. Penso no cumprimento mesmo de tarefas julgadas por ela como de suas metas, na força de vida que a levou atravessar as fases sem desistir dos propósitos e sem se deixar abater pelos obstáculos mais importantes. O mundo não foi para mim o difícil que foi para ela mulher, mãe, de origem pobre.

A primeira coisa que guardei na memória, quando me entendi por gente, foi a imagem dela voltando para casa, depois de noite de plantão no hospital, onde trabalhava como auxiliar de enfermagem. Morávamos na Ur-6, bairro da periferia do Recife já na divisa com Jaboatão. Se os relatos e minha lembrança não falham, ela pegava dois ônibus para chegar no IMIP. Eu acordava, passava sempre olhando e com medo de uma grande estante com muitos livros que ninguém tinha tempo para ler, atravessava um corredor minúsculo que separava o quarto de meus pais do banheiro, e corria para vê-la chegar. Ela dava os plantões à noite, chegava em casa exausta e ia cuidar de mim e do meu irmão, duas crianças cujas histórias de peraltices extrapolam o anedotário familiar. Nada era fácil. Nunca cursou o ensino superior.

Nenhum sociólogo que se queira crítico esqueceria que dizer as coisas dessa forma é uma maneira de criar uma imagem romantizada de si pela homenagem feita a mãe. Mas como não assim fazer diante da lembrança da quantidade de vezes que a vi sair do trabalho e ir direto para faculdade, coisa que nunca precisei fazer. Fui testemunha adulta das vezes em que voltava, morta de cansada e, ao invés de ir dormir, ia ler os textos, fazer os trabalhos. Impossível não se emocionar. Não achar bonito o esforço e a vontade que deram origem a esse momento.

Daí vem minha certeza de que nada do que eu fizer na minha vida acadêmica, tenha a relevância que possa vir a ter um dia, pode ser mais importante do que é o seu exemplo para nós, filhos, netos, amigos, etc. Não é apenas o símbolo de que o esforço não tem idade, em si já louvável. Mas é um endosso modelar da sua experiência de vida que mostra que nenhum obstáculo social, de repertório acadêmico, de faixa etária, nada disso seria o suficiente para frear sua vontade e perseverança. Todas essas coisas que os sociólogos usam para compreender os condicionamentos reprodutivos da vida social, são fatores que ajudam a entender por que as coisas são como são, sem dúvida. Mas seu empenho mostra bem que a vida também se faz (bela) quando a gente contraria os condicionantes e se realiza um pouco além do que parecia possível.

Sei que terminar a faculdade é começar algo. É olhar para frente, como você sempre fez. Minha torcida é a de que seja uma linda carreira de muito sucesso e, tenho certeza, sendo você quem tem sido até aqui, vai ser uma trajetória de muita alegria. Nesse seu futuro que imagino vai ser um deleite te acompanhar no que vem pela frente.

Parabéns, mãe! 😍😍😍

Do seu filho que é só orgulho feliz.

Jampa.

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