Um smartphone roubado…

Porra, ele roubou meu celular. Merda, que merda! Foi um presente da minha mãe. Tem tudo meu ali dentro: fotos, textos, trabalhos. Acho que deveria correr atrás. Devo gritar? Quem sabe alguém derruba ele da bicicleta. É isso. Vou correr e gritar pega o ladrão!

Vejo depois de pensar tudo isso num intervalo de segundo a bicicleta começar a se afastar. Dou início a minha corrida, o pensamento sempre mais ágil do que minhas pernas finas.

Grito: pega o ladrão! Novamente: pega o ladrão! Continuo correndo. Ainda em meio a ilusão de alguma escuta, percebo: as pessoas olham para mim, percebem a cena, e voltam a fazer o que estavam fazendo antes.  Vendo o rapaz negro se distanciar ao descer a ladeira numa bicicleta velha, comecei a imaginar o que aconteceria se alguém realmente conseguisse pará-lo. O que aconteceria se ele fosse derrubado? As minhas pernas continuavam correndo, eu continuava a gritar, mas me perguntei: o que aconteceria realmente com o moleque da bicicleta que levara meu celular?

Muitas cenas recentes desse já velho FaceBook me vêm à mente. Lembrei da morte do pequeno Eduardo, ainda tão recente e já tão esquecida. Pior: a lembrança era da quantidade de pessoas que vi defendê-lo por “não ser ladrão”, porque “não merecia”, ou, justificar sua morte porque, morando na favela, “talvez fosse, né?” Será que iam pensar que esse rapaz “merecia”?

Memória ingrata e mais rápida que minhas pernas. Trouxe também a lembrança de que há tantas pessoas dispostas ao linchamento, à violência mais primária para a confirmação daquilo que consideram ser efeito de justiça: “bandido bom é bandido morto”.

Quantos exemplos? Quantos mais?

Pensava tudo isso e corria. Continuava a correr. As pernas lentas. A voz já não era mais tão potente:  pega o ladrão! E corria. Gritei mais forte, mas já sem convicção: pega o ladrão! Mas algo na consciência não condizia.

E lembrava a mim mesmo:

ele não merece. É ladrão. Levou algo que era importante para mim, mas não merece.
E já via o moleque se afastar levando meu celular com certo alívio.

Leva essa merda, pensei. Talvez perdê-lo desse jeito seja melhor do que nossa “justiça”.
Na minha falta de preparo físico, senti meu coração em taquicardia. Imaginei-me  vítima (de um roubo de celular) sendo também, para muito além disso, meio para a aniquilação física de meu “algoz”.

Devo estar louco por me sentir aliviado depois de ser roubado. Não queria, lógico, perder meu celular. Mas que mundo é esse, que país é esse, no qual podemos imaginar violência tão atroz como reparação de crimes banais, contra alguém que sei lá por qual razão roubou meu celular. Sim, meu celular… tinha coisas importantes nele. Muitas. Mas nenhuma delas, fiquei bem feliz de lembrar, nenhuma delas me dá vontade de matar. Devo estar louco. Não sei. Mas me senti em paz ao vê-lo já bem distante, sem que ninguém mais o pudesse parar. Vai moleque filho da mãe, leva em paz. Que mundo estranho…

 

 

 

 

 

Depoimento pessoal: a didática prática do Direitos Urbanos

Direitos Urbanos (D.U) mudou minha rotina de vida e com isso a minha forma de entender e olhar para a cidade. Eis uma afirmação concreta, que toma como base analítica decisões aparentemente despretensiosas, como a de me deslocar o máximo possível de bicicleta, ou ter passado a usar com menos parcimônia os locais públicos ainda existentes na cidade: 13 de Maio, o centro do Recife, e mesmo as ruas que, em cima de minha magrela, têm tomado outra dimensão. Melhor dizendo, as ruas e avenidas ganham outra escala, como aprendi a falar no vocabulário mais preciso dos arquitetos e urbanistas que participam dos debates e discussões do grupo. Uma escala de dimensão mais humana. Mais humana porque nela (nessa escala) é percebido em sua inteireza o nível de relação quase íntimo efetivado nos deslocamentos não motorizados e ao ar livre, liberados do ar condicionado. Passei a ocupar espaços deixados de lado por mim em minha aculturação de classe média, e comecei a perceber os malefícios da incorporação de um estilo de vida que, ao longo do tempo, vem alimentando e cultuando, na lógica típica da distinção de classe, o desprezo por ambientes de mistura social, espaços de convivência pública que por definição não filtram os tipos que os desfrutam pela capacidade de consumo das pessoas, para pegar o exemplo caro dos nossos espaços de convívio coletivo (não públicos) denominados Shoppings Centers.

Pensar o D.U a partir dessa perspectiva prática é, a meu entender, dar-se a si mesmo o direito de tentar entende-lo dentro da relação propriamente prática que ele estabelece com o mundo, uma presença pré-ocupada e ativa ligada à cidade por onde o lugar chamado urbes, esse mundo urbano, impõe-se como presença, com suas urgências, suas coisas a dizer e a fazer que comandam as atividades sem jamais se apresentar como espetáculo.  Estamos nele, dentro dele, experimentando-o e, a partir dele, vivendo a cidade e percebendo melhor seus horrores e delícias. Mas mais do que isso, o D.U trouxe uma novidade revigorante: nele aceitamos o desejo político de interferir nas dinâmicas que hipertrofiam a percepção da cidade, aprisionando-a na lógica hegemônica agenciada pelo mercado imobiliário e não contrabalançada, como devido, pelo poder público. Nessa dinâmica uma luta realmente política se dá pela construção de uma visão de cidade sensível aos clamores mais concretos de sua existência real.

Nesse sentido o D.U é um movimento que provoca nossa inteligência e sensibilidade. No D.U à pergunta “que cidade queremos?” se agrega a que indaga sobre “que cidade já temos?”.  Espécie de realismo pragmático que surge em meio a culpas históricas de uma classe média ao mesmo tempo vítima e protagonista de seu próprio estilo de vida. No seio da maior contradição objetiva e estrutural do movimento, no seu demérito de ser um movimento de classe média, abre-se paradoxalmente uma brecha de liberdade analítica com amplo poder heurístico e político. Fazendo-se de defeito uma qualidade, criaram-se as condições de perguntar-se para qual cidade existente – e não experimentada também por muitos de nós do movimento, desse lugar do qual indagamos que cidade queremos, e no qual vivemos nossa sociabilidade específica – para qual cidade real e já efetivada estamos também nós cegos? Às duas perguntas são seguidas de duas outras delas decorrentes: se não a vemos é porque não a queremos? Sabemos o que estamos denegando e as razões dessa denegação?  E já mais politizados continuamos nossa busca: vale mesmo a pena apostar nessa crítica que tem revelado as várias facetas da força motriz que impulsiona e modela os estilos de vida das classes dominante e média tentando generalizá-los para o resto da cidade? Vale a pena acreditar que é possível vencer o tipo de aparato publicitário usado para modular sonhos de distinção social, para criar esse verdadeiro efeito de hegemonia que é o que torna o estilo de vida de uma minoria algo aparentemente desejado por uma maioria? Sobre essa última pergunta, minha experiência de D.U diz que é possível entender o que estamos perdendo ao aceitar a imposição desse modelo sem nenhuma resistência: a simples mudança de certos hábitos foi capaz de instaurar uma impressão de liberdade própria às grandes descobertas que, como no mito da caverna, provoca o desejo de liberar dos limites de uma experiência limitada de mundo os que continuam a pensar que as sombras, que são apenas parte aparente dele, são o mundo inteiro.

Mas a contradição de classe do grupo vai mais além e pode ser ainda mais ilustrativa e didática em seu propósito político. Com quem estamos dialogando? O estranhamento antropológico com uma parte da cidade já existente e vivida por tantos não pode ser apenas um método falseado e artificial de viver a cidade como experimento esporádico, como já fiz por aqui. Como dizer para alguém que sempre andou de bicicleta por necessidade que ele deve continuar andando por opção? Como dizer a massa de pessoas que se tornou consumidora,  seria esse o maior legado do governo Lula?, como dizer para ela… “- olha, agora que nós da classe média histórica estamos enfrentando problemas de mobilidade com os carros,  isso não é uma coisa tão boa assim, é melhor usarmos o transporte coletivo ( que na verdade, eu sei, você sempre usou por necessidade), hrum, olha, agora que você pode, sei que é difícil entender, mas entenda, é ruim morar em apartamento, a coisa da verticalização não é nada bom. Vê só,  cara, entenda de uma vez por todas que o carro que te tira da invisibilidade e te dá status é um grande vilão!

Que cara de pau tenho eu para isso? Nenhuma. E isso força uma reflexão sobre o papel do poder público nas políticas que dizem respeito a direção que a cidade deve tomar: como produzir a famosa e formosa cidade boa para cohabitação de todos? A cidade boa de se viver? Existe algo extremamente didático nesse lugar de crítico que ocupamos quando defendemos uma outra visão de cidade. E devemos aprender com o incômodo oferecido por esse lugar contraditório que estamos ocupando. A contradição nos coloca no olho do furacão. E isso é bom.  O fato, e aqui falo mais por mim que nunca nesse texto, é o seguinte:  percebo que esse lugar paradoxal no qual me encontro quando faço parte desse movimento reforça a percepção da  marca de classe que esses problemas urbanos conformam. A pauta do D.U faz ressurgir também uma memória suburbana tensa: durante muitos anos de minha vida tomei ônibus para ir do subúrbio à cidade e dela voltar. A experiência do trajeto foi sempre confusa. De início uma sensação de liberdade, de ampliação do horizonte de deslocamento. Mas depois, com o avanço das percepções sociais naturalizadas,  a lembrança é de uma vergonha ligada às marcas sociais indexadas ao lugar que você mora e ao tipo de transporte que utiliza. Sei o quanto essa prática de usar o transporte coletivo, específicamente o ônibus, é aviltante, porque justamente atrelada às mais diversas formas de representar a pobreza, o que vem de baixo, a ralé e a escória da sociedade. Ônibus numa cidade que se representa de cima para baixo de maneira tão excludente vai ser sempre sinônimo de “coisa de pobre”, tal qual essa ideia depreciante está presente em minhas lembranças.

O D.U, contudo, não deve ser travado por sua contradição elementar, como já dito. Isso porque sua pauta tem caráter didático e deve ser encarada como um processo longo, como todo bom processo educativo. Digo isso na mesma perspectiva de leitura política que o Safatle fala da “paciência histórica” que os movimentos de esquerda deveriam adotar para pautar a persistência de seus projetos políticos. Sem temer o contraditório, mas evitando a inconsistência da denegação das contradições existentes, o movimento vai revelando um momento de leitura da história da cidade do Recife, estabelecendo outro vocabulário para tratar de seus problemas ao mesmo tempo em que enfrenta, por conta de sua própria ambivalência, a si mesmo. O caminho é longo e tortuoso porque é, em muitos sentidos, contra-intuitivo e contrário ao senso comum. Quem dos muitos de nós, participantes do grupo, em momento ou outro, não compartilhou de parte dos valores que a partir das reflexões do D.U hoje podemos criticar de maneira mais sistemática ou perceber as limitações? Que esse apredizado, mesmo quando difuso e incoerente, seja  bem prolongado e continue aprofundando a percepção dos problemas da cidade e, com isso, produza outro efeito concomitante : que possamos também aprender um pouco mais sobre nós mesmos. Afinal, o Recife somos nós, ligados como pele ao seu tecido e ela a nós. Não apenas aos outros.

Caxambu em fragmentos 4 : micelianas

Esperei um pouco para escrever esse post. Quis experimentar algo parecido com aquilo que Graciliano Ramos descreveu ao falar da experiência de escrever suas memórias de prisão tantos anos depois do evento, e sem o auxílio de notas. Na verdade, essa impressão de estar vulnerável às imprecisões da memória gera um gostinho voluptuoso de estar reproduzindo fielmente uma verdade quase inventada…

No meu caso o tempo que separa meu texto do evento no qual apresentei meu trabalho são apenas alguns dias. Os dois primeiros dias de GT 30 foram descritos com a parcimônia impaciente do imediato no dito: escrevi minhas impressões logo após a vivência daqueles momentos. A sociabilidade foi aquilo que mais me marcou, o isolamento de ser para aquelas pessoas ilustres um “inútil desconhecido”.

Minha apresentação foi um dia depois do contudente posicionamento de Sergio Miceli. Ele havia barbarizado os trabalhos do dia anterior, colocado em questão seus postulados, criticado a maneira leve de lidar com o intelectuais ali sendo analisados. Pontuou a fraqueza metodológica, a secura bibliográfica, o modo de operar. Depois daquele cataclisma o que esperar do depoimento dele para o meu trabalho?

Eu apresentei meu texto depois da Maria Arminda Arruda. O trabalho dela de alguma forma recortava aspectos do meu. Ela busca problematizar, se eu bem entendi, as razões pelas quais a literatura social dos anos trinta se desenvolve na periferia das regiões onde ela supõe que o modernismo se afirmou (São Paulo- Rio) e de alguma forma se difundiu para as regiões periféricas do Brasil(o professor Dimas criticou-a justamente nesse ponto por achar que existe aí uma analise difusionista da cultura que não condiz com a realidade da produção cultural brasileira naquele período). Meu trabalho trata um aspecto mais específico dessa produção, tentando localizar a posição simbólica de uma obra (sua função, seus objetivos, seus conteúdos) a partir da análise documental da maneira que essa obra fôra recebida. Uso o caso emblemático da obra de Graciliano Ramos, que tem sido reverenciada por sua qualidade formal em detrimento de obras que seriam menos cuidadosas nesse sentido (a de Jorge Amado, por exemplo, que seria mais de um realismo chulo), para mostrar que essa obra fôra recebida em função de qualidades pouco ligadas a sua sutileza formal.

O trabalho foi muito bem acolhido. O professor Dimas, que é de literatura na USP, disse que era um trabalho que trazia reflexões importantes para quem exerce o ofício da crítica. Ele ponderou, porém, que no meu texto existia um certo “ímpeto juvenil”, uma maneira por demais incisiva de defender certos pontos de vista que podem ser vistos como problemáticos.

Durante a apresentação, lembro agora, eu estava muito nervoso e com medo do Miceli. Tanto, que falei meu texto quase que olhando apenas para ele. As vezes me dava conta do cacuete, e tentava desfazê-lo, o que fazia transparecer ainda mais meu nervosismo nas trepidação de minha voz e no esforço desajeitado de reter a tremulação do microfone em mãos que só queriam ser mais firmes. Como algo do meu trabalho dialoga com elementos do trabalho dele, meu receio era de ser acusado de “uso indevido” ou de “tratamento desarticulado” da sua proposta de trabalho.

Depois do depoimento do Dimas, vi que o Miceli havia pedido a palavra para comentar meu trabalho. Ao contrário de Dimas, mas sem contrapô-lo, elogiou a disposição para “enfrentar os grandes” e a qualidade do trabalho que com uma análise de contexto trazia a obra para narrativa que contemplava elementos importantes de sua inteligibilidade sociológica.

Depois a Lilia Schwarz chegou a ler um trecho do meu texto onde ela dizia estar explícito aquilo que o Dimas havia salientado. Ele diz na página tal ” A sociologia não pode titubear quanto ao seu papel…”. Dimas havia colocado também como crítica importante, além de meu estilo por demais enfático, que o fato de me servir apenas de uma fonte, o Arquivo Graciliano Ramos, também era problemático do ponto de vista da validação histórica do meu argumento que se daria de forma mais completa, o que concordo plenamente, a partir do cruzamento de diversas fontes. Sugeriu-me que buscasse encontrar os números do Boletim de Ariel (revista de crítica literária talvez a mais importante na época), para tentar confrontar a documentação que tenho com um material mais completo de produção da crítica.

Eu respondi às críticas de maneira honesta. Disse que o meu estilo virulento tinha como origem, além de minha juventude, uma razão institucional, na medida que o tipo de trabalho que venho defendendo não condiz com o modelo de excelência vigente na instituição na qual desenvolvo meu trabalho. Falei que por conta do tempo, para minimizar os efeitos da seleção dada de textos contidas nos recortes de jornais recolhidos por Graciliano, faço uso de um esquema de análise que considera bons e maus críticos alí contidos da mesma maneira: o critério é identificar que atributos qualificavam a obra como de boa ou má qualidade, o que tornou possível a descrição de um padrão de leitura que condizia com as propriedades da obra que estava sendo avaliada. Dimas também havia criticado o fato de eu não ter anunciado desde início do texto o que vinha a ser sociologia implícita, o que dificultava a tarefa do leitor. Eu concordei com a crítica, e disse que aquela falha era tributária do esforço de alocar no mesmo texto partes díspares de minha tese, o que levou a um condensar de elementos de maneira estruturada em função ainda da construção do objeto de estudo. É a ausência da retórica, que é que produz uma clareza de propósito, a razão do defeito apontado. Na verdade, no meu texto o sentido vem junto com a trajetória do pensamento, ele não é então posterior, mas concomitante ao exercício de reorganizar as idéias depois de uma pesquisa já pronta. No meu artigo não tinha ainda a camuflagem onde os esforços que trazem o rendimento heurístico não mais se encontram, onde a modelagem do texto apaga a luta constante para captar o melhor caminho para produzir a melhor inteligibilidade. Eu concordo, é um defeito dificultar a tarefa para o leitor. Mas quando apagamos os traços de nossas dificuldades em detrimento da clareza retórica do “já descorberto” não estaríamos em nome dessa preocupação sendo desonestos ocultando os processos que nos levaram ao nosso propósito?

Para mim o GT e a Anpocs foram um bom momento de reflexão para minha tese. Talvez o único momento onde tive um retorno crítico importante onde quesões metodológicas e técnicas importantes foram colocadas (sobretudo pelo professor Dimas) para o melhoramento do trabalho. Agora é meter bronca nessa reta final. Pois o locus do trabalho parece não estar equivocado em abosluto.

Caxambu em fragmentos 3

Ontém os trabalhos foram todos de pensamento social brasileiro.Comparação entre Alberto Torres e Rui Barbosa, análise sobre o conceito de mudança social no pensamento de Maria Isaura Pereira de Quiroz, comparação entre Florestan Fernandes e Guerreiro Ramos.

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Primeiro comentário do debatedor Sergio Miceli: eu não gostei dos trabalhos. Então não vou comentá-los individualmente porque vocês são jovens e eu não quero desencorajá-los. Eu vou apenas dizer o que é que falta no trabalho de todos vocês…

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Existia um clima tenso na sala. Os rostos dos apresentadores estavam sem expressão. Ouviam Miceli dissecar sobre a irrelevância de se comentar os comentaristas já tão comentados. De se fazer isso sem levar em conta a fortuna crítica daquele autor. De aceitar a relevância do autor como dada, sem probelmatizá-la. Cadê a justificativa? Dava para se ouvir os suspiros por conta do silêncio sepulcral que se dera como reflexo das palavras do debatedor. O que faltava naqueles trabalhos?

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E o Miceli usava todo o arsenal bélico e fino da sociologia da cultura para reduzir ao quase nada todos os elementos ainda resistentes de uma história das idéias, segundo ele, extremamente mal feita.

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Não houve resposta em mesmo nível. O que é uma pena. Eu gostaria de ter visto um posicionamento contrário, do Leopoldo W., por exemplo, que apresentara um trabalho engenhoso sobre Villa Lobos no dia anterior e que não recorria sistematicamente aos pressupostos da sociologia da cultura e dos intelectuais. Mais próximo da crítica literária, partindo inclusive de uma reflexão do Antonio Candido do Formação da Literatura Brasileira, ele discorre justamente sobre um ponto de inflexão formal na obra de Villa Lobos que fugiria, naquele ponto, a determinantes externas de cunho social.

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Mas não houve refute individual, só recalque coletivo. Quiseram ler as críticas do Miceli como críticas de ordem metodológicas. Ora, se bem entendo os argumentos ali colocados, e se os levo às suas últimas consequências (que é a própria reflexividade), seria preciso encontrar o argumento institucional não mais apenas na história feita dos intelectuais estudados, mas na história sendo feita daqueles jovens que não escreveram aqueles trabalhos num vázio institucional. A pergunta é: quem são os orientadores daqueles trabalhos, quais são os critérios analíticos oriundos das ementas de aula das instituições que os formaram, identificadores reais das normas as quais guiaram seus esforços reais de interpretação daquelas obras? Sem essa pergunta só tiramos o curativo da ferida e a deixamos descoberta.

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Os trabalhos eram bons? Todos ficaram de acordo com Miceli: não. Sobrou como sempre para o lado mais fraco: o dos pesquisadores entrantes que se caracterizam pela fragilidade na relação de poder estabelecida com os representantes ilustres do pensamento social brasileiro.

Caxambu em fragmentos 2

Chego à sala vazia. Aos poucos as pessoas vão chegando. Capto conversas desconexas sobre um assunto ou outro. As pessoas se conhecem entre elas. Sorridentes, felizes do reencontro.

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E eu só nesse mundo.

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O GT de pensamento social é um antro feudal da intelectualidade brasileira. Estão todos falando a mesma língua (do pensamento social)? Não importa. É a sociabilidade e não os embates intelectuais que apontam meu desconforto.

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O lugar pode ser descrito como um feudo. Um lugar onde quando os plebeus se arrogam a falar algo, as “besteiras” ditas transparecem no desconforto dos “Senhores” que se apressam a dizer “pode finalizar essa pergunta”, o que logo minha tecla sap traduziu por: “vamos discutir algo realmente interessante”. Para mais a frente completar: “algo no nosso nível de apreensão”.

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Isso deveria parecer natural para mim. Deveria. Afinal, nas regras do jogo acadêmico, o que está realmente em jogo, ou seja, a qualidade argumentativa própria do “pensamento social” ali posto, deveria ser tido como prioridade. É verdade, deveria me dizer, não vamos peder tempo com perguntas tôlas e sem sentido. Isso faz parte de uma lógica de produção que gera excelência no pensamento.

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Mas aquela sociabilidade me deixou a flor da pele, angustiado: o que é aquilo? Que desconforto é esse?

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Os trabalhos foram bons, de alta qualidade, mas algo que não saberia descrever bem me incomodou profundamente, mais do que em outros congressos que participei. Sim, as exposições foram muito cuidadosas, com intelectuais experientes, talentosos e porque não dizer: eruditos.

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Eu achava que estava preparado, mas nem na França vi semelhante imagem de autoreferenciamento coletivo. Não é intextualidade. É o comportamento das pessoas entre elas que evidencia a forma endogâmica de um grupo que pouco se mistura, ou, para dizer o mínimo, se se mistura, só o faz com alguns “iguais”.

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Eu entrei mudo e saí calado nesse primeiro dia. E meu calar tão raro nessas ocasiões onde os temas me são tão caros tem a ver com meu espanto em ver de maneira tão explícita a segregação regional da sociologia brasileira. USP, UNICAMP, PUC, definitivamente não são em nada parecidas com as uefepeéis da vida.

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Leopoldo Waizbort apresentou um trabalho novo dele sobre Villa Lobos, solicitando uma leitura formalista da obra do compositor… Segundo comentário dele, já respondendo as perguntas, esse trabalho de conhecimento substantivo da obra é fundamental para garantir um equilibrio entre as análises históricas (segundo ele hegemônicas no caso dos estudos de Villa Lobos) e as análises formalistas.

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Outro trabalho que eu gostei foi o de Paulo Renato Guérios. “O uso de trajetória de vida como estratégia de análise sociológica: o caso de Heitor Villa Lobos”. Aqui minha percepção se concentrou mais no trabalho de reflexão metodológica do autor que lidava com uma reflexão a respeito das formas de integrar estudo de trajetória e o contexto social. Isso a partir de uma comparação entre os estudos de trajetória sociológicos e algumas interpreções de Villa Lobos que levavam em conta seu contexto social.

Caxambu em fragmentos 1

…caramba, essa viagem não acaba. Esse ônibus continua a ziguezaguear como se estivesse em cima do símbolo matemático do infinito. Não quero vomitar. Não posso passar mal, não peguei a porra do saquinho de plástico. Não entendi porque haviam tantos na entrada. O motorista parecia tão tranquilo. Nada em seu semblante transparecia prever tormento na natureza da viagem…

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A sede havia passado. E o enjôo começou a sumir. Eu tinha a Piauí nas mãos. Li o interessante diário da jovem polonesa Marysia Wróblewska. Ele me fez lembrar de muitas coisas pelo avesso. Com aquela coisa de que as vezes, tentando fugir de clichês, a gente termina se tornando um deles. (Não que a polonesinha seja de todo um clichê, não é isso. Mas não seria um clichê uma jovem inteligente e já culta querer fugir dos clichês ao chegar num país de tantos lugares comuns?) Por outro lado, é muito bom ver os mundos que podem ser descobertos por alguém com uma boa educação: abrir-se para conhecer o outro e aprender mais sobre os próprios limites (a disposição dela ao sair de seu cantinho para conhecer algo tão diferente é muito bonita).

Distraído, a leitura me levou para as palavras de pessoas amadas que aterrizaram nessa terra incrível e quase inexplicável que é o Brasil e seus tantos brasis. Palavras que descrevem com espanto o centro de gravidade do corpo feminino estando na bunda, palavras que titubeiam a dor quase sempre disfarçada dos brasileiros ao falarem de sua alegria real, mas sem sal. Afinal, ninguém consegue assumir que ninguém é capaz de assumir completamente o fardo que é viver em meio a nossa violência urbana. Quem sofre, cuida. Mas cuidar termina sendo se manter no medo ao tentar evitar o pior. Padecemos nessa redundância sem sentido.

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Bebi na fonte da Majestade Leopoldina, logo senti os benefícios da realeza: grandes poderes trazem maiores responsabilidades. Daí sentei ainda sentido dos saculejos no juízo causados pela viagem. Fiquei num banquinho esperando o efeito terapêutico da àgua chegar.

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Ainda estava cansado. Mas ainda assim li a matéria sobre Serra. Gostei bastante. Mas talvez porque por demais acostumado com o jornalismo ora marketeiro ora detratante de nossa grande imprensa, achei que o equilíbrio dado por Daniela Pinheiro ao retratar um Serra mais complexo, menos caricato, tendia um pouco em desfavor do pré-candidato. As vozes em off denuciavam com muita ênfase os esforços naturais de pessoas próximas e queridas ao tentarem proteger seu ente de possíveis usos impróprios de suas palavras. Esse recurso técnico, muito usado em entrevistas sociológicas e em descrições entnográficas para contextualizar elementos discursivos de entrevistas, tem um incrível efeito de aclarar as intenções por trás da fala. Em todo caso, é uma matéria de bom, muito bom jornalismo. Ela traça um perfil do lado de Serra, jogando meio que contra ele, através desses recursos do qual eu cito um (a descrição das vozes em off), o que é uma meneira a meu ver muito inteligente de equilibrar uma matéria onde a voz inimiga não pode dar o contraponto realmente ponderado sobre o assunto.

***

Hoje acordei às cinco da manhã. Jorge foi novamente super atencioso comigo. Tomamos o café da manhã juntos. Havia um taxi me esperando embaixo para me levar até a rodoviária. Entrei sim, no que viria a ser o inferno das curvas sem fim…

Toda sua vida para chegar aqui

Eu e meu amigo Bernardo Jurema passamos um dia inteiro o ano passado passeando pelo Cemitério de Santo Amaro. Tiramos algumas fotos. A idéia era voltar mais vezes. Visitar outros cemitérios, fotografar a vida que vive às proximidades da morte. A atividade causou estranhamento de alguns, o que já era de se esperar. Uns dizendo ser uma bizarrice de nossa parte, outros julgando uma falta de respeito com a memória dos mortos. Ouvimos um pouco de tudo e de tudo um pouco.

O fato é que fomos lá e encontramos coisas muito interessantes. Por trás dos jazigos, tumbas e covas ficam escondidos aqueles traços e troços da vida que só a morte ajuda a decifrar mais um pouquinho. Claro, com o empurrãzinho da consciência amarga dos que ainda estão em vida.

Dia lá dia cá serão postadas aqui algumas fotos. Umas serão comentadas. Já outras, como as que seguem, não. O objetivo: apenas captar aspectos temáticos, para que a imaginação de cada um sugira com mais liberdade aquilo que as fotografias revelam como registro. Uma ironia, um sarcasmo. Tudo vale diante de algo tão indecifrável. Só não vale ter medo da dita cuja… afinal, no final, dia ou outro

Hoje, começo o trabalho com o Descanço.

A pá inerte.

Repouso profundo

Apenas descanço

O sebastianismo antenado