O “rolezinho”do Estelita e minha alegria: a rasteira da cidade em todos nós

Eu deveria estar triste porque o ato ontem acabou no RioMar, um centro comercial de lojas que representa um modelo de vida societária que eu acho redutor, segregador e ruim para cidade. Dentro da minha perspectiva, o lugar feliz de se terminar uma caminhada simbólica era na praça pública, lugar o qual depositamos a esperança do encontro e da mistura na dinâmica viva de uma cidade que parece ser vocacionada para isso.

Mas ao ver as imagens do ato dentro do Shopping eu não acreditei no que meus olhos e o meu coração me pediam. A tristeza simplesmente não me veio. Vi muitos amigos sensatos, pessoas a quem admiro, externando a opinião segundo a qual teria sido um tiro no pé o ato no RioMar, porque era um movimento assustador para pessoas que, não prevenidas – eu acrescentaria- não prevenidas porque justamente “asceptizadas” pela rotina prosaica e sagrada do templo do consumo – estariam perdendo a possibilidade de dialogar com setores mais conservadores da sociedade que, até aqui, não simpatizam com o movimento apenas por desinformação, e não por má fé.
Mesmo tendo ouvindo esse cuidado crítico ( e o respeitando), a minha impressão é de que o ato produz algo maior e mais forte do que a recusa/aceitação ou aderência/repulsão de setores da opinião pública ao movimento. O ato teve uma dupla relevância política para mim:

1- o impacto simbólico de mostrar que o movimento entende o quanto aquele espaço tem a ver diretamente com o que está acontecendo na cidade como um todo e ; 2- talvez mais importante, transformou um lugar que não é por definição um espaço público, em um lugar onde acontece um “evento público”.

O shopping já é um lugar que dissimula e mimetiza o espaço público sem de fato ser. Mas quando fenômenos como os do “rolezinho” e esse ato de ontem acontecem, ele de fato se transforma em outra coisa que precisa ser avaliada. Esse fato é político. Um verdadeiro milagre, totalmente contra-intuitivo, de produção simbólica da própria cidade. Isso quer dizer que o Shopping, quer queiramos ou não, faz parte sim de nossa cidade, inclusive tendo abocanhado espaço importante num lugar estratégico de interseção entre as varias regiões. As pessoas estão lá e, queiramos ou não, aceitemos ou não, pelas razões que devem existir para isso, gostam de ir e de ficar naquele espaço. E talvez não haja outro lugar de fato mais interessante de dizer que há outras formas de se viver, de se mostrar isso, que numa apropriação pacífica e simbólica de um lugar que ao negar a cidade, precisa ser negado por dentro, de dentro, para que possa ser ele também integrado à uma dinâmica mais complexa e plena que a cidade passa a exigir quando paulatinamente ganha consciência de si.

O ato me revelou algo de realmente subversivo: mostrou-me que foi a cidade, não o movimento, não a prefeitura ou o Shopping, foi ela que atuou com sua força disforme inesperada na produção de uma mistura. Todos levamos uma rasteira quando a cidade insiste em ser promiscua de si mesma, apesar das vontades das partes interessadas em ficarem cada uma no seu espaço predefinido por suas próprias lógicas. A cidade nos venceu a todos ontem e isso é motivo muita alegria e não de apreensão, apesar da confusão que possa causar. E sei que causa. Não senti tristeza. Não mesmo.

 

Link para vídeo: https://www.facebook.com/laizaxavier/videos/1088115004539119/?pnref=story

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Refletindo sobre atividade intelectual no dia internacional da mulher

Há dias tenho tentado dar mais atenção e cuidado ao meu trabalho acadêmico, mas as tarefas do lar não ajudam. Cuidar do pequeno, fazer comida, faxina, colocar para dormir e todas as milhares de antecipações que cada um desses afazeres necessita consomem não apenas o tempo, mas a energia para os outros tipos de trabalho. Mas essas são as condições de meu trabalho intelectual atualmente, digo-me, para paziguar minha consciência improdutiva. E milhares de mulheres antes de mim passaram por isso com sucesso, por que não eu?
Hoje é o dia 7 de março e as homenagens para o dia das mulheres já começam a se intensificar nas TLs da vida. Muitos parabéns, flores e um blá blá blá habitual. Muitos votos de basta contra a violência física contra as mulheres. Muitas lembranças sobre essa luta política necessária e importante que é a do feminismo. O dia das mulheres sempre me deixa reflexivo.
Acho que por isso comecei meu texto pensando nessa minha “condição feminina” atual, de macho do lar. Não sei se é homenagem o que faço. Creio que não. Mas lembro de um conceito de uma obra que me é cara dentro de minha formação, a idéia de “escolástica”. É um termo que ganhou contornos críticos dentro da sociologia dos intelectuais à Bourdieu. Termo que vem da palavra “skholé”, do grego, e que significa lazer. Por extensão o termo designa “aquele que tem tempo”, e de forma mais genérica, mais ampla, “as pessoas cortadas da vida ordinária e de suas urgências”, por equivalência, os intelectuais (não por acaso, durante tanto tempo, predominantemente homens).
Fiquei pensando o quanto a estrutura da vida social nos termos os quais vivemos ainda hoje é uma das principais responsáveis pela disparidade de condições entre homens e mulheres no Brasil. Não falo em estrutura como uma noção abstrata. Penso, por exemplo, nas atividades intelectuais que, para serem bem executadas, são exatamente esse equivalente de tempo “livre das urgências” que é negado às mulheres na naturalização efetivada nas divisões sexualizadas das diferentes tarefas desde a tenra infância. Essas atividades são diferentemente distribuídas entre as mulheres também, segundo a classe social. Mas via de regra, existe uma clara e veemente feminização das atividades domésticas, do lar. O que o menino pode e não pode. O que uma menina pode e não pode. Isso é tão determinante.
Pergunto-me: por que nós homens ainda hoje não aprendemos e não ensinamos aos nossos filhos do sexo masculino as asperezas das tarefas domésticas? (Percebam que não pergunto para as mães, por favor. É triste responsabilizar as mulheres por um problema que é de todos, não é?)
O como esse jeito de nos educar reflete depois, já na vida adulta, as disparidades estatísticas mostram as distorções. Nossa socialização de gênero dificulta sobremaneira a presença das mulheres em espaços importantes da vida social, e nos faz tão desiguais em nossos direitos.
Que o dia das mulheres seja um dia no qual possamos nos rever diante de tantas coisas incomensuráveis como é o fato de ter nascido homem e de ter tido privilégios como o que diz que não precisava aprender (gastar meu tempo livre com) as atividades domésticas. Que possamos gastar nosso tempo juntos para pensar outras formas de nos fazer em sociedade, de aprender juntos a nos reeducar ao educar nossos filhos e filhas, jeito de tentar sermos menos diferentes em direitos e oportunidades num futuro próximo, e quem sabe mais felizes na forma de experimentar o respeito às diferenças que restarem.

Voltando ao jogo

Andei tendo uma daquelas crises blogueiras-existenciais.  Parei de escrever um tempo para pensar as razões pelas quais escrever um blog vale a pena. Você precisa ter um público. E pensar nele. Ninguem escreve para si mesmo, escreve? Ainda mais quando digita palavras na internet. Não faz sentido falar sozinho.

 Acompanhei os números de visitas por aqui, e é engraçado perceber que as polêmicas políticas locais são de longe a maior audiência do que fiz blogando. Sei as razões disso. Ninguem lê minhas opiniões políticas como se fossem frutos da análise de um sociólogo atento… Fatalmente, o diagnóstico que Antonio Candido fazia da situação sem saída do intelectual que resolve falar de seu próprio universo de maneira crítica se desdobra em minha situação: na política, sendo filho de um personagem central, opinar para mim é ser das duas uma; se concordo, meu argumento é visto como mera continuação extensiva das opiniões de meu pai, ou, caso contrário, se discordo, até o filho discorda, dando efeito de lupa ao ato de discordar. A medida é sempre desequilibrada para bem e para mal.

 Não tenho verve de polemista político. Se a tivesse, teria encarado algumas com certos jornalistas que, tendo sempre a palavra de alguém por trás da deles, não conseguem ver autonomia na opinião alheia. É triste. Imaginem o que é dialogar com gente assim.  Os argumentos estão lá, são consistentes, mas eles não importam. Afinal, eles nunca são seus.

A saída  para esse aparente paradoxo(que é desdobrado por parte da imprensa) é não fugir dele. O dilema aqui é encontrar o bom tom e exercer com caráter o propósito de analista, de cidadão interessado na vida pública de sua cidade, de seu estado, de seu país. Aos que pregam que a minha filiação seria necessariamente impeditiva da minha vocação política, afirmando que no meu caso isso  seria fruto do sempre temeroso filhotismo – esse traço tão característico quanto nefasto de nossa cultura política -respondo o seguinte: do capital político de meu pai (o qual admiro por compartilhar os valores que norteiam sua prática política e visão de sociedade), herdei apenas o que aprendi como sendo reconhecidamente suas qualidades como político vindo das bases sociais: sua visão e compromisso com a luta pela justiça social.  E a crítica fruto da análise sociológica do mundo é um elemento do qual disponho e não posso abrir mão nessa batalha.

Resumindo: esse texto é apenas mais uma avaliação sobre o direcionamento recente do blog que além das crônicas e análises sociológicas de ocasião agora traz a análise da política local como foco dos textos.

É um alô. Uma volta lenta, gradual e segura ao mundo da blogagem.

Daniel Coelho: nota sobre seu mérito político

É preciso reconhecer algo a respeito da cena política pernambucana: a luta solitária de Daniel Coelho para continuar sendo oposição merece nota de muito respeito. Na minha opinião, não resta dúvida:  Daniel Coleho é o elemento mais novo surgido na politica de Pernambuco. E isso não é pouco, para quem tanto ouviu falar em renovação de meia boca. A voz isolada dele é uma aguda alfinetada: num estado de conformismo e coronelismo, onde todos deputados querem ser do governo, o cara luta para firmar posição. Tiro meu chapéu.

 O problema que o deputado tem enfrentado é revelador de um estado de coisas: os partidos políticos em pernambuco tornam-se partidos de verdade quando se trata de proteger, parece piada, a flexibilidade vexatória de seu adesismo governista. A reação do PV   é absurda. Nós que acompanhamos a campanha eleitoral de 2010, e vimos o comportamento de Daniel Coelho, percebemos a coerência de seus posiconamentos. É um partido que se volta contra sua própria dignidade. Sou filiado a outro partido, opino aqui sobre a questão da tomada de posição política, elemento central da prática do metier de político. Quando meus amigos me perguntavam o que é que eu tinha contra Marina Silva, eu baixava a cabeça, meio triste, porque tinha respeito pela candidata, e silenciava pensando nesse tipo de coisas. O jovem deputado vem sofrendo por querer ser um político de posição,  algo que merece muito mérito num contexto político como o nosso.  Resta saber se terá força nas pernas para se manter de pé com a dignidade que vem mostrando até aqui. Do lado de cá, pensando numa frase geralmente atribuída a Voltaire, diria que discordo basicamente das posições políticas dele, mas lutaria até o fim pelo direito dele de poder defendê-las. Encontro aí razão suficiente para minha nota.

Comentário sobre a “verdadeira” oposição

O cenário político pernambucano é lastimável. E a verdadeira medida disso está na péssima qualidade da oposição. Pode-se medir isso que digo pela tentativa de tirar proveito das querelas internas do PT, feita pelo deputado Raul Junlgmann, do PPS, ver aqui. Falta foco político. O que vale para esquerda, se perder o prumo, vale mais ainda para direita. Junlgmann menospreza a inteligência das pessoas ao insinuar que tudo na política é e deve ser transparente e que os oponentes tem que tonar pública a razão de ser de suas disputas. Esquece que o povo sabe que na política existe o “jogo político” e que nem tudo é dito, por questões de estratégia de manutenção de poder, ou de sua conquista. Eis uma posição vazia de significado político porque todos sabem que se tudo estivesse à mostra,  não existiria a necessidade do fazer política. Em outras palavras, se ele mesmo não inventar um Wikileaks dos bastidores da política, esse tipo de reação não causará efeito algum.  Só expõe, como bem disse de outra forma Marisa Gibson, a lentidão da oposição para se arrumar diante de uma conjuntura na qual, segundo a colunista, não há espaço para palanques separados.

Nota de Esclarecimento

Veja, na íntegra, a nota de esclarecimento do ex-prefeito e deputado federal, João Paulo, sobre as últimas declarações do atual prefeito relacionadas às finanças da Prefeitura do Recife.

Nota de Esclarecimento

Ciente das suas responsabilidades perante a população, a administração dos recursos públicos e em defesa do aprovado trabalho realizado nos oitos anos em que esteve à frente do executivo municipal. E ainda conforme os Balanços Contábil e Financeiro Consolidado da Prefeitura do Recife do ano de 2008, assinados pelo atual prefeito, em 9 de fevereiro de 2009, e publicados no Diario Oficial do município, o ex-prefeito do Recife e deputado federal, João Paulo (PT), considera oportuno esclarecer:   

1 – O saldo financeiro em caixa em 2008 para o ano seguinte foi de R$ 233.423.716,39 e não de R$ 10 milhões, como disse o atual prefeito em entrevista ao jornal Folha de Pernambuco, na edição deste domingo (16).

2 – No Relatório de Gestão Fiscal  de 2008,  o demonstrativo dos  Restos a Pagar correspondeu a R$ 78.554. 679,17 e não R$ 110 milhões, como também afirmou o atual prefeito.

3 – No final de 2008, a Prefeitura do Recife não só  cumpriu com todos os indicadores da Lei de Responsabilidade Fiscal como manteve atualizadas as Certidões Negativas, o que  viabilizou o recebimento dos recursos previstos no PAC Federal,  da ordem de R$ 1 bilhão, que deverão ser executados pela atual gestão.   

4 – Para dar continuidade às obras do Parque Dona Lindu e de outros equipamentos, havia, no orçamento 2009, recursos da ordem de R$ 58.977.000,00, disponíveis por meio do Programa Requalificação de Espaços de Interesse Público.

 5 – Todas essas informações estão disponíveis no site oficial da Prefeitura do Recife, no item contas públicas:   www.recife.pe.gov.br

O ex-prefeito João Paulo ressalta que “por todo esse trabalho, que teve como diretriz central o cuidado com as pessoas, a sua administração conquistou 88% de aprovação da população e foi possível fazer o sucessor no primeiro turno, apresentando o melhor resultado do Partido dos Trabalhadores entre as capitais no Brasil”.

Recife, 17/01/2011

Atenciosamente,

Assessoria de Imprensa do Deputado Federal João Paulo.

Reflexões sociológico pessoais sobre o intelectual e o político

 No dia 4 de dezembro de 2010 li uma interessante entrevista feita por Idelber com o professor Carlos Eduardo Rebello sobre a vida de Leon Trotski. Vou partir dela neste post para pensar um pouco sobre as relações tensas existentes entre o intelectual e o político. Acho que  pude eu mesmo vivenciar brevemente algumas dessas tensões nas características que tentarei descrever aqui.

 Um dos pontos mais interessantes da entrevista para mim discorreu sobre a relação entre a qualidade intelectual de Trotski e sua fragilidade na ação política concreta. Logo na primeira pergunta Idelber indagou o seguinte:

 

Quem leu León Trotski, mesmo em tradução, não costuma discordar: entre as figuras políticas do marxismo do século XX, foi o maior escritor e o mais poderoso no manejo da retórica. Ao mesmo tempo, foi o mais inapelavelmente derrotado na política na última década e meia da vida. Fale um pouco, por favor, dessas e de outras singularidades de Trotski. 

 

A resposta do professor Rebello foi muito instrutiva:

 

“Acredito que o paradoxo maior da carreira de Trotski está nele ter sido, na definição gramsciana da palavra, acima de tudo um intelectual, alguém que a partir de determinadas premissas, foi capaz de desdobrar sua concepção de mundo até as suas últimas conseqüências lógicas. No entanto, havia um lado do intelectual Trotski que nada tinha de gramsciano: sua indiferença freqüente ao seu papel “orgânico”, prático, de adequar esta visão geral de mundo às tarefas concretas do momento. Exatamente por isso, o ponto de inflexão da carreira política de Trotski esteve na sua relação com Lenin que, por mais que fosse um escritor pedestre e até mesmo um filósofo “vulgar”, no dizer de Zizek, foi capaz precisamente daquilo que Trotski sempre teve a maior dificuldade: adequar as suas posições políticas às tarefas práticas do momento. Trotski, mais de uma década antes de Lenin, já havia intuído o caráter socialista da Revolução Russa, ao qual Lenin só aderiu em 1917, no discurso da Estação Finlândia; mas o mérito de Lenin foi o de só sustentar esta posição publicamente quando percebeu a possibilidade de formar um consenso em torno dela. Trotski só foi capaz de funcionar como político prático enquanto em associação com Lenin. Quando Lenin esteve hostil – antes de 1917 – assim como depois da sua morte, Trotski exerceu um papel importante como visionário, como alguém capaz de perceber desenvolvimentos futuros, mas ao preço de sua incapacidade de agir de forma efetiva no momento presente.” (Meus itálicos)

O lastro sociológico que explica o paradoxo pode ser medido, na resposta, pela distância concreta existente entre o ideal abstrato contido na ideia gramsciana de intelectual orgânico e a sua possibilidade concreta de efetivação no mundo moderno, por Leon Trotski. Em outras palavras a distância real existente entre um homem que, como Trotski era capaz de “desdobrar sua concepção de mundo até as suas últimas conseqüências lógicas” e um homem que, como Lenin, era capaz de “adequar as suas posições políticas às tarefas práticas do momento.” Em que sentido é socialmente observável a incompatibilidade entre a precisão intelectual e o desempenho da ação política? 

Problematizando ainda de outra forma: pode um intelectual manter a integridade de seu ofício ao mesmo tempo em que desempenha um papel político importante? Ou ainda em outras palavras, pode ele, nesse mundo no qual o processo de especialização e de interdependência dele decorrente, detectado de diferentes maneiras pelas mentes mais poderosas que deram chão às ciências sociais ( Weber, Marx e Durkheim), pode o intelectual nesse mundo de imensa demanda de investimento temporal para a excelência nas diversas áreas de atuação na vida social, associar de maneira satisfatória atividades com características sociais tão dissonantes? A resposta baseada no exemplo histórico de Trotski mostra a dificuldade e complexidade do problema. Enquanto estava próximo de Lenin, foi uma coisa. Distante dele, outra.

Em uma sociologia atenta às lógicas práticas de construção do pensamento e da atividade política, o desmembramento das duas atividades parece impulsionar uma incompatibilidade histórica e prática intransponível entre as duas práticas: o tempo da experiência consequente do pensar a política (no modus operandi acadêmico) e o tempo da experiência concreta da vida política não são ajustáveis, visto que as exigências e os critérios de “qualidade” e “sucesso” de uma e outra atividades parecem ser excludentes entre si, principalmente no que diz respeito a temporalidade em que cada atividade se conduz.

De um lado, tem-se a urgência do cotidiano político, com sua atualização quase que imediata e continua. Urgência constante que  produz uma excelência baseada em critérios específicos atrelados ao próprio dia a dia da política, como é a capacidade de respostas instantâneas às novas situações de várias ordens. De outro lado, vemos o labor da resposta intelectual e sua demanda por uma temporalidade refletida(modus operandi atrelado à lógica formal), o tempo para reflexão ( é o tempo de descrições, análises, interpretações), que dão à avaliação intelectualizada seu mérito específico que nos diz  reipeito à clareza, à inteligibilidade, etc.  Ora, com essas características vamos encontrar quase sempre, daquele primeiro lado, a reação: olha… “as urgências aqui são outras”. 

Apesar disso, não deixa de ser interessante perceber que essas contradições encontram exemplos históricos de tensão onde os extremos dessas polaridades práticas (temporalmente incompatíveis) se encontram e tentam se ajustar de maneira mais ou menos convincente. Alguns casos que me vêm à cabeça no Brasil, como o de Florestan Fernandes em seu mandato parlamentar na década de 80, ou ainda, o exemplo do próprio Fernando Henrique Cardoso, com o famoso “esqueçam o que escrevi” são emblemáticos dessa tênue contradição. Na França, acompanhei de perto um caso muito interessante que foi o do engajamento político de Pierre Bourdieu no final de sua vida. Lendo a despedida de Jean-Claude Passeron depois da morte de Bourdieu tomei melhor consciência das implicações concretas e dos ricos que se corre ao topar a politização do intelecto ou, como do contrário, a intelectualização da política. Nos dois extremos, a derrota das partes parece estar garantida. Vale a leitura!

Vejo o seguinte, porém, nesses casos concretos, apesar de não existir uma conformação lógica das experiências de cada um (nenhum dos exemplos citados é extensível aos outros): pode-se observar os atritos gerados pelas expectativas solicitadas pelas “demandas específicas” de cada atividade, e delas solicitar lições. E é justamente isso que julgo intrigante e interessante como analista.

Na minha breve incursão na vida política local, sendo sociólogo de formação e querendo contribuir na construção de um projeto político para o PT de Pernambuco (que a meu entender precisa de renovação não só nos quadros, mas programática) percebi que essas tensões apareceram em muitas ocasiões. A meu ver, a incompatibilidade atinge de maneira mais forte aos que não percebem que os ajustes entre as demandas específicas de cada atividade devem ser feitos por quem muda de registro(do acadêmico para o político, por exemplo), mas que não há necessariamente incompatibilidade entre a inteligência intelectual (operacionalizada no debate político) e a atividade política propriamente dita (matizada pelo trabalho intelectual anterior, mas alterando-se seu objeto central que não mais pode ser o procedimento reflexivo nos moldes acadêmicos de antes). Essa transição não é fácil de ser feita e demanda uma certa conversão consentida, não só da parte de quem se propõe a tal mudança. No exemplo de Florestan Fernandes essa passagem se dá aparentemente pelo descrédito e a desilusão do autor de A revolução burguesa no Brasil com o que ele chamava de burocratização das universidades brasileiras (ver Freitag, aqui). Na sua vida de parlamentar, seu capital acadêmico se converteu em certa medida em político, sem necessariamente se dissolver completamente. O reconhecimento coletivo de seu mérito intelectual converteu seu mérito acadêmico em moeda política, isso, porém, ao custo da desilusão pessoal de Florestan em relação à universidade brasileira. São coisas que digo, claro, que precisariam de mais embasamento histórico da trajetória parlamentar do próprio Florestan. Mas considerando o que a Freitag diz a esse respeito:

Em sua terceira fase de produção (já como membro do PT e da Câmara) Fernandes nunca mais voltaria a trabalhar numa instituição de ensino superior. Em conversas e cartas exprimia seu desprezo pela burocratização da universidade e pelo carreirismo egocêntrico da maioria dos professores e pesquisadores, que repassavam essas atitudes às novas gerações de universitários. Os anos em que acreditara poder mudar a sociedade brasileira a partir de um conhecimento científico profundo da realidade com auxílio da ciência, da educação e do planejamento (categorias emprestadas à Mannheim) estavam perdidos para sempre. 

E  palavras como a do próprio Florestan sobre sua atividade parlamentar:

[Na Câmara] pude ver como atuam as elites econômicas, as elites culturais e as elites jurídicas, as elites militares, deputados e senadores predominantemente escolhidos dentro desses setores. Então pude conhecer melhor a sociedade brasileira, principalmente os processos pelos quais a concentração do poder, a concentração da riqueza e da cultura são mantidos de uma maneira ferrenha […]  

Poderíamos nos perguntar: como sociólogo, não teria ele visto já essas coisas? Mas de que forma pôde ele ver como parlamentar? São esses ajustes “desteorizantes”  que estão em questão e que operam, a meu ver, aquilo que pode-se chamar de conversão.

 Resta saber se existe real conversão sem tamanha desilusão…