Depoimento pessoal: a didática prática do Direitos Urbanos

Direitos Urbanos (D.U) mudou minha rotina de vida e com isso a minha forma de entender e olhar para a cidade. Eis uma afirmação concreta, que toma como base analítica decisões aparentemente despretensiosas, como a de me deslocar o máximo possível de bicicleta, ou ter passado a usar com menos parcimônia os locais públicos ainda existentes na cidade: 13 de Maio, o centro do Recife, e mesmo as ruas que, em cima de minha magrela, têm tomado outra dimensão. Melhor dizendo, as ruas e avenidas ganham outra escala, como aprendi a falar no vocabulário mais preciso dos arquitetos e urbanistas que participam dos debates e discussões do grupo. Uma escala de dimensão mais humana. Mais humana porque nela (nessa escala) é percebido em sua inteireza o nível de relação quase íntimo efetivado nos deslocamentos não motorizados e ao ar livre, liberados do ar condicionado. Passei a ocupar espaços deixados de lado por mim em minha aculturação de classe média, e comecei a perceber os malefícios da incorporação de um estilo de vida que, ao longo do tempo, vem alimentando e cultuando, na lógica típica da distinção de classe, o desprezo por ambientes de mistura social, espaços de convivência pública que por definição não filtram os tipos que os desfrutam pela capacidade de consumo das pessoas, para pegar o exemplo caro dos nossos espaços de convívio coletivo (não públicos) denominados Shoppings Centers.

Pensar o D.U a partir dessa perspectiva prática é, a meu entender, dar-se a si mesmo o direito de tentar entende-lo dentro da relação propriamente prática que ele estabelece com o mundo, uma presença pré-ocupada e ativa ligada à cidade por onde o lugar chamado urbes, esse mundo urbano, impõe-se como presença, com suas urgências, suas coisas a dizer e a fazer que comandam as atividades sem jamais se apresentar como espetáculo.  Estamos nele, dentro dele, experimentando-o e, a partir dele, vivendo a cidade e percebendo melhor seus horrores e delícias. Mas mais do que isso, o D.U trouxe uma novidade revigorante: nele aceitamos o desejo político de interferir nas dinâmicas que hipertrofiam a percepção da cidade, aprisionando-a na lógica hegemônica agenciada pelo mercado imobiliário e não contrabalançada, como devido, pelo poder público. Nessa dinâmica uma luta realmente política se dá pela construção de uma visão de cidade sensível aos clamores mais concretos de sua existência real.

Nesse sentido o D.U é um movimento que provoca nossa inteligência e sensibilidade. No D.U à pergunta “que cidade queremos?” se agrega a que indaga sobre “que cidade já temos?”.  Espécie de realismo pragmático que surge em meio a culpas históricas de uma classe média ao mesmo tempo vítima e protagonista de seu próprio estilo de vida. No seio da maior contradição objetiva e estrutural do movimento, no seu demérito de ser um movimento de classe média, abre-se paradoxalmente uma brecha de liberdade analítica com amplo poder heurístico e político. Fazendo-se de defeito uma qualidade, criaram-se as condições de perguntar-se para qual cidade existente – e não experimentada também por muitos de nós do movimento, desse lugar do qual indagamos que cidade queremos, e no qual vivemos nossa sociabilidade específica – para qual cidade real e já efetivada estamos também nós cegos? Às duas perguntas são seguidas de duas outras delas decorrentes: se não a vemos é porque não a queremos? Sabemos o que estamos denegando e as razões dessa denegação?  E já mais politizados continuamos nossa busca: vale mesmo a pena apostar nessa crítica que tem revelado as várias facetas da força motriz que impulsiona e modela os estilos de vida das classes dominante e média tentando generalizá-los para o resto da cidade? Vale a pena acreditar que é possível vencer o tipo de aparato publicitário usado para modular sonhos de distinção social, para criar esse verdadeiro efeito de hegemonia que é o que torna o estilo de vida de uma minoria algo aparentemente desejado por uma maioria? Sobre essa última pergunta, minha experiência de D.U diz que é possível entender o que estamos perdendo ao aceitar a imposição desse modelo sem nenhuma resistência: a simples mudança de certos hábitos foi capaz de instaurar uma impressão de liberdade própria às grandes descobertas que, como no mito da caverna, provoca o desejo de liberar dos limites de uma experiência limitada de mundo os que continuam a pensar que as sombras, que são apenas parte aparente dele, são o mundo inteiro.

Mas a contradição de classe do grupo vai mais além e pode ser ainda mais ilustrativa e didática em seu propósito político. Com quem estamos dialogando? O estranhamento antropológico com uma parte da cidade já existente e vivida por tantos não pode ser apenas um método falseado e artificial de viver a cidade como experimento esporádico, como já fiz por aqui. Como dizer para alguém que sempre andou de bicicleta por necessidade que ele deve continuar andando por opção? Como dizer a massa de pessoas que se tornou consumidora,  seria esse o maior legado do governo Lula?, como dizer para ela… “- olha, agora que nós da classe média histórica estamos enfrentando problemas de mobilidade com os carros,  isso não é uma coisa tão boa assim, é melhor usarmos o transporte coletivo ( que na verdade, eu sei, você sempre usou por necessidade), hrum, olha, agora que você pode, sei que é difícil entender, mas entenda, é ruim morar em apartamento, a coisa da verticalização não é nada bom. Vê só,  cara, entenda de uma vez por todas que o carro que te tira da invisibilidade e te dá status é um grande vilão!

Que cara de pau tenho eu para isso? Nenhuma. E isso força uma reflexão sobre o papel do poder público nas políticas que dizem respeito a direção que a cidade deve tomar: como produzir a famosa e formosa cidade boa para cohabitação de todos? A cidade boa de se viver? Existe algo extremamente didático nesse lugar de crítico que ocupamos quando defendemos uma outra visão de cidade. E devemos aprender com o incômodo oferecido por esse lugar contraditório que estamos ocupando. A contradição nos coloca no olho do furacão. E isso é bom.  O fato, e aqui falo mais por mim que nunca nesse texto, é o seguinte:  percebo que esse lugar paradoxal no qual me encontro quando faço parte desse movimento reforça a percepção da  marca de classe que esses problemas urbanos conformam. A pauta do D.U faz ressurgir também uma memória suburbana tensa: durante muitos anos de minha vida tomei ônibus para ir do subúrbio à cidade e dela voltar. A experiência do trajeto foi sempre confusa. De início uma sensação de liberdade, de ampliação do horizonte de deslocamento. Mas depois, com o avanço das percepções sociais naturalizadas,  a lembrança é de uma vergonha ligada às marcas sociais indexadas ao lugar que você mora e ao tipo de transporte que utiliza. Sei o quanto essa prática de usar o transporte coletivo, específicamente o ônibus, é aviltante, porque justamente atrelada às mais diversas formas de representar a pobreza, o que vem de baixo, a ralé e a escória da sociedade. Ônibus numa cidade que se representa de cima para baixo de maneira tão excludente vai ser sempre sinônimo de “coisa de pobre”, tal qual essa ideia depreciante está presente em minhas lembranças.

O D.U, contudo, não deve ser travado por sua contradição elementar, como já dito. Isso porque sua pauta tem caráter didático e deve ser encarada como um processo longo, como todo bom processo educativo. Digo isso na mesma perspectiva de leitura política que o Safatle fala da “paciência histórica” que os movimentos de esquerda deveriam adotar para pautar a persistência de seus projetos políticos. Sem temer o contraditório, mas evitando a inconsistência da denegação das contradições existentes, o movimento vai revelando um momento de leitura da história da cidade do Recife, estabelecendo outro vocabulário para tratar de seus problemas ao mesmo tempo em que enfrenta, por conta de sua própria ambivalência, a si mesmo. O caminho é longo e tortuoso porque é, em muitos sentidos, contra-intuitivo e contrário ao senso comum. Quem dos muitos de nós, participantes do grupo, em momento ou outro, não compartilhou de parte dos valores que a partir das reflexões do D.U hoje podemos criticar de maneira mais sistemática ou perceber as limitações? Que esse apredizado, mesmo quando difuso e incoerente, seja  bem prolongado e continue aprofundando a percepção dos problemas da cidade e, com isso, produza outro efeito concomitante : que possamos também aprender um pouco mais sobre nós mesmos. Afinal, o Recife somos nós, ligados como pele ao seu tecido e ela a nós. Não apenas aos outros.

Excurso da tese

Este texto foi inspirado inicialmente em um artigo de Luciano Oliveira, publicado no blog Que Cazzo!, no qual o professor faz uma reflexão sobre como sua experiência francesa o havia ajudado a pensar criticamente sua relação com a cultura brasileira. O link do texto do professor se encontra devidamente indicado acima, como também na bibliografia da tese. Pretendo usar alguns elementos desse texto na formulação do memorial.

1. Tentativa de auto-análise: voltando à primeira pessoa

Não poderia terminar esta tese sem uma reflexão mais direcionada ao seu contexto de produção e a minha inserção nele. O que busco com isso é mais uma vez a reflexividade crítica, coerente com a convicção sociológica de que uma sociologia dos intelectuais séria deve, além de colocar o mundo social em questão, questionar sobre o próprio mundo de produção intelectual, inclusive o de quem produz sobre ele.

2. A antropologia de uma experiência intelectual: do Brasil à França

Comecei a estudar na França em 2001. Saído da graduação de ciências sociais na UFPE, o choque, ao entrar na universidade francesa, foi imenso. Demorei a entender o sistema de organização daquela vida acadêmica. Diferentemente do tipo de organização da maioria dos cursos de Ciências Sociais no Brasil, na França, o curso de sociologia tem autonomia desde seu primeiro ano. Esse curso era organizado em várias etapas mais ou menos curtas: DEUG (Diplôme d’Études Universitaires Générales), dois anos; Licence, um ano; Maîtrise, um ano; Master, um ano; e Doctorat, três anos. Na verdade peguei um período de transição do sistema universitário francês que implantava medidas para facilitar a equivalência dele com o sistema europeu. Hoje a Maîtrise foi suprimida e faz-se em dois anos o Master. Cada uma dessas etapas foi marcada pela entrega de um diploma que garantia, objetivamente, a possibilidade de candidatar a vagas de trabalho num determinado nível de emprego, tal como acontece com os concursos públicos brasileiros. Na França, porém, o primeiro diploma se adquiria, na época, com apenas dois anos de universidade, sabendo-se que, para exercerem funções no ensino público fundamental e médio, por exemplo, exigia-se no mínimo a Maîtrise para fazer o concurso. É interessante registrar que entrei já no segundo ano de DEUG porque validei, sem muitas dificuldades, as disciplinas que havia feito na UFPE. É curioso notar como a trama oficial de uma instituição pode ser enganosa: ao lerem-se termo a termo, as formas de organização, comparando-as entre si, percebe-se que o modelo organizacional das universidades brasileira e francesa (no caso, UFPE e Nancy 2 em que primeiro estudei por lá), encontram-se muito mais semelhanças do que elas existem na realidade. Explico-me: as ementas das disciplinas eram, no que diz respeito aos autores, estranhamente, muito semelhantes às brasileiras. Minha experiência dizia: deve ser porque clássico é clássico. Mas, pouco a pouco, fui notando toda a dinâmica das aulas e os contrastes foram revelando-se. Cursei disciplinas obrigatórias e opcionais. Não mudava muito do que conhecia. Algo, porém, me chamou a atenção quanto aos temas: as obrigatórias eram sociologia geral, estatística, métodos; as opcionais eram sociologia do trabalho, sociologia cognitiva, sociologia das organizações, sociologia da família, sociologia da velhice, etc. As chamadas sociologias específicas eram opcionais, enquanto as gerais, matérias obrigatórias. E, mais importante, os cursos eram divididos também em “aulas magistrais” (sociologias gerais) e “trabalho dirigido” (sociologias específicas e estatística).

3. Aprendendo como os franceses aprendem? Aula magistral e trabalho dirigido

A aula magistral tinha um tom solene. Centrada na competência de expor dos professores, era conduzida sem qualquer tipo de interação entre professor e aluno. Por conta disso, o volume de conteúdo a ser anotado em cada aula era imenso. Geralmente, principalmente no DEUG, as aulas consistiam em grandes sínteses históricas mais ou menos bem feitas (dependia do professor) a respeito de cada disciplina, geral ou específica. O curso magistral, como era também chamado, era ministrado nos anfiteatros com a presença massiva de alunos (cheguei a ver aula com mais de trezentos estudantes). No anfiteatro, as disciplinas estudadas eram gerais (sociologia geral, por exemplo) e os professores tratavam de expor, de maneira bem simplificada, o pensamento dos clássicos (Weber, Durkheime, Marx, Mauss, Escola de Chicago, um pouco de Merton etc.), como também, no mesmo formato, eram oferecidos cursos de sociologias mais específicas (sociologia do trabalho, por exemplo), que situavam historicamente como esses clássicos fundavam, em determinada especialidade, a perspectiva sociológica. Os cursos magistrais tinham a função de inculcar nos estudantes iniciantes as perspectivas históricas que fundam o raciocínio sociológico. Tanto é que a maioria deles estava organizada de maneira muito semelhante: todos começavam por uma descrição sobre como um determinado objeto era analisado ou entendido socialmente num dado momento histórico, a seguir passavam por uma contextualização da modernidade e do advento da sociologia a partir das revoluções industrial e francesa, e concluíam com a especificação sociológica do objeto em questão. Essa especificação podia ser o trabalho, a velhice, a economia etc. e propunha que fosse questionado em que sentido e época esses objetos se tornam sociológicos e por que razão. Esse modelo variava e ganhava ou perdia em sofisticação dependendo do estilo do professor, mas no geral, o esquema tinha tom de ladainha, exceto o das aulas magistrais de estatística que dispensavam a história por serem vistas como assimilação de técnicas de pesquisa. Algo importante, contudo, não pode ser esquecido: as aulas magistrais eram claramente de cultura sociológica, aulas destinadas à memorização do conteúdo tal como ministrado.

4. O trabalho dirigido: o aprendizado da pesquisa é uma prática

As aulas de trabalho dirigido eram aulas de intépretation de texte, o close reading dos anglossaxônicos. Basicamente treinávamos técnicas e mais técnicas de leitura: a análise estrutural, leitura vertical etc. Tudo isso, a partir de textos escolhidos dos cursos magistrais. Nesses momentos, tínhamos um contato maior com o professor havendo mais interação e diálogo. É possível com esse tipo de organização o aluno ir fazendo, junto com o aprendizado, uma distinção muito clara entre o procedimento “decoreba” das aulas magistrais e o das técnicas de leitura e pesquisa; dois procedimentos que, apesar de relacionados, tinham dinâmicas bem específicas. Tanto é que a tal distinção está inscrita nas instituições na maneira mesma de dividir o trabalho de ensino. Outro ponto indica as dinâmicas da pesquisa e da acumulação de cultura: a carga horária de aulas. Na França, o que também tem mudado, essa carga horária era extremamente reduzida se comparada à brasileira. E ela diminuía ainda mais na medida em que se iam cumprindo as etapas. A título de exemplo, no ano em que cursei meu Master, eu tinha apenas duas aulas por semana, com 4 horas de duração cada, e isso durante um semestre. No segundo semestre não havia aulas e o aluno dedicava o seu tempo aos seminários de pesquisa e ao próprio trabalho.

5. Práticas dos estudantes

Foi muito esquisito no início ver a aplicação com que a maioria dos estudantes simplesmente anotava tudo o que era dito nas aulas. Anotação dos cursos, ou seja, transcrever quase que, palavra por palavra, tudo que o professor diz parecia para mim coisa de copista da Idade Média. Mas a transcrição é uma verdadeira instituição escolar à part entière na França. Para que as notas sejam bem registradas, existem inúmeras técnicas de abreviação de ideias, palavras e até de frases inteiras. Todos assimilavam ou já deviam ter assimilado essas abreviações na escola francesa. Elas funcionam, quando bem feitas, como exercício para articulação lógica do pensamento. Mas, para um brasileiro que estudou em escola de classe média, acostumado a assistir à aula ouvindo, sem escrever absolutamente nada, tentando apenas entender o que o professor estava dizendo, era uma grande surpresa rever coisas do “arco da velha” sendo consideradas importantes. Existe, contudo, justificativa para esse procedimento. É que os professores elaboram provas que avaliam, na verdade, “maneiras de transcrever o que se falou durante o curso”. O que não deixa de ser justo em certo sentido, na medida em que de fato o aluno subentende, quase sempre, que está numa situação de avaliação escolar, que o que está sendo avaliado é o conteúdo assimilado durante o curso oferecido. E, falando-se em justiça, era garantido o anonimato das provas, identificadas apenas com número de matrícula. Assim, o professor não avalia a partir de critérios pessoais de um aluno uma prova. Isso também eu desconhecia até então. Um último elemento é marcante na formação francesa: a presença desse pressuposto pouco didático muito forte no ambiente universitário francês que, ao meu ver, se traduz na fórmula mesma da aula magistral, caracterizada pela distância entre o professor e o aluno e marcada pela fragilidade de uma relação pedagógica instaurada sob premissa de que os “alunos devem alcançar a seu custo o nível dos professores e não o contrário”. Isso faz com que, muitas vezes, pouco ou nenhum esforço seja feito por parte dos mestres para que se extraia das diversas “maneiras de dizer a mesma coisa” uma que funcione, como quer a pedagogia, para facilitar a entrada dos alunos naquele universo árido da sua disciplina específica.

6. Sociologias francesas: campo intelectual visto por um estudante brasileiro

Na França estudei em várias universidades, em diferentes cidades, situadas em diferentes regiões do país. Para mim, estava num lugar de gigantes: a terra de Durkheim, Bataille, Bourdieu, Aron, Sartre, Koyré, Lévis-Straus etc., a lista não tem fim. Do deslumbramento inicial, permeado por imaturidade intelectual, fui percebendo que cada universidade em que estudei tinha uma linha, uma perspectiva dominante tal qual as outras. Podia-se, então, acomodar-se a linha ou resistir a ela. Assim, a cada geração de intelectuais franceses, encontram-se representantes de um pensamento que se tornou necessário. Isso me levou a seguinte questão: como é possível que, mesmo com a superioridade econômica e de produção das universidades americanas, dos EUA ao Brasil, se encontrem essas leituras francesas que se tornaram obrigatórias, em vários sentidos, porque instauraram novos ângulos, novos paradigmas providos de força e autonomia para emanar ao sistema mais geral de produção intelectual referências sem as quais um trabalho estaria “incompleto”? Pensava nos padrões que havia assimilado no Brasil e em perguntas como: “por que você não usa Foucault?”, ou, “você sabia que Derrida desconstruiu isso que você está dizendo quando…?”. Confesso que, mais do que os autores foram as instituições que deram suporte para responder as perguntas que me fazia sobre as diferenças entre as perspectivas da sociologia que até então eu conhecia. Apesar da diversidade de linhas teóricas e de pesquisa, não há como não notar uma forte estabilidade dada pela estrutura geral da educação universitária francesa. Estudei, por exemplo, em três cidades diferentes, em três universidades: Nancy, Montpellier e Lyon. As três universidades são bem diferentes entre si quanto às teorias sociológicas predominantes, mas todas elas trabalham naquele esquema das aulas magistrais e trabalhos dirigidos, efetuando, assim, cada uma delas dentro de seu filtro específico, a distinção entre acumulação e produção de conhecimento sociológico. Em Nancy, por exemplo, o foco predominante era sociologia do trabalho. Existiam dois grupos que disputavam espaço e poder dentro da universidade e essa disputa também se traduzia nas opções intelectuais, expressas por afinidades ou contrastes com ideias já firmadas dentro universo acadêmico conhecido: de um lado, grosso modo, tinha-se uma corrente que se identificava com a tradição durkheimiana orientada pelo viés histórico, como a trazida pela obra de Pierre Bourdieu; do outro, havia um grupo que se identificava, de maneira mais ou menos explícita, com a orientação de trabalho do individualismo metodológico cujo mais alto representante francês era, naquele momento, Raymond Boudon e cuja filiação na tradição francesa se dava por meio do vínculo e imbricação daquele pensamento com a filosofia da liberdade de Sartre. Já em Montpellier a grande influência era a de Michel Marfesolli. A assimilação dos dois grandes expoentes da sociologia francesa (Boudon e Bourdieu) se dava de maneira completamente diferente da de Nancy. Os dois sociólogos eram lidos como representantes nefastos de uma ciência racionalista, positivista, empiricista etc. Tive professores como Jean-Marie Brohm, de uma erudição enorme e de uma impressionante cultura filosófica, que pautava seus trabalhos nas referências da fenomenologia, da psicanálise, do marxismo (esse tipo de salada, feita pela sobreposição do viés filosófico sobre a sociologia, só tinha espaço lá, em Montpellier). Percebi, assim, que, apesar de toda a diferença entre uma e outra universidade, existia uma espécie de coeficiente mínimo comum, um denominador mínimo comum que fazia da sociologia uma disciplina a ser ensinada da mesma maneira nas diversas universidades. Assisti, conforme dito acima, a aulas de estatística em Montpellier, e os professores, apesar de defenderem aquela “filosofização” da sociologia, ensinavam os procedimentos técnicos de análise que hoje fazem parte do patrimônio comum da disciplina. Lyon já era uma universidade maior. Encontrei um grupo forte trabalhando com sociologia da socialização, o GRS (Groupe de Recherche sur la socialisation). O grupo era animado e dirigido pelo sociólogo Bernard Lahire que se autointitula um bourdieusiano heterodoxo em contraposição a bourdieusianos parisienses, como Louis Pinto. Na universidade de Lyon, no GRS, defini as linhas de trabalho e o enquadramento teórico-medotodológico que guiaram o trabalho desta tese. A universidade também era bem diversa das outras duas e encontrei, pela primeira vez, um grupo de pesquisa que trabalhava com a sociologia das ciências, inspirada na obra de Bruno Latour.

7. Fazer sociologia no Brasil depois da experiência francesa

Minha formação na França durou seis anos mais ou menos. Voltei para cursar um doutorado na UFPE em 2006 sobre Graciliano Ramos. Percebi que todo o esforço de assimilação que fiz para entrar no universo francês, mais concretamente para adaptar-me à cultura e às práticas intelectuais francesas, causou um grande impacto que terminou por interferir nas posições intelectuais defendidas nesta tese. O estranhamento do retorno se deu de maneira muito intensa e forte nos primeiros momentos. Jovem, empolgado com as práticas e técnicas de análise sociológicas adquiridas, voltei querendo desbravar sociologicamente o Recife, mas encontrei um ambiente intelectual que julguei extremamente avesso ao trabalho empírico da sociologia (que através das leituras de Bourdieu, Passeron, Hoggart, Lepenies, Lahire, entre outros, eu havia aprendido a gostar e querer fazer). Senti-me por isso isolado, apesar de ter sido acolhido com entusiasmo pelos professores e orientadores. As práticas de produção brasileiras me pareceram ancoradas muito fortemente numa perspectiva que não distinguia com devida a ênfase o trabalho de acumulação do saber do de produção de conhecimento através da pesquisa: base forte de minha formação francesa. Assim,convivi com a angústia da volta. Isso porque percebia como uma grande contradição ser avaliado no processo de entrada do doutorado por um projeto de pesquisa e passar um ano inteiro dedicado a disciplinas teóricas, revivendo um processo reflexivo que ancora seu procedimento na acumulação de cultura sociológica de maneira completamente apartada do universo da pesquisa. A visão de sociologia se dá diante da ideia segundo a qual seremos doutores em sociologia e não em nossos projetos de pesquisa, o que é uma visão legítima da sociologia vista como acumulação de cultura sociológica. Para mim, já acostumado com uma crítica reflexiva das práticas acadêmicas, assimilada sobretudo a partir dos trabalhos sobre a escola e instituições de ensino de Bourdieu, a apartação separação entre teoria e prática de pesquisa parece extremamente nociva à sociologia porque produz trabalhos, quando empíricos, vazios de propósito sociológico propriamente dito (são muitas vezes mera sociografia em linguagem estatística formulada nas tabelas do SPSS). Quando teóricos, são apenas isso, ou seja, são teóricos em demasia, o que os transforma, em síntese, em sua grande maioria, na generalização precoce de explicações que ainda não se submeteram à prova em contextos como o do Nordeste brasileiro. O que ocorre nesses casos é a imputação da explicabilidade formal da teoria a um contexto exógeno ao de sua aplicação inicial (quando a pesquisa tenta falar sobre objetos concretos). Isso implica, na maioria das vezes, num reforço à situação de colonialismo intelectual devido ao qual nos submetemos, de muito bom grado, aos grandes centros de produção acadêmica. Nesse sentido, a quase absoluta falta de disciplinas que estudem, digamos assim, a tradição sociológica brasileira e os problemas específicos que um sociólogo precisa enfrentar aqui na periferia (também do Brasil) para produzir conhecimento válido a respeito do mundo social é responsável pelo estranhamento antropológico. Também na crítica mesma, por conta da postura de inquirir o mundo social sem nele querer “tocar”, jogando conceitos de la para cá e de cá para lá, não há a responsabilidade de construir interpretações válidas a partir de fatos sociais verificáveis do ponto de vista de “experimentação empírica”, ou seja, de dados que possam ser analisados de maneira independente do ponto de vista que vai analisá-los. Ao voltar para o Brasil, foi na perspectiva de busca científica que quis trabalhar, uma perspectiva a partir da qual a sociologia elabora suas teses para serem refutadas e/ ou validadas. Isso estava de acordo com tudo aquilo que pude aprender durante minha formação. Na verdade, não consigo identificar outra forma de validar ideias de maneira tida minimamente como científica. E a julgo razoável porque, apesar dela, não creio ser preciso entrar numa corrida tresloucada em busca por uma cientificidade popperiana, ou de coisas dessa natureza, para afirmar o valor científico, o rigor de conhecimento da sociologia. Mesmo que admitamos que sociologia não é uma ciência como as outras o são – o que julgo questionável –, o seu propósito híbrido da construção da episteme sociológica admite um espaço assertivo mais ameno, em que a ideia de verificação anda de mãos dadas com a certeza de que a linguagem sociológica só caminha para frente diante do arbítrio que representa a interpretação em linguagem corrente, ou seja, fora do jargão mais formalizado, por exemplo, da estatística, usada pelos sociólogos como ferramenta. Em outras palavras: o peso histórico dos conceitos é parte da construção do saber sociológico. Dessa forma, Florestan Fernandes, por exemplo, produz conhecimento propriamente sociológico ao usar conceitos que descrevem a realidade europeia (revolução, burguesia), mas que, ao tentarem dar conta da especificidade do contexto brasileiro, retocam a semântica das palavras-conceito. A burguesia brasileira tinha traços característicos que produziram uma revolução diferente. É o contraste que produz a necessidade de ter que falar de uma burguesia não burguesa, de uma revolução não revolucionária. Uma comparação pela negação que acaba por ajudar a caracterizar, em muitos sentidos, os elementos específicos retidos para construção sociológica que capta de maneira inteligível o real. Eis a principal razão pela qual o método comparativo parece ser o método por excelência para as ciências sociais. Não é por outra razão que se tona importante para o sociólogo, mais do que para o físico, que pode esquecer seus clássicos, o diálogo com a tradição. Não é por conta do argumento da autoridade, como alguns gostam de insinuar com más e diversas razões. É que o conhecimento dos clássicos permite um controle mais consciente das alterações semânticas já realizadas para dar conta de contextos distintos. Assim, é pelo domínio das etapas que levaram à transformação do conceito, que o sociólogo enfrenta, com mais propriedade, as demandas por novas transformações e reformulações conceituais, necessárias para dar conta de realidades cada vez mais específicas. O sociólogo que conhece sua tradição usa os elementos dos conceitos já autorizados, já experimentados e funcionais, para produzir a autoridade de seu novo argumento, sem recair na lógica do argumento de autoridade. Fui ao IEB com tudo isso em mente e de lá tentei tirar uma interpretação sociológica com substância e, através da análise de documentos, apoiada em considerações teóricas de cunho abrangente, dialogando criticamente com a crítica literária, com a sociologia da literatura, um pouco com a sociologia do trabalho e com a história da literatura e das ciências sociais, produzi este estudo sobre obra e vida de Graciliano Ramos. Talvez não fosse possível entender bem a radicalidade de certos propósitos defendidos durante esta tese sem ter em mente esse esforço de reaclimatação ao ambiente intelectual brasileiro. Penso isso e lembro a apresentação de parte deste trabalho no GT de pensamento social da ANPOCS em 2009, quando recebi uma crítica de fato pertinente do professor Antonio Dimas que reconheceu certo “ímpeto juvenil” justamente nessa minha maneira por demais enfática de afirmar uma sociologia. Não o renego em absoluto. A sociologia da literatura tem tido medo de ser sociológica no Brasil e fora (no sentido por mim defendido), apesar de esforços importantes – como o trabalho de Norbert Elias, Pierre Bourdieu, Bernard Lahire, e, no Brasil, empreitadas como a de Sergio Miceli – representarem bem, a meu ver, a ciência da sociedade em matéria de arte. Essas declarações não devem ser entendidas como uma avaliação negativa da volta ao ambiente intelectual brasileiro, como se ela tivesse sido nociva ao trabalho. Pelo contrário, acredito que foi pelo estranhamento que pude descobrir empiricamente o significado profundo do que são as chamadas condições sociais (materiais e simbólicas) de produção do conhecimento sociológico em Pernambuco. Sem essa experiência tenho a impressão de que minha sociologia seria uma espécie de paisagismo exótico do Brasil para francês ver. Sei que hoje as relações de dominação intelectuais são bem mais complexas do que a simples ideia de colonialismo cultural poderia dar conta, mas, sendo colonialismo cultural ou outro nome que se queira dar, parece-me claro o quanto precisamos percorrer para nos livrar de algumas práticas a fim de obtermos mais autonomia (para sociologia no Brasil). É isso, em todo caso, que meu estranhamento diz.

Vovó e o meu eu sociológico

 

Um grande amigo uma vez escreveu: “Vejo meu avô como um gigante, apesar de ter estudado mais, viajado mais, lido mais que o velho Alfredo. Reconheço sem tristeza que ele é “melhor” do que eu. Pois isso me dará o metro certo para seguir a minha vida e talvez realizar aquilo que o velho Alfredo tenha feito tão bem na sua vida.” (Leia o texto na íntegra, aqui).

 Minha avó é antes de tudo uma forte. E devo reconhecer a meu turno, como outrora fez meu amigo, que a velha Maria Pereira é muito melhor do que eu. E reconheço esse fato sob o regime da mais pura alegria. O melhor disso, porém, é sentir que a presença dela em mim depois de sua partida, é uma maneira de perceber que não só ela era melhor e superior, mas que ela continua a me melhorar, porque gostaria de ser como ela.

Ela faleceu ontém depois de ter passado um longo período de hospitalização. Mãe de muitos filhos, a velha senhora era dona de uma resistência física a dar inveja a muito marmanjo de academia de musculação. Vovó Maria, ai que saudade!

 Tê-la visitado antes de minha defesa teve um significado simbólico profundo para mim: ser sociólogo é a constatação de meu ser contraditório. Ser neto da vovó significa ter a obrigação de ser uma pessoa humana melhor, mais alegre e feliz consigo mesma. Como fazê-lo?

 De família com orígem pobre, percebo a evolução do acesso à escola nas gerações que precederam a minha. Vovó não sabia ler nem escrever. Seus filhos sim. Mas não  tiveram contato com o ensino superior. Já seus netos, a maioria teve mais condição. Muitos deles, com o auxílio dos pais, chegaram à universidade. E um deles, até aqui, chegou até o final do percurso, seguindo a trajetória escolar até o seu termo institucional: o doutoramento.  Por que digo tudo isso?

Porque por conta da grandeza de minha avó não vejo nesse processo uma evolução valorativa na escala das pessoas. Ela inverte isso: no topo dessa escala, não tenho dúvidas, está a analfabeta vovó Maria Pereira. E essa consciência tem sido muito importante para mim e minha formação.

No momento da minha defesa eu … :

 “… Pensava nos avós, sobretudo na vovó, que eu havia visitado no dia anterior. Ela pediu para a filha ler uma carta para ela. Depois, voltou a repetir algumas vezes: “não saber ler é tão ruim, você lê uma carta para mim minha fia”. […] O que significava para mim defender aquela tese? Defendi pensando nessas coisas, sentindo esse hiato entre o não saber ler que oprime e libera, e o saber doutoral que libera e… oprime. O equilíbrio desse sentimento se encontra para aquém e além da própria tese. Resta saber se conseguirei dentro do meu trabalho a seguir fazer jus ao respeito e amor que nutro profundamente pela analfabeta Vovó Maria, senhora matriarca de todos os amores do mundo, mãe vocacional de minha luta sociológica por um saber que afirme seu valor sem representar uma opressão aos que, por razões mundanas, amaram e viveram sem ter acesso ao saber livresco.”

Ela me faz melhor, porque quero sim, naquilo que eu faço bem, estar à sua altura.  Vovó representa para mim a incrível esperança que nutro na vida apesar de todos os apesar de. Ela é  um exemplo supremo, um modelo de excelência que indica a possibilidade real e mundana do milagre que é o amor desinteressado, do valorizar a vida que vale como ela é. Vovó é  para mim um exemplo intransponível: uma espécie de mote moral niezschiano (se é que isso é possível) que se efetua no coração iletrado dela, nos gestos de amor  aos seus netos de maneira tão incondicional. Pode parecer piegas o que digo, mas não é pouco ser piegas de maneira sincera e autêntica. Devo muito a ela esse algo na minha pequena e autocentrada vida acadêmica que é pulsão contra o academicismo e o elitismo de tantos intelectuais. Não defendo nenhum propósito irracionalista. Nem pretendo valorizar o anafalbetismo como qualidade desejável. Só acho que ser neto da vovó me tornou sensível e crítico a tendência autorreferenciada dos integrantes do universo intelectual, crítico a uma verdadeira inclinação naturalizada que (n)os faz tomar as regras do mundo acadêmico como sendo as mesmas que deveriam regular e ordenar o mundo em que vivemos.  Fazer essa confusão é o mesmo que tomar as coisas da lógica como sendo as lógicas das coisas, como dizia Marx.  O que é uma deformação profissional em sentido forte do termo. Vovó foi para mim em seu amor profundo uma grande vacina contra esse defeito.

Minha avó não leu Marx. Vivia  no mundo como se nele não houvesse lógicas a serem decifradas.  Parecia não valorizar riqueza que não fosse motivo de real felicidade e realização. Forçava-me, por isso, a pensar sobre o valor de tudo aquilo que faço ao estudar pelo propósito de conhecer. Vovó Maria é a vida contra a paralização mortificante do conhecimento morto. Fazer as coisas com alegria e cantando é um retrato profundo da velha senhora  incansável em seu amor: Maria Pereira e seu Gai Savoir.  Esse retrato dela às vezes me deixa confuso: como alguém tão católico pôde ter uma prática de vida tão oposta à culpabilidade triste que eu via no catolicismo? Em Maria Pereira o Gai Savoir é uma maneira de ser. A vovó ensina mais uma vez:  a alegria é que faz do saber incorporado um antídoto ao saber triste e morto da acumualação erudita. Saber é poder, mas é mais e melhor quando cheio de dança, alegria e graça.

Adeus Vovó. A sua lição e amor relativisa sim o sentimento da perda eterna, você continua nos melhorando… para sempre.

 

Passado

“Jampa,

Existem livros que não podem ser lidos de uma só vez nem de uma vez só

Este é um deles. Por isso eu lembrei de te dar para que você possa saboreá-lo da melhor forma possível.

01 de Setembro de 1995. “

Alguém andava feliz com meu aniversário. Ele se deu o trabalho de comprar o ” Morte e Vida Severina e Outros Poemas Para Vozes” e dar um João inteligente para um outro, menos sabido tanto em prosa quanto em verso. Os anos passaram, eu passarinho, continuo um João-Sem-Verso-Nem-Prosa. Fiéis heróricos leitores.Fiéis. Heróicos. Leitores.

Feliz do homem e da mulher que consegue se repensar ao tentar pensar o mundo. Talvez a grande descorberta de Freud não tenha sido o inconsciênte alheio, mas o dele mesmo. É verdade, estamos presos a nós mesmos. 24 horas por dia. Que horror! Sendo assim, nada mais lógico do que aplicarmo-nos em si aquele método que acreditamos ser bom para explicar o outro. Afinal, o conhece a ti mesmo parece ser um elemento condicional da sanidade mental de qualquer saber pós-freudiano. Alguns em plena conscência de si não se sentem asquerosos, ainda. Outros percebem no asco a definição mesma de qualquer eu realmente profundo, só assim identificado. Eu divago e evito o sordidez imperiosa que é aceitar quem sou do jeito que sou. Tento tolerar o fato de estar “resistindo” ao meu objeto de estudo, também por ele dizer quem eu sou. Sentido-me fraco, falta-me a força-sevirina: como é escassa em mim a secura pedagógica da pedra do outro João. Tem João para tudo nessa vida. O meu pede socorro. E com ele o blogue, que definha, como sempre.

De 1995 para cá tanta coisa se passou. Amores. Universidades. Países. Perdido no mundo querendo se encontrar. Encontrando no mundo lugar para ficar perdido. Querendo no mundo encontrar lugar perdido.

Tudo piegas. Brega. Como eu…

UFPE via Universités en France: estranhamento antropológico na experiência acadêmica de um jovem suburbano (Parte II)

Já que promessa é dívida:

Lembrando…

Em novembro de 2008, escrevi uma rápida introdução à reflexão que venho agora terminar. Resumiria da seguinte forma aquele texto introdutório: tendo notado diferenças e semelhaças entre as experiências de estadia na França minha e do professor Luciano Oliveira, vi-me motivado a escrever sobre um “estranhamento” que não entrou no foco de reflexão do belo texto do professor.

Então é um texto de complemento ao que foi dito por Luciano com desdobramentos críticos possíveis, já que reflete especificamente sobre o estranhamento meu com universo acadêmico brasileiro ao voltar do francês.

A gramática de ida de um estranhamento: da UFPE à França

O choque ao entrar na universidade francesa foi imenso. Demorei para entender o sistema de organização da vida acadêmica. A complicação começou para mim, como diriam eles por lá, no começo. Diferentemente da organização do curso de Ciências Sociais no Brasil ( que você tem o primeiro diploma ao final de 4 anos ou 5 anos), lá o curso de sociologia, o que eu escolhi, era divido em diversas etapas mais curtas. Cada uma delas era marcada pela entrega de um diploma que garantia, objetivamente, a possibilidade de se postular vagas de trabalho num determinado nível de emprego, tal como acontece com os concursos públicos brasileiros. Na França, porém, o primeiro diploma você leva com apenas dois anos de universidade.

Então lá fui eu, cursar o que eles chamavam na época de DEUG (Diploma de Estudo Universitário Geral), o tal que tinha duração de 2 anos. Como consegui validar as disciplinas que havia feito na UFPE, entrei já no segundo ano. É engraçado como as vezes a trama oficial de uma instituição pode ser enganosa: ao ler termo a termo as formas de organização, o modelo organizacional das universidades brasileira e francesa, você encontra muito mais semelhanças do que realmente existem na realidade.

As ementas das disciplinas eram, no que diz respeito aos autores, e estranhamente, muito semelhantes às brasileiras. Claro, classico é classico, diriam. Mas toda a dinâmica era diferente. Cursei disciplinas obrigatórias e opcionais. As obrigatórias: sociologia geral, estatística, métodos. As opcionais: sociologia do trabalho, sociologia cognitiva, sociologia das organizações, sociologia da família, sociologia da velhice, etc. A cada semestre você podia escolher duas ou três opcionais. Os cursos eram divididos também em “aulas magistrais” e “trabalho dirigido”.

A aula magistral tinha um tom solene. Era bem expositiva, sem nenhuma interação entre professor e aluno. Nela, por conta disso, era muito grande o volume de conteúdo a ser anotado. Geralmente o que se via nelas eram sínteses históricas mais ou menos bem feitas (dependia do professor) a respeito de cada disciplina. O curso magistral, como era também chamado, era dado nos anfiteatros com a presença massiva de alunos (cheguei a ver aula com mais de trezentos estudantes). Você tanto tinha cursos mais gerais (socialogia geral) que tratavam de expor, de maneira as vezes bem simplificada, o pensamento dos clássicos (Weber, Durkheime, Marx, Mauss, Escola de Chigago, um pouco de Merton, etc.), como também, no mesmo formato, você tinha cursos de sociologias mais específicas, sociologia do trabalho, por exemplo, que situava historicamente como esses clássicos fudavam, naquela especialidade, a perpectiva sociológica.

Na minha cabeça esses cursos magistrais tinham a função de inculcar nos estudantes iniciantes as perspectivas históricas que fundam o raciocinio sociológico. Assim, a maioria deles estava organizada de maneira muito semelhante: começavam por uma descrição sobre como um determinado objeto era analisado ou entendido socialmente num dado momento histórico, passavam por uma contextualização da modernidade e o advento da sociologia a patir das revoluções indutrial e francesa, e concluiam com a especificação sociológica do objeto em questão(que podia ser o trabalho, a velhice, a economia etc.). Claro, esse modelo variava e ganhava ou perdia em sofisticação dependendo da qualidade do professor, mas no geral, isso tinha tom de ladainha, excetuando aí, claro, as aulas magistrais de estatística. Note-se: sssas aulas eram de cultura sociológica, digamos assim, eram aulas para decorar conteúdo tal como dado.

As aulas de trabalho dirigido eram aulas de interpretação de texto, o close reading dos anglossaxonicos. Basicamente treinavamos técnicas e mais técnicas de leitura. Análise estrutural, leitura vertical, etc. Tudo isso, em cima de textos escolhidos dos cursos magistrais. Nelas você tinha um contado maior com o professor havendo mais interação e diálogo. Note-se: aqui tinhamos e podíamos fazer uma distinção muito clara entre o procedimento decoreba das aulas magistrais e o das técnicas de leitura e pesquisa, dois procedimentos que, apesar de relacionados, tinham dinâmicas bem específicas. Essa distinção, como visto, está inscrita nas instituições na maneira mesma de dividir o trabalho de ensino.

Uma outra coisa importante que também notei: a carga horária de aulas é extremamente reduzida se comparada à brasileira. E ela vai diminuindo ainda mais na medida em que você vai passando as etapas. A título de exemplo, no mestrado, por exemplo, eu tinha apenas duas aulas por semana com duas horas de duração cada, e isso durante um semestre. O segundo semestre não havia aulas e você dedicava o seu tempo aos seminários de pesquisa e ao seu próprio trabalho.

O estranhamento em detalhe: ainda lá

Além da lingua francesa e suas especificidades, era para mim muito esquisito no início ver a aplicação com que a maioria dos estudantes simplesmente anotava tudo o que era dito nas aulas. Anotação dos cursos, ou seja, transcrever quase que palavra por palavra tudo que o professor diz, parecia para mim coisa de copista. Mas a transcrição é uma verdadeira instituição escolar à part entière na França.

Para que as notas se realisem por inteiro existem técnicas de abreviação de idéias e palavras e até mesmo de frases inteiras. Essas técnicas são todas assimiladas na escola francesa. Elas funcionam, quando bem feitas, como exercício para articulação lógica do pensamento. Mas para mim que estava acostumado a assistir aula ouvindo sem escrever absolutamente nada, tentando apenas entender o que o professor estava dizendo, aquilo tudo foi um grande tormento, além da surpresa de rever coisas do arco da velha sendo operadas ali naquele meio. Aprender de cor e salteado, era algo que achava não mais ouvir falar na minha vida.

Mas depois dessas surpresas vinheram as provas e entendi a razão de ser daquela técnica.É que os professores fazem provas que são na verdade “maneiras de transcrever o que se falou durante o curso”. O que para mim, ao menos naquele momento, não deixava de ser justo, na medida em que de fato se subentende, sempre, numa situação de avaliação escolar, que o que está sendo avaliado é o conteúdo assimilado durante o curso oferecido. E, falando em justiça, o anonimato das provas, que eram corrigidas identificadas apenas com número de matrícula, não podendo o professor saber julgar por critérios pessoais uma prova de tal ou de qual aluno, também foi algo novo para mim na universidade.

Outra coisa que me marcou foi a presença desse pressuposto pouco didático muito forte no ambiente universitário francês, que ao meu ver, se traduz na fórmula mesma da aula magistral: a distância entre o professor e o aluno é também marcada pela fraqueza de uma relação pedagógica instaurada sob premissa de que os “alunos devem alcançar a seu custo o nível dos professores e não o contrário”, o que faz com que, muitas vezes, pouco ou nenhum esforço seja feito por parte dos mestres para que se retire das diversas “maneiras de dizer a mesma coisa” uma que funcione, como quer a pedagogia, para facilitar a entrada dos alunos naquele universo árido da sua disciplina específica.

Sociologias francesas

Na França estudei em várias universidades, em diferentes cidades, situadas em diferentes regiões do país do fromage, mas também a terra de Durkheim, Bataille, Bourdieu, Aron, Sartre, Koyré, Lévis-Straus, etc. a lista não tem fim. O que percebi? Notei que cada universidade tem uma linha. Cada uma assimila de maneira mais ou menos coerente os incontornaveis dos autores incontornaveis.A cada geração de intelectuais franceses você encontra correspondentes de um pensamento que se tornou necessário. Assim, mesmo com a superioridade econômica e de produção das universidades americanas, dos EUA ao Brasil você encontra essas leituras francesas que se tornaram obrigatórias, em vários sentidos, porque instauraram novos ângulos, novos paradigmas providos de força e autonomia para imanar ao sistema mais geral de produção intelectual referências sem as quais seu trabalho estaria “incompleto”.

Na verdade, o que eu gostaria de salientar é que apesar dessa diversidade de linhas, existe uma estabilidade que é dada pela estrutura geral da educação universitária. Por exemplo, estudei em três cidades diferentes, em três universidades: Nancy, Monpellier e Lyon. As três bem diferentes entre si, mas todas elas trabalham naquele esquema das aulas magistrais e trabalhos dirigidos, efetuando assim, cada uma delas dentro de seu filtro específico, a distinção entre acumulação e produção de conhecimento sociológico.

Na primeira o foco era sociologia do trabalho. Existiam dois grupos que disputavam espaço e poder dentro da universidade e essa disputa também se traduzia nas opções intelectuais, expressas por afinidades ou contrastes com idéias já firmadas dentro universo acadêmico conhecido: de um lado, grosso modo, você tinha uma corrente que se identificava com a tradição durkheimiana orietada pelo viés histórico como a trazida pela obra de Pierre Bourdieu. Do outro, um grupo se indentificava, de maneira mais ou menos explícita, com a orientação de trabalho do individualismo metodologico cujo mais alto representante francês era nanquele momento Raymond Boudon e cuja filiação na tradição francesa se dava no vínculo e imbricação daquele pensamento com a filosofia da liberdade de Sartre.

Na segunda a grande influência era de Michel Marfesolli. A assimilação dos dois grandes expoentes da sociologia francesa (Boudon e Bourdieu) se dava de maneira completamente diferente. Os dois eram lidos como representantes nefastos de uma ciência racionalista, positivista, empiricista,etc. Tive professores como Jean-Marie Brohm, que era de uma erudição enorme, de uma impressionante cultura filosófica, que pautava seus trabalhos nas referencias da fenomenologia, da psicanálise, do marxismo (esse tipo de salada só tinha espaço lá em Montpellier). Foi com ele que fiz meu primeiro trabalho de final de curso, que era uma análise dos cadernos de Nijinsky (gosto deste texto de um psiquiatra sobre o caso do bailarino). Para mim aquilo não era sociologia, mas hoje percebo como o exercicio foi bastante expressivo para mim por conta do contexto daquela universidade. Percebi, com aquilo, que apesar de toda a diferença entre uma e outra universidade, existia um espécie de coeficiente mínimo comum, um denominador comum que fazia da sociologia uma disciplina que era ensinada da mesma maneira nas diversas universidades. Tive aulas de estatística lá, por exemplo, e os professores apesar de defender àquela “filosofização” toda da sociologia, ensinavam os procedimentos técnicos de análise que hoje fazem parte do patrimônio comum da disciplina.

Já em Lyon encontrei um grupo forte trabalhando com sociologia da socialização, o GRS (Groupe de Recherche sur la socialisation).O grupo era e é animado e dirigido pelo sociólogo Bernard Lahire que se auto-intitula um bourdieusiano heterodoxo. Na univesidade de Lyon, no GRS, defini as linhas de trabalho e o enquadramento teorico-medotodologico que hoje guiam o meu trabalho de tese. A universidade também era bem diversa e encontrei, pela primeira vez, um grupo de pesquisa que trabalhava com a sociologia das ciências inspirada na obra de Bruno Latour. Tenho até uma amiga que trabalhava a simetria de não sei o que num contexto onde se discute o impacto na natureza em regiões com turbinas de minério… Sinceramente, nunca entendi do que se tratava.

Vontando à UFPE: descreveria assim meu estranhamento …

Meu processo de formação na França, que durou 6 anos mais ou menos, gerou uma forte aculturação. Voltei para fazer um doutorado no CFCH e descobri: todo o esforço de assimilação que fiz para entrar naquele universo, de adaptação à cultura e às práticas intelectuais ali operando, causaram um grande impacto em mim.

O estranhamento do retorno se deu de maneira muito intensa e forte nos primeiros momentos. Eu voltei querendo desbravar sociologicamente o Recife, Pernambuco, o Brasil, mas encontro um ambiente intelectual extremamente avesso ao trabalho rasteiro, mas extremamente importante, da sociologia empirica. Sinto-me isolado, apesar de ter sido acolhido com entusiasmo pelos professores e orientadores. As práticas de produção do programa me pareceram ancoradas muito fortemente numa perspectiva que não distingue com devida ênfase o trabalho de acumulação do saber do de produção de conhecimento através da pesquisa: base forte de minha formação francesa. Assim, fui acolhido no seio do PPGS (program de pós-graduação em sociologia) sendo avaliado por um projeto de pesquisa, e, durante o percorrer do doutorado, o primeiro ano é todo dedicado a disciplinas teóricas, me vi tendo que reviver um processo reflexivo que ancora seu procedimento na acumulação de cultura sociológica de maneira completamente apartada do universo da pesquisa.

Essa apartação é extremamente nociva porque produz trabalhos quando empiricos, vázios de propósito sociológico proprimente dito (são muitas vezes mera sociografia em linguagem estatística rasteira formulada nas tabelas do SPSS). Quando teóricos, são apenas isso, ou seja, são teóricos em demasia, o que se tranforma em suma, em sua grande maioria, na generalizão precoce de explicações que ainda não fizeram sua prova em contextos como o do nordeste brasileiro. O que ocorre nesses casos é a impultação da explicabilidade formal da teoria a um contexo exogeno ao de sua aplicação inicial. O que implica, bem das vezes, num reforço à situação de colonialismo mental a qual nos submetemos de muito bom grado aos grandes centros de produção acadêmica.

Diria mais, não é só na quase absoluta falta de disciplinas que estudem , digamos assim, a tradição sociológica brasileira e os problemas específicos que um sociólogo precisa enfrentar aqui na periferia para produzir conhecimento válido a respeito do mundo social que me sentia só, mas na postura mesma de inquerir o mundo social sem “tocar” nele, jogando conceitos de la para cá e de cá para lá, sem a responsabilidade cosequente de contruir interpretações válidas a partir de fatos sociais verificáveis do ponto de vista de “experimentação empirica”, ou seja, de dados que possam ser analisados de maneira independente do ponto de vista que vai analisá-los. Seria por isso, e apenas nesse sentido, que a sociologia trabalharia dentro de um quandro onde suas teses podem ser refutadas e ou validadas. Não conheço outra forma. Com isso, quero crer, não é preciso entrar numa sangria desatada na busca de uma cientificidade popperiana ou coisa dessa natureza. O propósito híbrido da construção da episteme sociologica admite um espaço assertivo mais ameno, onde a idéia de verificação anda de mãos dadas com a certeza de que a linguagem sociológica só anda para frente diante do arbitrio que representa a interpretação em liguagem corrente, ou seja, fora do jargão mais formalizado, por exemplo, da estatística, usada pelos sociólogos como ferramenta.

Mas não me arrependo da volta. É nesse estranhamento aqui que vou descobrindo empiricamente o significado profundo do que são as chamadas condições sociais (materiais e simbólicas) de produção do conhecimento sociológico em Pernambuco (ao menos, no que diz respeito ao meu realmente amado CFCH). Sem esta experiência tenho a impressão de que minha sociologia seria uma espécie de paisagismo exótico do Brasil para francês ver. Claro, hoje as relações de dominação intelectuais são bem mais complexas do que a simples idéia de colonialismo cultural poderia dar conta, mas sendo colonialismo cultural ou outro nome que se queira dar, parece-me claro o quanto precisamos percorrer para nos livrar de algumas dessas práticas para obter mais autonomia. É isso em todo caso que meu estranhamento diz…

Balanço do Oxymore: fronteiras da história de um blogue

Esse post vem falar do aniversário simbólico do Oxymore. Apesar de não ser exatamente o aniversário do blogue, já que ele teve início formal em março de 2004, existe um momento histórico que é de longe bem mais importante do que a data formal que o inaugurou: a eleição do meu pai para prefeito da cidade do Recife em 2000 (volto a isso mais adiante no texto).

Claro, o Oxymore surgiu e se firmou da confluência de várias pequenas coisas. Poderia citar algumas, sem ordenar a importância de cada uma delas:

– a sugestão de um amigo que me convenceu de que um blogue podia ser mais do que um mero espaço para publicação do vazio interior das pessoas. Para isso, ele primeiro argumentou: “ rapaz, um blogue pode ser também um espaço para debates, troca de idéias, etc.” Depois ele me mostrou (leiam esse antigo mas atualíssimo comentário de Cesar no Don Quijote, o segundo post dele , sobre o “caso Edward Said” e seu posicionamento sobre o conflito israelo-palestino). Fui convencido de vez porque vi na prática um blogue funcionando como espaço onde se escreviam muitas coisas interessantes e inteligentes sobre os mais diversos assuntos.

– ter saído do país e ter ido morar e estudar na França. Estar longe me estimulava a querer manter algum contato com o meu Brasil falando coisas sobre ele.

– o blogue era uma maneira relativamente fácil de manter contato com as pessoas queridas do Brasil que saberiam um pouco do que fazia e estudava.

Mas apesar todos esses elementos serem importantes, acredito que o mais determinante para a forma e conteúdo que o blogue tem ainda hoje tenha sido outro: eleições de 2000 e vou tentar explicar as razões. Não sem antes explorar outras aspectos menores.

Do primeiro contato com o mundo dos blogues retenho meu problema incial. Eu precisei responder a seguinte pergunta: será que como Cesar eu teria coisas interessantes a dizer sobre acontecimentos do mundo, sobre filmes, livros lidos, etc. ? Na minha cabeça a resposta era clara, eu não tinha. Ora bolas, de alguma forma o Oxymore é o resultado da não aceitação de minha resposta. Até hoje ele é a prova (para mim) de que a consciência de minha prórpria incapacidade não me serve como desculpa para nada nessa vida. Tanto, que a boa pergunta a se fazer hoje é de que forma o blogue se tornou um elemento de superação pessoal que continua funcionando para além de interesses meramente individuais meus.

Apesar de ter mudado muito nesses quase cinco anos de funcionamento, o blogue sempre manteve um certo padrão. Acho que hoje posso dizer que a linha diretriz encontrada aqui foi delineada já no seu primeiro momento de existência. Fiquem à vontade para discordar, mas, pessoalmente, eu vejo todo sentido em afirmar que minha atividade blogueira foi um esforço para me situar diante das novas configurações que se colocavam para mim naquele momento inicial. Eu quis fazer desse esforço algo de valor para um público mais amplo que meu próprio umbigo. Sinceramente não sei se consegui. E talvez por isso esse post faça ainda mais sentido.

O que fiz das limitações e medos inciais? Eu diria o seguinte: por conta de minha insegurança (e de incapacidades concretas) eu assumi uma postura que designaria mista na produção dos textos que hoje formam o conjunto até aqui postado. Mista porque ela se expressa através testemunhos pessoais que gostariam de ter um valor minimamente coletivo. Explico isso.

É preciso reconhecer que eu ainda não sabia ao certo a amplitude que um blogue poderia ter. Terminei por conta disso dando uma certa “amplitude quase familiar” aos textos, uma dimensão quase íntima contida nas recordações que nada mais eram do que posts direcionados aos amigos citados naquelas lembranças e que, na minha cabeça, eram os únicos que leriam os textos.

Mas essa tentativa de recordar foi algo mais também. Trazer minhas reflexões sobre coisas vividas, normalmente as que tivessem mais a ver com minha atividade intelectual, era uma maneira de buscar desmistificar um pouco minha própria trajetória para mim e para os outros (os amigos). Essa maneira de me relacionar com os textos tinha uma razão de ser que funcionava como modus operandi da produção. O que estruturava\estrutura o blogue era\é uma espécie de consciência difusa que me fazia/faz sentir fazer parte de maneira um pouco diferente da história política recente do país.

Na verdade, vejo hoje que na minha cabeça a única contribuição individual de interesse coletivo minha para um espaço como é o do Oxymore seria a o do testemunho. O que de interessante eu tinha para dizer só poderia vir do fato de ser filho de um dos principais expoentes da política de esquerda local. Mas é preciso entender isso de uma forma muito específica. O mais impotante não é o fato, mas aquilo que está escondido por trás dele. A importância da trajetória do meu pai no meu blogue estaria menos na posição por ele ocupada(veriador, depudato, prefeito), e mais no caminho, no percurso de transições bruscas que as vitórias políticas do PT e de meu pai desencadiaram na minha própria vida. O Oxymore tem sido através de mim um retrato social de alguém que sintetiza internamente um pouco das tensões das disparidades sociais do Recife.

O que quero dizer com isso? Que o interesse maior do Oxymore para o seu autor está naquilo que ele conseguiu fazer até agora. A meu ver o grande mérito do blogue foi o de expor alguém que, mal ou bem – através dos anseios, oscilações, afirmações, comentários, análises, erros de português, do estilo pouco convencional, dos temas tratatos, dos receios internos de falar sobre alguns assuntos – enfim, expor alguém que condensa, pelos defeitos e qualidades, os traços de uma trajetória de ascensão social e política num país estruturado e se desenvolvendo em meio a um fosso social incomensuravel.

Imaginei que simplesmente contar coisas a partir desse ponto de vista, do de alguém que evoluia em tensão dentro desse processo socio-político maior, que desse contar e contar-me num work in progress de si e das inúmeras “tensões sem síntese” geradas pelo rebuliço de me ver mudando de classe social, de estatuto, de ambições, imaginei que disso tudo sobraria algo interessante para quem pudesse e quisesse se servir.

No dia primeiro meu pai deixou de ser prefeito da cidade. Talvez ele não tenha muito idéia de como o avanço dele balança firme com o resto de nós, os da família. É provável que o impacto da trajetória dele não seja o mesmo em cada um separadamente.O Oxymore, nesse seu tempo de existência, tentou resgatar e registrar os aspectos mais significativos dessa relação implícita que é tão mais evidente quando os elementos que a fundam se dissipam no passado, mesmo que ainda recente.

Lembro-me bem dos tempos em que já no segundo mandato de deputado dele (ele foi veriador por dois anos, e depois três vezes deputado estadual), ainda morávamos na UR-6 por alguma razão. Qual seria? Por que ficamos nesse lugar onde amigos de infância entram no crime e se matam entre si? Seria a presença dos meus avós ainda então vivos? Seria um sentimento difuso de culpa que nos dizia que sair do suburbio seria uma espécie de traição social? O fato é que nossa condição social havia mudado. Daquele ponto em diante, tudo era possível. Meu pai ser prefeito da cidade. E eu criar um blogue. Lugar onde eu não quis confudir a lógica das minhas coisas com as coisas da lógica (minha e dos outros). E que hoje comemora um aniversário simbólico, com toda coerência antinômica desse mundo que se chama o Oxymore.

(continua… em breve)

Teste da foto: memória presente de algumas veredas

Hoje encontrei por acaso com alguém inesperado. Luciana, talvez minha primeira namorada. Não lembro nem se a beijei um dia. De recordação presa na memória, mesmo, só ficou aquela imagem da casa dela, na frente de uma praça que era um pouco distante da minha, na UR-6.

Encontrá-la e ver esta foto aqui hoje me deixou reflexivo…

Já tentei lembrar o que diabos estavamos vendo nesse dia. Mas desisti. Acho até que Diogo já me lembrou uma vez, mas minha memória é por demais seletiva. Já apaguei da minha a recordação dele. Talvez alguém falando sobre marxismo, ou sobre a sociologia pós-estruturalista, ou sobre alguma bobagem dessa que se vê num auditório cheio de estudantes de graduação em ciências sociais. Mas nada disso importa, mesmo.

Na foto temos, dos que mais convivi, da direita para esquerda (a ordem é quase sempre importante): Dosta, Frávio, Cesar, Jampa e Diogo. Logo atrás, Cunegundes e mestre Giva… Acho que Simone está à esqueda, mais ao fundo, sempre de preto. E penso reconhecer Adriana ainda mais atrás , mas não tenho certeza alguma.

***

Cada um com seu cada um, dizia um amigo da UR-6. Ele repetia essa frase em alguns tipos de situação. Um amigo te traiu, “cada um faz o seu. Cada um com seu cada um. Não é assim não?” Eu achava incrível aquela franqueza individualista. Era uma coisa tupiniquim, violenta. Não confie em ninguém. Seja auto-suficiente, assim você sobrevive melhor. Ainda hoje acho isso raro. Não sei bem a razão, mas essa frase me ficou e acho que individualismo é isso: “cada um com seu cada um” E depois, para piorar, tendo a pensar que essa maneira de ver sempre acompanha um certo naturalismo conservador “não é assim não?”. O individualismo, para mim, é fruto do medo naturalizado do outro.

Hoje percebo que aquela maneira de falar de meu amigo da UR-6 era um código. Decifro-o agora: para o pior, que ocorre tão freqüentemente, é sempre bom estar preparado. Cada um com seu cada um é uma vacina que prepara o espirito para a virose chamada mundo. Uma vacina que parecia proteger contra a certeza de um futuro incerto, sem perspectivas onde quem vence é sempre um traidor. Lugar hobbesiano, onde em todos os momentos se vivencia a luta do bem contra o mal, onde uns são bons e outros são maus. Um universo sem muitas palavras “não é assim não é ?”

***

A foto do post traz um mundo sobreposto a esse, espaço onde encontrei as palavras para falar sobre o silêncio que aquele outro sem foto evoca. Uma descrição do meu visual semi-punk, pós-nietzschiano, peseudo-filosófico, pode, com o esforço amigo do leitor, denunciar a tensão existente entre invisíveis co-existindo alí. Em mim, naquela cabeça raspada com uma mecha de cabelo correndo até a orelha esquerda, os dois mundos se digladiavam. E o look debochado, nem totalmente marginal nem perto de ser convencional, era uma maneira de expressar toda a violência daquele momento de aprendizado.

Incorporar um vocabulário esquisito, formal, era também senão esquecer, imputar ao mundo silencioso, aquela nova maneira de falar e entender as coisas, inclusive do velho mundo, cheio de girias e palavrões vulgares que, naquele contexto, só queria calar.

A foto traz amigos que hoje mal ou bem, ou mal e bem, estão aí inseridos nesse mundão a fora. Professores universitários, pesquisadores, empregados de orgãos públicos, etc. Da UR-6 quase nunca tenho notícia. Luciana, a encontrei no parque da Jaqueira, ela tem uma pscina de bolas para crianças bricarem. Do meu amigo autor da frase que deliniou minha recusa institiva à filosofia complexa que enfatiza o individuo como base analítica da vida social (sociedade, such a impossible thing to think!), soube apenas que o irmão dele foi preso por traficar cigarros. Mas já se soltou e vive uma vida muito parecida com a minha, onde cada um faz o seu, não é assim não é?