Tentativa de autoanálise: Jampa e o feminismo

Originalmente escrito aqui, para o Cazzo.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Feminismo: coisa de homem?

A sugestão desse texto partiu de um diálogo que tive com a professora Cynthia Hamlin no Facebook. Depois de ter linkado esse depoimento que havia lido, escrevi a seguinte chamada para o texto:

Feminismo, coisa de homem. Ser contra injustiça pode ser um aprendizado de uma vida. E não é fácil. Vale muito a leitura desse texto de autoanálise.

O que me valeu a seguinte resposta: ‎“Feminismo, coisa de homem”. Jampa, apesar de ter entendido o que vc quis dizer, essa sua frase dá margem a umas interpretações complicaaaadas…

O diálogo continuou até chegarmos ao essencial: Aliás, Jampa, vc poderia fazer sua autoanálise e doá-la para o Cazzo, não?

Aqui estou.

Mas, como dito, não creio que minha autoanálise vai render tanto como a que fez a própria Cynthia por aqui. Aliás, muita coisa boa tem aparecido na internet nesse sentido. Como o blogue feminista que promente ser bom, composto de estudantes da USP, que entrou no meu radar pelo Biscoito, o Quem mandou nascer mulher?

Passei dois longos dias pensando como fazer uma reflexão pessoal sobre minha relação com o feminismo que não fosse íntima demais para perder o seu interesse público. E ao pensar nisso, ocorreu-me o primeiro elemento de dificuldade que terminou por ser o mote do meu texto: as diferenças e semelhanças entre minha relação com o feminismo (mais intelectualizada), com a reflexão feminista, com o universo de reivindicação de amigas ativistas – e as minhas relações com o sexo feminino (mais mundanas), mais concretamente, as que nutro com as mulheres que me rodeiam, amigas, filha, mãe, esposa, etc.

Existe um claro descontínuo entre esses dois tipos de relação. O estranho é o seguinte: relacionadas entre si no plano da análise (falo da relação com o feminismo e da relação com as mulheres), as questões feministas, para mim sempre mais reflexivas, tendem sempre a ficar em suspenso nas relações concretas estabelecidas com as mulheres no dia-a-dia. Não sei se isso chega a ser um dilema, mas essa tensão aparece na minha reflexão sobre mim mesmo com alguma frequência. Escolhi falar apenas do primeiro aspecto (relação intelectualizada com o feminismo), porque o segundo já implicaria ter vencido as resistências que na verdade, no máximo, consigo apenas reconhecer. O que mostra que o conhecimento de uma limitação quase nunca é suficiente para se liberar de certas amarras.

Vamos então ao reconhecimento da minha fraqueza reflexiva masculina: sei que minha resistência existe, mas a percebo com mais clareza na relação mais direta com o feminismo, daí aceitar para mim o foco do feminismo como quem aceita, sem saber exatamente como funciona o mecanismo que o produz, o efeito terapêutico da psicanálise. Antes de exemplificar esse primeiro locus do mea culpa, façamos uma digressão para expor como a sociologia aparece para mim a um só tempo como elemento integrante da minha resistência (sempre entendia no sentido freudiano de denegação) e meio para transpô-la (a resistência) pela reflexão: a sociologia volta num segundo momento, mas como recurso analítico das causas da resistência.

É preciso, para isso, situar minha visão da sociologia e como tendo a instrumentalizá-la para me situar no mundo. Dois pontos para mim são essenciais: 1) a socialização e, 2) por conta dela, a história, entendida como acúmulo do passado nos indivíduos condicionando a ação dos agentes/atores nos mais diversos contextos sociais. Resultado: a história da relação com as mulheres é (necessariamente) um elemento importante e deve ser levado em consideração para entender a “socialização masculina”, mesmo a que produz os seres mais desprovidos de sensibilidade com a chamada “questão da mulher”. Foi movido por essa ideia que pude, em minha tese, reconstruir os esquemas de socialização de Paulo Honório, protagonista do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, levando em conta a multiplicidade de formas de se relacionar com o sexo oposto, todas elas descritas na narrativa como fazendo parte da história de vida da personagem. Paulo Honório, violento e machista, por conta da ambivalência e complexidade das relações estabelecidas com as mulheres durante seu período de formação, pôde, num dado momento, depois de causar a morte de sua esposa, refletir sobre sua própria condição de homem, percebendo aspectos importantes de seu comportamento, forma de agir e ser da qual se arrepedia amarguradamente. A dominação gerou a perda, mas o que tornou possível a reflexão autoanalítica contida no romance narrado em primeira pessoa? Eis a pergunta que moveu minha análise. Se Paulo Honório estivesse 100% convicto de que fez o que tinha que ser feito, se fosse um macho socializado totalmente no regime dos valores de sua dominação, como poderia ele questionar a matéria prima de seu comportamento? Percebam que, como analista, usei as ferramentas da sociologia não para inculpar o protagonista, mas para reter as informações correspondentes ao seu processo de socialização e sua atualização (no presente) como mote performativo da trama do romance. Uma crítica feminista teria a meu ver ido mais longe, revelando a incapacidade dele de se dar conta de tantas coisas importantes antes da morte da mulher. Tive uma boa trocas de ideias a esse respeito com Ana Paula Portella, que por e-mail avaliou o limite do alcance crítico da empreitada analítica que empreendi. Empreitada de homem?

Depois dessa primeira digressão, pode-se com mais clareza ver o que simboliza minha resistência (mais uma vez, no sentido de Freud): como sociólogo que nunca estudou as relações de gênero (na verdade, só um pouquinho, para aquela que foi parte ínfima de minha tese), minhas opiniões tendem a ser “deslocadas” do foco central da crítica feminista, tornando meu esforço de compreensão de alguns eventos, uma mise en abstraction das questões concretas postas à luz do dia pela reflexão das feministas.

Exemplo concreto dessa abstração pode ser lido aqui, quando me posicionei a respeito do caso Eloá. Na época, li várias análises de trato feminista, mas me recusava a aceitar o argumento central das teses ali defendidas, como quem tem medo de ver o óbvio que elucida sua posição de dominação.

Num texto para lá de mal escrito, já sob efeito da mais pura denegação masculina, tentei mais uma vez reafirmar o meu propósito: nem tudo é questão de gênero, e blá, blá, blá. Uma amiga de doutorado, das mais inteligentes colegas que conheci, comentou o que hoje eu mesmo vejo como meu despropósito:

“Oi, Jampa, Acho legal essa tentativa de diálgo com o feminismo… Mas acho de fato que algumas questões ainda são cegas para você, tudo que você fala é legítimo, mas o buraco é muito mais embaixo e muito mais profundo. Existem elementos que realçamos porque de fato enxergamos assim em nossa cultura, ocidental e oriental, com as suas nuances tão específicas… de submissão e menor valoração às mulheres. Vejo muitos relatos e inclusive os jornais colocam o “amor que mata”. Só essa frase, que em si é absolutamente cega, já diz muito da compreensão equivocada, inclusve das pessoas que querem tratar o caso seriamente. A questão da vítima realmente é muito mole para ser pega, pois se ampliarmos isso, Lindembergue também é vítima de uma lógica de amor e de relações que o fez acreditar que sem ela ele não podia viver, e que sem ele ela deveria ser morta… Acho que faltam elementos, e por mais que o seu diálogo seja sincero, ele ainda tem ficado, do m eu ponto de vista, “nas boas intenções”, e sei que o esforço é válido, mas, usando uma frase de uma amiga: “os homens podem se compadecer da situação das mulheres, mas nunca padecer”. E quando leio o que você escreve, ao menos para mim, fica claro o seu lugar de homem nos pontos de vista que defende… não quero tratar aqui de uma guerra dos sexos, mas dos elementos e das discussões importantes para permitir te alavancar desse lugar.”

Volto aqui ao ponto inicial do meu mea culpa para com isso tentar concluir essa breve autoanálise: foi através da relação direta com as feministas, e as questões e argumentos espinhosos que põem em questão a posição particular em que os homens estão situados para refletir sobre os eventos, que pude sempre me dar conta do tamanho da minha resistência. E isso já aconteceu em diversas ocasiões, como o exemplo acima ilustra. Por essa razão, no diálogo no Facebook, defendi que esse lugar específico ocupado pelo homem, que o coloca inclusive na defensiva porque ele se julga ameaçado de perder o lugar que ocupa no sistema de dominação, não pode ser desconsiderado para a reflexão que prescinde de análise sobre a especificidade da resistência masculina ao feminismo. É um ponto de vista que defendo, acredito, que não se confunde com o comentário que Nicole fez:

“Pra mim o problema que deriva do que Cynthia esta dizendo é algumas pessoas acharem que esse processo da aceitação do feminismo pelo homem é mais árduo do que a aceitação feminina, que ocorreria de forma mais ‘natural’. E sabemos bem que esses movimentos de aceitação, tanto masculino quanto feminino, são de certa maneira indissociáveis e co-dependentes.”

Em nenhum momento eu quis defender que seja mais fácil para mulher que para o homem (em termos de socialização dos esquemas de dominação, ou seja, da incorporação desses esquemas) aceitar as teses centrais que o feminismo defende (aliás, que os feminismos defendem, não podemos esquecer). Apenas acredito, como sociólogo, que não se pode ignorar o lugar do qual o homem socializado atua ao aceitar ou recusar tais ideias. O mesmo deve-se fazer em relação a mulher socializada e ao feminino. Isso se quisermos dar alguma concretude aos debates abstratos sobre socialização do feminino e do masculino. A questão que me faço é de sociologia da dominação, dos espaços ocupados que não querem ser perdidos, dos capitais simbólicos que designam superioridade etc. esse topos que situa concretamente os agentes na hierarquia social que a estrutura de dominação de alguma forma agencia. Negar isso seria, a meu ver, negar a realidade díspar que é a razão de ser do feminismo, dos embates contra a situação estrutural de inferioridade. Veja que discuto teoricamente o que poderia ser debatido através de questões mais concretas, através de categorias que visassem captar essa disparidades em seus contextos específicos…

Mas como não quis expor, por mil e uma razões, as minhas dificuldades mundanas, da ordem da conviência pessoal com o sexo feminino, e não tenho pesquisas nessa área, achei melhor me ater à minha modesta relação intelectual com o feminismo. Julgo que nas relações concretas poderíamos encontrar também elementos não menos essenciais para analisar os fatores que freiam ou fazem avançar – em uma figura que se julga heterossexual como eu – sua sensibilidade em prol da causa feminista. Isso fica para uma oportunidade futura, quando tiver ponderado com mais clareza sobre os recalques corriqueiros de minha masculinidade.

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