Vovó e o meu eu sociológico

Um grande amigo uma vez escreveu: “Vejo meu avô como um gigante, apesar de ter estudado mais, viajado mais, lido mais que o velho Alfredo. Reconheço sem tristeza que ele é “melhor” do que eu. Pois isso me dará o metro certo para seguir a minha vida e talvez realizar aquilo que o velho Alfredo tenha feito tão bem na sua vida.” (Leia o texto na íntegra, aqui).

Minha avó é antes de tudo uma forte. E devo reconhecer a meu turno, como outrora fez meu amigo, que a velha Maria Pereira é muito melhor do que eu. E reconheço esse fato sob o regime da mais pura alegria. O melhor disso, porém, é sentir que a presença dela em mim depois de sua partida, é uma maneira de perceber que não só ela era melhor e superior, mas que ela continua a me melhorar, porque gostaria de ser como ela.

Ela faleceu ontém depois de ter passado um longo período de hospitalização. Mãe de muitos filhos, a velha senhora era dona de uma resistência física a dar inveja a muito marmanjo de academia de musculação. Vovó Maria, ai que saudade!

Tê-la visitado antes de minha defesa teve um significado simbólico profundo para mim: ser sociólogo é a constatação de meu ser contraditório. Ser neto da vovó significa ter a obrigação de ser uma pessoa humana melhor, mais alegre e feliz consigo mesma. Como fazê-lo?

De família com orígem pobre, percebo a evolução do acesso à escola nas gerações que precederam a minha. Vovó não sabia ler nem escrever. Seus filhos sim. Mas não  tiveram contato com o ensino superior. Já seus netos, a maioria teve mais condição. Muitos deles, com o auxílio dos pais, chegaram à universidade. E um deles, até aqui, chegou até o final do percurso, seguindo a trajetória escolar até o seu termo institucional: o doutoramento.  Por que digo tudo isso?

Porque por conta da grandeza de minha avó não vejo nesse processo uma evolução valorativa na escala das pessoas. Ela inverte isso: no topo dessa escala, não tenho dúvidas, está a analfabeta vovó Maria Pereira. E essa consciência tem sido muito importante para mim e minha formação.

No momento da minha defesa eu … :

”… Pensava nos avós, sobretudo na vovó, que eu havia visitado no dia anterior. Ela pediu para a filha ler uma carta para ela. Depois, voltou a repetir algumas vezes: “não saber ler é tão ruim, você lê uma carta para mim minha fia”. […] O que significava para mim defender aquela tese? Defendi pensando nessas coisas, sentindo esse hiato entre o não saber ler que oprime e libera, e o saber doutoral que libera e… oprime. O equilíbrio desse sentimento se encontra para aquém e além da própria tese. Resta saber se conseguirei dentro do meu trabalho a seguir fazer jus ao respeito e amor que nutro profundamente pela analfabeta Vovó Maria, senhora matriarca de todos os amores do mundo, mãe vocacional de minha luta sociológica por um saber que afirme seu valor sem representar uma opressão aos que, por razões mundanas, amaram e viveram sem ter acesso ao saber livresco.”

Ela me faz melhor, porque quero sim, naquilo que eu faço bem, estar à sua altura.  Vovó representa para mim a incrível esperança que nutro na vida apesar de todos os apesar de. Ela é  um exemplo supremo, um modelo de excelência que indica a possibilidade real e mundana do milagre que é o amor desinteressado, do valorizar a vida que vale como ela é. Vovó é  para mim um exemplo intransponível: uma espécie de mote moral niezschiano (se é que isso é possível) que se efetua no coração iletrado dela, nos gestos de amor  aos seus netos de maneira tão incondicional. Pode parecer piegas o que digo, mas não é pouco ser piegas de maneira sincera e autêntica. Devo muito a ela esse algo na minha pequena e autocentrada vida acadêmica que é pulsão contra o academicismo e o elitismo de tantos intelectuais. Não defendo nenhum propósito irracionalista. Nem pretendo valorizar o anafalbetismo como qualidade desejável. Só acho que ser neto da vovó me tornou sensível e crítico a tendência autorreferenciada dos integrantes do universo intelectual, crítico a uma verdadeira inclinação naturalizada que (n)os faz tomar as regras do mundo acadêmico como sendo as mesmas que deveriam regular e ordenar o mundo em que vivemos.  Fazer essa confusão é o mesmo que tomar as coisas da lógica como sendo as lógicas das coisas, como dizia Marx.  O que é uma deformação profissional em sentido forte do termo. Vovó foi para mim em seu amor profundo uma grande vacina contra esse defeito.

Minha avó não leu Marx. Vivia  no mundo como se nele não houvesse lógicas a serem decifradas.  Parecia não valorizar riqueza que não fosse motivo de real felicidade e realização. Forçava-me, por isso, a pensar sobre o valor de tudo aquilo que faço ao estudar pelo propósito de conhecer. Vovó Maria é a vida contra a paralização mortificante do conhecimento morto. Fazer as coisas com alegria e cantando é um retrato profundo da velha senhora  incansável em seu amor: Maria Pereira e seu Gai Savoir.  Esse retrato dela às vezes me deixa confuso: como alguém tão católico pôde ter uma prática de vida tão oposta à culpabilidade triste que eu via no catolicismo? Em Maria Pereira o Gai Savoir é uma maneira de ser. A vovó ensina mais uma vez:  a alegria é que faz do saber incorporado um antídoto ao saber triste e morto da acumualação erudita. Saber é poder, mas é mais e melhor quando cheio de dança, alegria e graça.

Adeus Vovó. A sua lição e amor relativisam sim o sentimento da perda eterna, você continua nos melhorando… para sempre.

2 pensamentos sobre “Vovó e o meu eu sociológico

  1. Oi Paulinho, acabei de ler o seu texto e ainda estou chorando. Que coisa linda! ^. Você consegue decifrar a grandeza do que foi a minha mãe, m as agente ainda percebe que tudo o que ela foi é indescritível. Um abraço afetuoso e fraterno. Estaremos sempre unidos na luta pela vida como a minha mãe sempre nos ensinou.
    Um abraço a todos.
    Bernadete.

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