Pensando o caso da notícia da morte do jovem vítima de preconceito homofóbico

Sei que corro forte risco ao escrever essa nota. Mas não resisti. Escrevo porque sei que pode existir preconceito sem ódio. E isso faz alguma diferença. Digo isso sendo uma pessoa que é totalmente a favor da criminalização da homofobia. Existe já uma comoção em torno da morte do jovem vítima de preconceito, porque seus pais formam um casal gay. Tive o cuidado de ler e comparar as matérias que trataram do assunto e acho muito importante lidar com as informações da maneira mais responsável possível, porque a acusação é grave e as notícias não são muito bem dadas. Estranhei o fato da notícia da morte ( http://migre.me/oXHZo) ter sido dada sem palavra “espacamamento”, que aparecia na primeira situação (http://migre.me/oXHZo). Vocês podem me dizer, mas com a morte do garoto, isso não importa. Entre agressão e espancamento, não há diferenças. Olha, quando li a primeira matéria, a imagem que me veio à mente foi a do ódio de 5 outros adolescentes que batiam compulsivamente num garoto só porque ele era filho de um casal gay. Ao que indica a informação médica “exames feitos no garoto também constataram que ele teve hemorragia, mas não apresentava sinais externos de violência física”, insinua que não houve espancamento. Eu teria cautela em se contrapor a um ódio que talvez não tenha existido, porque isso, a meu ver, é terreno movediço para que ele cresça. Dois dos 5 meninos foram pedir desculpas, informação que também é contraditória com a tese do ódio, geralmente perpetrado por pessoas já insensíveis a esse tipo de gesto.

Alguém pode argumentar que o preconceito é a cama do ódio. Mas não ver as nuances entre diferentes casos, é também reproduzir preconceito para deter aquele que já existe. Imagino, por exemplo, que exista uma dor diferente que é de imaginar que seu filho foi morto espancado pelo ódio, e uma visão mais amena, ver que ele foi vítima de uma agressão na qual seu corpo foi de alguma forma preservado, não negado pela força da violência física.

Em todos os casos, é preciso justiça e apoio à família. Mas com o cuidado com o que se diz e como se diz, se corre menos risco de amplificar algo pelo medo que temos dessa violência ser generalizada. É preciso ter cuidado porque também existe luta contra o preconceito com ódio, e as vezes, na certezas de estamos do lado certo, esquecemos disso.

Refletindo sobre atividade intelectual no dia internacional da mulher

Há dias tenho tentado dar mais atenção e cuidado ao meu trabalho acadêmico, mas as tarefas do lar não ajudam. Cuidar do pequeno, fazer comida, faxina, colocar para dormir e todas as milhares de antecipações que cada um desses afazeres necessita consomem não apenas o tempo, mas a energia para os outros tipos de trabalho. Mas essas são as condições de meu trabalho intelectual atualmente, digo-me, para paziguar minha consciência improdutiva. E milhares de mulheres antes de mim passaram por isso com sucesso, por que não eu?
Hoje é o dia 7 de março e as homenagens para o dia das mulheres já começam a se intensificar nas TLs da vida. Muitos parabéns, flores e um blá blá blá habitual. Muitos votos de basta contra a violência física contra as mulheres. Muitas lembranças sobre essa luta política necessária e importante que é a do feminismo. O dia das mulheres sempre me deixa reflexivo.
Acho que por isso comecei meu texto pensando nessa minha “condição feminina” atual, de macho do lar. Não sei se é homenagem o que faço. Creio que não. Mas lembro de um conceito de uma obra que me é cara dentro de minha formação, a idéia de “escolástica”. É um termo que ganhou contornos críticos dentro da sociologia dos intelectuais à Bourdieu. Termo que vem da palavra “skholé”, do grego, e que significa lazer. Por extensão o termo designa “aquele que tem tempo”, e de forma mais genérica, mais ampla, “as pessoas cortadas da vida ordinária e de suas urgências”, por equivalência, os intelectuais (não por acaso, durante tanto tempo, predominantemente homens).
Fiquei pensando o quanto a estrutura da vida social nos termos os quais vivemos ainda hoje é uma das principais responsáveis pela disparidade de condições entre homens e mulheres no Brasil. Não falo em estrutura como uma noção abstrata. Penso, por exemplo, nas atividades intelectuais que, para serem bem executadas, são exatamente esse equivalente de tempo “livre das urgências” que é negado às mulheres na naturalização efetivada nas divisões sexualizadas das diferentes tarefas desde a tenra infância. Essas atividades são diferentemente distribuídas entre as mulheres também, segundo a classe social. Mas via de regra, existe uma clara e veemente feminização das atividades domésticas, do lar. O que o menino pode e não pode. O que uma menina pode e não pode. Isso é tão determinante.
Pergunto-me: por que nós homens ainda hoje não aprendemos e não ensinamos aos nossos filhos do sexo masculino as asperezas das tarefas domésticas? (Percebam que não pergunto para as mães, por favor. É triste responsabilizar as mulheres por um problema que é de todos, não é?)
O como esse jeito de nos educar reflete depois, já na vida adulta, as disparidades estatísticas mostram as distorções. Nossa socialização de gênero dificulta sobremaneira a presença das mulheres em espaços importantes da vida social, e nos faz tão desiguais em nossos direitos.
Que o dia das mulheres seja um dia no qual possamos nos rever diante de tantas coisas incomensuráveis como é o fato de ter nascido homem e de ter tido privilégios como o que diz que não precisava aprender (gastar meu tempo livre com) as atividades domésticas. Que possamos gastar nosso tempo juntos para pensar outras formas de nos fazer em sociedade, de aprender juntos a nos reeducar ao educar nossos filhos e filhas, jeito de tentar sermos menos diferentes em direitos e oportunidades num futuro próximo, e quem sabe mais felizes na forma de experimentar o respeito às diferenças que restarem.

Aos amigos que votaram em Aécio (e aos de Dilma também, sei lá)

É sempre assim… Meus amigos que tiveram escola, comida e facilidades, dizendo que tudo aquilo que eles nunca precisaram do Estado, porque já tinham de casa, é esmola e migalha. Chamam de mérito seus próprios privilégios e sentem vergonha de quem, mesmo que de forma obtusa e refratária, teria dado voto em “interesse próprio”, em troca dessa humilhação que é o Bolsa Família. Mesma lógica: branco que diz como o preto deve se comportar em relação ao racismo sofrido. Ou ainda: homem que diz o que e como a mulher deve usar (em) seu corpo em caso de agressão. Não gente, não esqueçam que nem tudo gira em torno de vocês. E lembrem-se de defender seus projetos reconhecendo que, mesmo que seja difícil, não existe nada na natureza de seus interesses particulares que lhes façam por natureza ser melhores ou mais inteligentes do que quem possuir outros, menos ligados à capacidade de consumo e ao mimimi sobre impostos. Falo com todo carinho e respeito: defendam suas idéias liberais, critiquem o assistencialismo, defendam seus interesses e até mesmo privilégios. Eu posso discordar, contudo não teria como afirmar indigna a postura. Mas vociferar burros os que votaram em Dilma? Dizer que votaram nela em troca de esmolas? Que isso diz sobre sua inteligência liberal antipetista? Não se pode dizer sensatos esses comentários raivosos nos quais há insensatez no ato mesmo de reproduzir e essencializar as desigualdades e diferenças de forma tão mesquinha e sem reflexão. Existe reducionismo e mesquinharia também em certo discurso esquerdista, convenho. Discurso raivoso também. Aqui não estou necessariamente defendendo lado. O populismo é um defeito freqüente na retórica acalorada dos governistas mais entusiastas. Contudo é a demofobia, esse horror do pobre no tipo de negação ao qual me refiro, que é uma das reações naturalizadas mais violentas que conheço, causando-me o desconforto de inviabilizar o debate, a conversa ou qualquer tipo de interação. É o elitismo mais tosco e vil que conheço. Tenho muitos amigos que votaram em Aécio pelos quais nutro todo respeito e admiração. Como conheço votantes na Dilma de quem quero distância. Não existe lado detentor do monopólio da verdade e da ética. Aliás essa polarização tem muitos limites e não encerra em si a complexidade de visões que se pode ter de nossa política. Verdade que só faz sentido quando existe disposição para a escuta. Não vai existir diálogo decente algum diante das afirmações grandiloqüentes dos egos encarecidos pelo medo do outro de quem muitas vezes discordamos sem nem sequer termos de fato tentado ouvir. Não vou me demorar nessa volta temporária ao face, mas desejo profundamente que na minha próxima volta, possamos conversar e divergir com inteligência e ponderação sobre as idéias e caminhos desse verdadeiro sertão que é a política brasileira. Abraços,

A falsa igualdade para as criança com necessidades especiais: uma manhã na Jaqueira

No sábado passado fui ao Parque da Jaqueira brincar um pouco com meus filhos. Foi a primeira vez que vi brinquedos específicos para crianças com algum tipo de necessidade especial por aqui. Poderia passar um bom tempo falando sobre essa tentativa de criação de igualdade exclusivamente para um extrato de privilégio já estabelecido. O debate seria bom, já que em tese o espaço é público e todos, de todas as classes e cores podem usufruir do espaço. Mas, o buraco é sempre mais em baixo.

Placa dos brinquedos para crianças com necessidades especiais


Os espaços exclusivos são também, na prática, apesar da placa informar sobre o “uso preferencial”, excludentes. Explico-me: para minha surpresa, as crianças tidas como normais são proibidas de usar os brinquedos que são não de uso preferencial, como diz a placa, mas exclusivo para crianças especiais. Resultado: criou-se uma regra burra para uma ferramenta que por definição deveria ser utilizada para integrar e não separar as crianças umas das outras. Esse jeito de pensar os brinquedos equivale uma versão tosca e racista do uso das cotas na universidade. Qualquer coisa do tipo: reunir todos os cotistas universitários em salas exclusivas para eles. Ora, o instrumento existe para fazer o oposto, trazer para junto, mostrar que as diferenças, que de fato existem, não são limites intransponíveis para convivência, para o viver bem junto. 

20141011_104943Brinquedos para crianças com necessidades especiais
Mas diante da sensibilidade dessa gestão, na qual a paisagem artificial de um playground é usada como modelo de felicidade do prefeito junto aos seus filhos, sinceramente, não me impressiona que a pequena política de um parque de ricos (ainda que não apenas deles), reforce as diferenças mesmo quando a intenção seja aparentemente de combatê-las.

Notas sobre a família de Eduardo Campos e a política quando de sua morte

(Texto escrito no 19/08/2014, na minha linha do tempo no facebook, e corrigido para o blog)

Eu tava escrevendo na TL de um amigo que havia criticado a atitude da viúva de Eduardo Campos. Ele fazia isso comparando o gesto político dela de viver o luto na própria política à narrativa de início do famoso romance de Albert Camus, O Estrangeiro, quando o protagonista começa a narração com a vexatória imprecisão de não saber se sua mãe teria morrido naquele dia ou no anterior.”Isso não importa”, dizia a primeira pessoa mais impessoal da literatura, logo no primeiro parágrafo do texto.

Eu, de minha parte, pensando também em literatura, discordaria do teor da crítica, apesar de achar lastimável o uso político da morte e concordar com o que ela descreve da sensação de absurdo do momento. Explico-me. Não sinto nenhuma empatia pela postura da viúva de Eduardo Campos. Mas ao mesmo tempo a atitude propriamente política não me causa nenhuma surpresa. Como, então, juntar as coisas?

Acho que um outro romance ajudaria melhor a fazer uma metáfora aproximativa da situação de absurdo desse momento: São Bernardo, de Graciliano Ramos. Quem conhece o romance sabe que ele conta a história de um outro tipo de tragédia que culmina também em uma morte – o suicídio de Madalena, esposa de Paulo Honório. O protagonista é uma espécie de coronel moderno que é responsável pela atualização das relações de dominação e poder com a chegada do capitalismo no interior do Brasil.

A comparação que faria não seria a mais óbvia entre a personalidade de Eduardo Campos e a de Paulo Honório. Estabeleceria uma entre a atitude de Renata Campos e a de Paulo Honório (os viúvos). Graciliano descreve muito bem como diante da morte de uma pessoal amada, produz-se essa tendência quase que imanente de superinvestimento no esforço de apropriação das qualidades da pessoa que se foi. Paulo Honório, homem bruto e violento, pragmático e dominador, coloca-se assim, na situação de recontar sua própria vida através de um livro, forma de se apropriar das características mais caras a Madalena, professora do interior que via na cultura e na educação a maneira de ajudar os outros. E isso como clara resposta à morte prematura da mulher a quem ele de fato amou. Como não entender que seja um tipo de re-apropriação nesses termos o que impele não só Renata Campos, mas a família, a se empenhar na continuidade das qualidades mais evidentes do ser amado? Eu poderia divagar mais nessa leitura, mas Ana Paula Portella, menina sabida e sensível, sintetizou de maneira incrível essa mesma ideia, e então desisti. Muito bonito perceber como é possível entender que as melhores compreensões não eliminam  razão de ser de nossa perplexidade. razão de ser de nossa perplexidade.professora do interior que via na cultura e na educação a maneira de ajudar os outros. E isso como clara resposta à morte prematura da mulher a quem ele de fato amou. Como não entender que seja um tipo de re-apropriação nesses termos o que impele não só Renata Campos, mas a família, a se empenhar na continuidade das qualidades mais evidentes do ser amado? Eu poderia divagar mais nessa leitura, mas Ana Paula Portella, menina sabida e sensível, sintetizou de maneira incrível essa mesma ideia, e então desisti. Muito bonito perceber como é possível entender que as melhores compreensões não eliminam a razão de ser de nossa perplexidade.

Comentário de Ana Paula Portella sobre o mesmo tema:

Um homem que viveu a sua vida inteira na política, que respirava e pensava política o tempo inteiro, em uma família estruturada pela política em todos os seus níveis – partidário, eleitoral e na gestão pública. Como é que passa pela cabeça de alguém que a sua morte poderia ser tratada longe desse ambiente e fora da lógica política? Pessoalmente, acho que há elementos abomináveis nisso tudo e outros claramente criminosos, ao infringirem a legislação eleitoral. Mas nunca imaginei por um segundo sequer que as homenagens, velório e funeral não seriam ‘politizados’. E, claro, no mau sentido, já que é o modo de fazer política do PSB, que todos conhecemos bem. Isso tudo só pra dizer que não me surpreendo com o espetáculo nem com o envolvimento de toda a família nele. E embora não me agrade, também não consigo condenar, por que não consigo imaginar alternativa, dado o contexto da família, do partido e do momento eleitoral. Mas compreendo bem a decisão da família de Marcelo Lyra ao preferir a cerimônia reservada.

Eu tenho certeza que o que passa pela cabeça e pelo coração da família e dos correlegionários é o seguinte: Eduardo gostaria que fosse exatamente desse jeito e que a sua ida rendesse frutos eleitorais, por que ele acreditava mesmo que era uma alternativa para o país. Tenho certeza de que todos estão com a consciência tranquila e em paz por que fazem aquilo que Eduardo desejava e representava. Agora, nós nos assustamos por que nunca concordamos com essa forma de fazer política, nem na vida nem morte de qualquer um deles.

Notas sobre um olhar sociológico a respeito do ato de votar em Pernambuco…

O primeiro turno passou. Meu único pitaco de imprecisão analítica – que falava mais da interpretação das pesquisas do que da metodologia (que foi o que o comentário do blogueiro do JC tentou insinuar sobre o que eu disse)- mostrou-se, é verdade, bem equivocado. (Ver o comentário impreciso do blogueiro do JC: aqui). Talvez por birra, não mudaria uma linha diante de tal erro, não quanto aos critérios de credibilidade de um comentarista ao analisar tais dados. O fato é que o movimento das urnas revelou que Adriano Oliveira estava mais do que certo. O problema talvez seja mesmo esse: o que significa estar certo quanto aos resultados dessa eleição? O que significa a vitória das ruas todas amarelas e essa glória eleitoral do grupo eduardista? Como dizia um antigo professor meu, o grande mistério das ciências sociais talvez esteja sempre mesmo nessa pergunta limite que é a um só tempo política e imprecisa, qualquer que seja o rigor de cientificidade por trás dela: o que dizem os dados e o que podemos dizer do que eles estão dizendo?

Podem dizer de mim: – Jampa é um recalcado. É discurso de quem perdeu as eleições.

Eu me defenderia em coerência dizendo: faz tempo, desde o longínquo início de 2011, que critico publicamente esse disfarce modernoso da retórica política do grupo protagonizado naquele momento pelo então governador Eduardo Campos.

Faz pena constatar que hoje, o Daniel Coelho a quem fiz elogio defendendo-o do jeitinho eduardista de fazer política, faz coro e campanha ao lado da “nova política”. Não compactuo nem vou compactuar com os que acreditam que política não é lugar para nenhum tipo de redenção pedagógica. Posição política não deveria ter preço de barganha eleitoral.

Não faço análise partidária aqui porque faz tempo tendo a não me alinhar com o compromisso governista com pautas que não são as minhas, e não esqueço disso, nem mesmo agora em momentos de polarização eleitoral, como esse do segundo turno das presidenciais. Vou votar em Dilma, vou fazer campanha para ela, mas sem nenhum ufanismo besta, sem nenhum fingimento: não farei como aqueles que agora precisam fazer de conta que não viram as derivas direitistas desse governo (nas questões de direitos humanos, por exemplo), ou fazer revisionismo precoce dos muitos senões de conduta autoritária quando não autista do governo Dilma (mórbidos tempos de uma Ana Buarque de Holanda à frente do ministério da cultura, se bem me lembro).  Mas retenho toda essa ênfase autocrítica e sigo minha vontade de inquirir sobre sensação minha, parcial, que interpela meu juízo sem parar: o pior ainda está por vir!

Naquele domingo do dia 05/10/2014 saí para votar com essa impressão de que a sombra do eduardismo, com toda mazela que ela representa nos termos das práticas políticas que confirmam um jeito de entender e estar no mundo de uma parcela privilegiada da população (o das elites pernambucanas), estava se firmando, com aquele processo eleitoral, como a maneira de fazer política aceita e conforme o jeito de ver e pensar o mundo da maioria da população de Pernambuco. O que chamo da sombra do eduardismo é esse algo contra o que o PT surgiu, mas para o que se curvou para se firmar como protagonista político, acatando tais práticas como fator pragmático de seu modus operandi :  a força do personalismo, das práticas clietenlistas, das trocas de favores, da compra de votos (disfarçadas ou explícitas). Toda essa gama de práticas hoje está inscrita no perfil dos agora eleitos nossos “representantes” políticos, pessoas a quem delegamos através do voto o poder para falar e fazer em nosso nome, mas que se figuram na verdade na real representação de interesses de grupos específicos (não difusos) que são mais ou menos identificáveis (os grupos) nas planilhas de prestação de contas das campanhas eleitorais de cada candidato. Que visão de sociedade e de democracia temos diante desse quadro de coisas? Que visão de política e de democracia? Quanto custa um voto e quanto custa à democracia esse jeito de votar? Conta que ainda precisa ser feita por nossa sociedade brasileira de forma mais geral, e que está longe de tocar numa reflexão mais rente sobre o limite da democracia representativa mesma, que sempre foi um misto, nos países que alcançaram fortes estágios de organização institucional, de arranjos mais ou menos mediados da delegação pelo voto e outras formas de participação coletiva das tomadas de decisão do poder.

É por não saber ao certo o que  significa o voto construído e expresso nesse jeito de produzir vitórias eleitorais o qual conhecemos, que não me arrogaria nunca em desmerecer nem o voto nem a inteligência das pessoas. Existe razões no juízo dos que venderam seus votos, como também no dos que compraram. Quem seria eu, do lugar dos meus interesses específicos, para julgar tais razões? No campo político o jogo  do poder foi jogado nas eleições, e os agentes envolvidos sabem que o jogo foi jogado por quem ganhou e perdeu, todos aceitando as regras tácitas desse jogo que julgo sujo. Ouso apenas dizer que, do ponto de vista do coletivo (se é que existe algum), ponto de vista impalpável, usado geralmente na retórica política na imprecisa e operacional nomenclatura de povo,  quase nunca é [a]creditado nas próprias regras do jogo, fazendo com que todos perdamos muito num sistema como esse, no qual práticas tão horrendas são tratadas com a naturalidade da banalidade irrefutável do “é a realidade, é assim que as coisas funcionam”.

Parece-me que o grande custo político dessa lógica, para além de uma descrença amorfa na chamada classe política, é o exercício do poder sem recurso às formas mais expressivas e talvez salutares de legitimidade política. Seria esse o momento propício para discutirmos os termos ideológicos por trás da democracia tal como a conhecemos dos anos 80 pra cá aqui no Brasil? Difícil entrar num tema tabu num momento de tão forte apelos reacionários, conservadores e de desânimo democrático…

Fico pensando no seguinte: se descrevemos uma cena real e aparentemente banal, apesar de isolada, temos alguma chance de entender um pouquinho mais o que se subentende em geral de um processo democrático quando um assunto é eleição. Então vejamos.

Numa mesa de um restaurante, por exemplo, passei um bom tempo observando e tentando ouvir dois jovens que discutiam política entre si, as razões pelas intençõees de voto em Aécio ou Dilma. O debate, no geral, girava em torno das denúncias sem fim de um lado contra o outro. Como também alguns pontos a respeito dos projetos políticos dos partidos, PT e PSDB. Eu fiquei me perguntando, bastante interessado em ter uma resposta: em que sentido aquele debate, aquela troca de argumentos – se generalizada para o resto da população brasileira votante ( mesmo se em ficção generalizante,  é certo, já que o restaurante era de classe média alta e poderia informar mais sobre aquele recorte de classe que outros) – seria capaz de produzir ao final da eleição uma sentença do tipo: “os brasileiros escolheram uma ou outro, Dilma ou Aécio”? Em outras palavras, para usar a terminologia da sociologia política, que tipo de alquimia social é necessária para transformar a construção das opiniões individuais em expressão legítima de uma vontade geral?

A pergunta me veio lado a lado com a lembrança de um texto já antigo de Pierre Bourdieu, pouco conhecido aqui no Brasil, no qual a partir de sua reflexão sociológica das práticas, ele faz análise da instituição do voto a partir de uma descrição praxiológica de seu significado ideológico. Seguindo uma distinção finíssima feita por Durkheim entre modo de produção ou de elaboração da opinião e modo de expressão dessa opinião, Bourdieu se dá os meios de, ao explicitar a relação tida como valendo por si mesma entre voto e democracia, demonstrar e, em certo sentido, desmontar, o artificio social que oculta a ligação entre entre essa relação e a filosofia liberal.

 

A visão liberal identifica o ato elementar da democracia tal como a concebemos de ordinário à ação solitária, às vezes silenciosa e secreta, de indivíduos “aproximados somente por essa circunstancia excepcional, que não se conhecem, que não contribuíram para se formar mutuamente suas opiniões”. Esse ato a um só tempo público e secreto é artificialmente instituído pela cabine de voto na qual a cortina é protetora, dissimulando os olhares, então o controle dos outros, a escolha efetuada, criada, com uma urna onde será depositada a cédula escolhida, as condições materiais da expressão invisível, incontrolável, inverificável ( é toda a diferença com o voto de mão levantada) de uma opinião dita pessoal que, por diferentes razões, podemos querer permanecer secreta. Dito de outra forma, ao fazer existir, um dia determinado, a sucessão de indivíduos “que vão uns atrás dos outros desfilar diante da urna”, e ao suspender  “por um momento”, o tempo de uma escolha, de todas as ligações sociais, entre o marido e a mulher, o pai e o filhos, o professor e o aluno, e, ao mesmo tempo, as dependências e as promessas (como verificar, mesmo no seio de um grupo de interconhecimento ou de um corpo, se tal ou qual respeitou seus engajamentos?), ele reduz os grupos a uma série destotalizada de indivíduos cuja opinião não será mais que uma agregação estatística de opiniões individuais individualmente expressas.

(Bourdieu. P. Le mystère du ministère: des vonlontés particulières à la “vonlonté general’. in: Actes de la Recherche en Sciences Sociales. Vol. 140 Dezembro 2001. p 7-11) [tradução minha, o link sobre o nome e número da revista envia para o texto original em pdf.]

 

O interessante nessa sociologia é que ela questiona ao descrever de maneira etnográfica o ato de votar aquilo que ” [n]essa lógica, que é a do voto mas também a do mercado” , faz a opinião “coletiva” ser “um produto não de uma verdadeira ação coletiva”, ou seja, a anállise mostra como o voto – caso não se tenham satisfeitas certas condições de materialização da construção realmente coletiva da opinião individual durante o processo eleitoral, processo que deveria ser capaz de gerar e produzir opiniões individuais construídas de fato no seio de uma coletividade –  seria menos fruto de um trabalho de elaboração em comum da opinião e da escolha nela engendrada, e mais efeito de ” pura agregação estatística de opiniões individuais individualmente produzidas e expressas.”

A lembrança desse texto é  também oportuna na medida em que ela se dá num quadro de quase inexistência de debate qualificado sobre a relação entre o voto que iguala as diferenças entre pessoas de pesos diferentes entre si e imensa desigualdade social instituída em nosso país. O texto de Bourdieu tem um trecho emblemático a esse respeito que, claro, se refere ao contexto francês, mas que poderia ser pensado para dar ensejo a uma reflexão mais detida sobre os nossos contexto e realidade, tamanha a precisão da análise ao descrever o que fica retido do processo formal de obliteração das relações reais de poder que ficam aparentemente suspensas no momento do voto:

Segue que a lógica do voto, que tomamos comumente como paradigmaticamente democrática, é duplamente desfavorável aos dominados: de uma parte, os agentes não possuem todos em mesmo grau os instrumentos, notoriamente o capital cultural, que são necessários para produzir uma opinião dita pessoal,  no duplo sentido de autonomia e de conforme à particularidade dos interesses anexados a uma posição particular ( o que significa que o voto só se transforma no sufrágio universal que ele se pretende quando universalizarmos as condições de acesso ao universal); de outra parte, o modo de produção atomístico e agregativo caro à visão liberal é favorável aos dominantes que, porque as estruturas da ordem social jogam em favor deles,  podem se contentar das estratégias individuais (de produção), agora que os dominados só tem alguma chance de se livrar da alternativa da demissão (através da abstenção) ou da submissão apenas sob a condição de escapar à lógica, para eles profundamente alienante, da escolha individual.

(Bourdieu. P. Le mystère du ministère: des vonlontés particulières à la “vonlonté general’. in: Actes de la Recherche en Sciences Sociales. Vol. 140 Dezembro 2001. p 7-11) [tradução minha, o link envia para o texto original que pode ser baixado em pdf.]

A morte de Eduardo Campos causou a meu ver um reforço amplificado da lógica familista e de  favorecimento de proximidade a qual os pernambucanos se submetem de bom grado,  até aqui. O efeito disso a longo prazo sobre os contornos democráticos e seus desvios específicos em Pernambuco me deixam de orelha em pé. Que possamos pensar nosso voto, então, não apenas pelo olhar liberal e tentemos imaginar nossas práticas políticas para além dos dilemas falsamente morais do ideário atomizado que artificializa os processos de construção da opinião o substituindo por uma agregação meramente estatística das expressões individuais. Deixo, para finalizar,
 três outras perguntas no sentido de pensar a substância efetiva desses problemas no nosso contexto: 1- como interpretar o significado das nossas práticas específicas de voto, essa modernização encarecida dos currais eleitorais (o chamado voto de estrutura)?; 2- qual o alcance de todas as outras maneiras menos reconhecidas(manifestações, passeatas, comícios, assembleias, etc.), mas também legítimas, de construir de forma mais coletiva a opinião para, quem sabe, ao expressá-las em público as nossas instituições possam nos dar ouvidos em outros momentos que não no período eleitoral?; 3- Seriam essas formas alternativas viáveis para efetivar uma democracia mais atenta a interesses difusos como os que encontramos em casos isolados em alguns movimentos e articulações sociais, como o exemplo do Direitos Urbanos em alguns momentos exemplifica?

Para além delas, minha certeza de que o alinhamento do PSB de Pernambuco com Aécio, razão suficiente para meu voto convicto em Dilma, representa a articulação mesma- mais direta e orgânica do que seria com qualquer governo petista, com todas as críticas que podemos e devemos fazer sempre – desse grupo político com as elites mais atrasadas e oligarquicas do estado, e a naturalização mais enfática dessas práticas nocivas ao estado democrático. Não é por acaso que todo grupo antes oposicionista (do Dem dos Mendonça ao PSDB meio sem cabeça depois da morte de Sergio Guerra, passando pelo PMBD de Jarbas…), hoje está no mesmo front, defendendo com unhas e dentes bandeiras nacionais das quais quero distância.