Meu dois centavos sobre a polêmica em torno do novo livro de Jessé Souza. (Compilação de comentários em conversas em grupos do facebook)
Começo pelo fim, ou seja, pela resposta que Jessé deu ao artigo do historiador Thiago Krause. (http://tinyurl.com/ycrux78r) Sempre vou achar desonesto um argumento circular, que não abre espaço para seu próprio erro. Nenhuma objeção seria capaz de se confrontar de maneira a demonstrar a fragilidade do argumento de Jessé porque simplesmente, na arquitetura da montagem de sua defesa, quem o critica estaria sempre exemplificando o fato de sua análise haver desvendado os mistérios do sistema de dominação brasileiro. Quem o critica estaria sempre e necessariamente a favor desse sistema. Assim fica fácil não ter opositores e pessoas que discordem de você. Apesar de me considerar do mesmo espectro ideológico de Jessé, de admirar parte de sua obra, acredito que essa postura não condiz com aquilo que uma sociologia crítica e reflexiva se dispõe a produzir. É possível, porém, supor que o contexto de polarização política o tenha levado a fazer uma leitura menos rigorosa que propriamente sociológica das interpretações históricas do Brasil. Uma leitura ruim, não apenas por ser mais política. Mas que acho o debate pode ajudar a pensar umas coisas legais e por isso a analiso.
Minha leitura mais genérica sobre a posição atual de Jessé como intelectual é a seguinte: ele vinha relativamente bem até assumir o IPEA. Vinha fazendo um movimento interessante no próprio trabalho que o tirava de uma formação estritamente teórica intensificada em doutorado feito na Alemanha, tracejando uma construção de reflexão mais empiricamente embasada, ainda que feita a partir de leitura enviesada e limitada da obra de Pierre Bourdieu. As pesquisas sobre as classes batalhadoras e a ralé, ainda que ancoradas numa sociologia da educação importada e sem amparo empírico de mediação para dar conta da realidade brasileira, tinham apelo propriamente sociológico no contexto político do lulo-petismo. Apelo crítico, diga-se de lembrança, pois Jessé foi uma das figuras que defendeu à época com razão, no debate público, que o discurso de ascensão de milhares à classe média era um engodo do ponto de vista sociológico.
Mas a sociologia não é uma disciplina imune às escolhas políticas de quem a pratica. Existia uma fragilidade do empenho sociológico de Jessé Souza desde o primeiro momento que se agrava nesse novo período: ele faz uma leitura limitada da tradição brasileira de interpretação do Brasil primeiro por não perceber com a devida ênfase a diferença entre história das ideias (a qual ele mesmo está vinculado pelo tipo de exegese que faz) e uma sociologia dos intelectuais (a qual ele tenta se vincular através de apropriação de vocabulário bourdieusiano). A falta de discernimento nítido entre essas duas tradições do pensamento deixa no ar a demanda mais trabalhosa (teórica e empiricamente) de uma sociologia dos intelectuais, infelizmente tarefa ainda para ser feita no Brasil nos termos críticos que o Jessé pensa fazer.
É a falta dessa reflexividade que agrava as limitações de Jessé no debate que ele mesmo cavou para si. O fato dele se servir de muletas teóricas importadas (notadamente uma retórica retirada da obra de Bourdieu) para dar suporte a defesa de seu repertório aparentemente crítico contido em sua reflexão política (bem menos sociológica que sua reflexão sobre batalhadores e ralé), produz um efeito de aguçar os limites de sua reflexão propriamente sociológica, que a meu entender não perde completamente a importância, apenas se expõe com mais clareza o que realmente ela é até aqui: um embrião de pensamento sociológico crítico apenas iniciado .
Há um grave problema de modus operandi a ser resolvido pelo Jessé. Toda a reflexão dele refere-se a um projeto sociológico que inicialmente estava a meio caminho de uma sociologia das classes populares (batalhadores, ralé) e uma reflexão bem menos sociológica que passa a usar como recurso sistemático as tematizações rarefeitas de uma sociologia dos intelectuais (que apesar de ser premissa de sua reflexão, nunca foi realmente feita e aparece em seus argumentos como justaposição da reflexão bourdieusiana ao contexto brasileiro). A meu entender Jessé não teria como dar continuidade ao trabalho inicialmente interessante que havia começado nos trabalhos teórico-empíricos sobre setores das classes populares sem ter que assumir, como sequência lógica de seu empenho inicial, tarefas importantes em volume e densidade analíticas no domínio da sociologia da educação e dos intelectuais, coisa que nunca nem sequer esboçou a intenção de fazer. E é justamente por isso que ele precisa recorrer a artifícios retóricos para se defender das críticas.
Acho importante aqui complementar a minha opinião sobre a pendenga com uma contextualização mínima de minha opinião. Creio que isso ajuda também a entender meu argumento. O contexto de minha leitura tem a ver com meu trabalho atual e minha crítica não seria de todo honesta sem a apresentação de minhas premissas.
Eu venho tentando desenvolver uma pesquisa sobre Antonio Candido a partir de intuições que foram gestadas em minha tese de doutorado. Minha hipótese de trabalho versa sobre algo que chamei no projeto de “controle da sociologia”, uma espécie de efeito gerado pelo peso institucional das ideias de Candido no universo de produção da chamada sociologia da literatura que, quando voltada a estudar literatura brasileira, se vê obrigada a lidar com uma hierarquia de procedimentos ligadas a meu entender aos critérios de validação consolidados por Candido na idéia de redução estrutural, uma sociologia das formas literárias. Tendo tido uma formação acadêmica (graduação e mestrado) bastante francesa, tornei-me sociológico num contexto no qual a sociologia bourdieusiana representava a expressão de algo incontornável para os de minha geração. Atento aos principais aspectos da sociologia bourdieusiana, para mim, para se obter coerência na reflexão sociológica, não seria possível lançar uma hipótese como a minha do “controle da sociologia” sem que eu pudesse minimamente referenciá-la na pesquisa empírica, por exemplo, circunscrevendo o “controle” através de análise comparativa dos tipos de trabalho tidos como “sociologia da literatura” produzidos nos departamentos de literatura e os que aparecem, aqui acolá, nos departamentos de sociologia (ou de qualquer uma das ciências sociais). É diante dessa dificuldade que me vejo hoje tendo que moldar as ambições teóricas do meu projeto por falta de ferramentas de tratamento do material empírico que pudessem honrar, nesse estágio de minha reflexão, meu intento descritivo contido na hipótese. Só para constar, não desisti de testá-la: procuro formas de extração mecânica das informações do Currículo Lattes que me possibilitem testar com a devida qualidade minha hipótese, que pode ou não se confirmar.
O que isso tem a ver com as críticas que o Jessé Souza faz a respeito de Sérgio Buarque de Holanda e a chamada “elite do atraso”?
Para explicar a relação entre o dilema metodológico de meu trabalho e o gesto crítico sociologicamente imaturo de Jessé eu gostaria de lembrar que Bourdieu foi um crítico voraz e perspicaz daquilo que chamamos de história das idéias. A ela o autor de Méditations Pascaliennes opunha sistematicamente uma sociologia materialista sensível à dimensão simbólica constitutiva do mundo social. Essa sociologia rastreia os aspectos institucionais e de internalização de valores e formas de ver e conceber o mundo (habitus acadêmico) que opera em espaços sociais dotados de significados específicos (campo acadêmico). O conhecimento por ela produzido tenta percorrer o caminho que explica como as pessoas pensam da maneira que pensam e agem da maneira que agem. Ora, a crítica construída por Bourdieu é, nesse sentido, correlata a evolução de sua própria produção que, via sociologia da educação (“Les héritiers, La Réproduction. etc.), passando por uma sociologia da cultura (La distinction), engendrou uma sociologia dos intelectuais (Hommo Academicus, La noblesse d’État). Estou simplificando aqui a partir de um esquema de evolução que não foi tão linear, mas faço isso para mostrar que a lógica que dá coerência a essa perspectiva em contexto se encontra na forma basilar de uma teoria ampla da socialização que articula o trabalho empírico em torno da sequência histórica de socialização intelectual sem a qual nenhuma crítica aos intelectuais estaria bem fundamentada nos termos da sociologia bourdieusiana. Dito isso, voltemos à situação do Jessé.
É por conta da ausência de uma sociologia substantiva dos intelectuais e suas instituições formativas que a reflexão teórica dele fica, ela também, debilitada. Para se ter uma ideia, por mais que isso possa ser uma opção, Jessé não lida nem com o melhor do uso da abordagem bourdieusiana brasileira já produzida, não faz interlocução crítica nem com Miceli (pioneiro na sociologia dos intelectuais de roupagem bourdieusiana no Brasil), nem com o pessoal do Rio de Janeiro (Afrânio Garcia e CiA). Como se faz sociologia dos intelectuais, digo, uma crítica ao Pensamento Social Brasileiro, a uma suposta tradição de leitura de Sérgio Buarque de Holanda a partir do referencial bourdieusiano no Brasil, sem sequer mencionar esses trabalhos? Enquanto você está dimensionando a pesquisa empírica (como ele estava fazendo nos trabalhos sobre a ralé e os batalhadores) essas limitações não aparecem. Quando você parte para o embate teórico sem o trabalho empírico que corresponda sua ambição teórica, essas fragilidades são expostas.
Na minha opinião o limite é tão mais sociológico quanto mais a opção passa por uma suposição política: Jessé antecipa em ansiedade uma hipótese que está hipostasiada por uma sociologia ainda por ser feita (a sociologia dos intelectuais brasileiros) para defender seu propósito polêmico, bem mais pautado pelo cenário político do que pela sociologia. Em outras palavras: sem sair da história das ideias na qual ele também está preso, em sobrevoo, Jessé faz uma crítica por via “hermenêutica” a algo que só poderia ser caracterizado, nos termos da teoria sociológica a qual ele se fia, através de uma sociologia robusta dos intelectuais e das instituições que os formaram. Como lembrado por Cesar Melo, mesmo se levado em conta apenas o registro específico da história das idéias, há problemas importantes a serem destacados por conta da radicalidade da hipótese defendida. Diante de tese tão forte, espera-se mais do que uma generalização efetuada em cima de análise que versa sobre aspecto bastante específico de Raízes do Brasil. Análise efetuada sem que haja a identificação dos mecanismos específicos pelos quais as ideias de patrimonialismo e populismo se consolidaram como hegemônicas dentro de um quadro universitário e intelectual bastante complexo e volumoso como é o brasileiro. Pode-se perguntar, por exemplo, contra a generalização feita por Jessé, em quais das interpretações especificamente, já que a obra de Sérgio Buarque tem sido analisada e decifrada de maneira conflituosa e diversa no seio da tradição de pensamento a qual ela está filiada.
O principal erro sociológico de Jessé é, nesse sentido, que ele se baseia numa sociologia dos intelectuais já feita (na França?) para inferir e se referir à “tradição inteira” de pensamento social no Brasil. O que quer dizer do ponto de vista sociológico a frase “o programa político do PSDB é todo retirado de Raízes do Brasil”? Ou ainda “Sérgio Buarque foi um dos fundadores do PT, fez todo mundo de imbecil, da direita à esquerda”? Que análise de obra ou institucional dá respaldo a uma frase de efeito como a que diz: “Há uma tradição inteira, 99 de 100 intelectuais até hoje professam esse tipo de coisa.”? (ver entrevista de Jessé: https://revistacult.uol.com.br/home/jesse-souza-a-elite-do-atraso/). É natural que diante de frases como essas se façam as perguntas cabíveis: cadê a análise do programa do PSDB?A do programa do PT? Não seria preciso verificar a maneira que se apresenta a coerência de certas ideias de Sérgio Buarque contidas no Raízes do Brasil na forma em que estariam presentes no estatuto de fundação desses partidos e compará-las às contidas nos programas de governo de FHC, Lula, e nos de Dilma, para que hipótese tão contundente fizesse algum sentido? Não seria esse o mínimo de trabalho sociológico necessário para caracterizar os termos daquilo que Jessé defende?