Entre UR-6 e Cambridge: cultura, juventude e o retorno do recalcado em Adolescência

Adolescência e os usos da cultura: ecos de Richard Hoggart no streaming contemporâneo

Ao assistir à série britânica Adolescência (The Gathering), disponível na Netflix, me vi imediatamente transportado a uma memória pessoal. Em 1999, saindo da UR-6, periferia do Recife, viajei para a Inglaterra e fui morar por um tempo em Cambridge. Foi lá que li, pela primeira vez, The Uses of Literacy, de Richard Hoggart. Eu ainda estudava para me tornar sociólogo — e hoje, mais recentemente, sou também psicanalista. Desde aquela leitura, aprendi que nem sempre a cultura age “de fora para dentro”: muitas vezes, ela se entranha, se encarna, se mistura à subjetividade dos mais vulneráveis. Rever isso hoje, através da série, me fez reencontrar esse ponto de torção entre cultura, sofrimento e estrutura social.

Adolescência narra o assassinato de Katie Leonard, uma jovem adolescente, por outro adolescente, Jamie Miller, preso já na primeira cena da série. A produção não é apenas uma narrativa policial ou psicológica: é uma investigação formal e ética sobre as formas pelas quais a cultura digital, os vínculos familiares e as fragilidades sociais se condensam em atos irreversíveis. O espectador não é colocado diante de um mistério clássico. Em vez disso, ele acompanha, quase em tempo real, o desenrolar da acusação e a reação das pessoas envolvidas — num esquema narrativo onde os episódios funcionam como planos-sequência, sem cortes visíveis, mergulhando o público no fluxo dos acontecimentos.

No primeiro episódio, uma conversa entre os detetives Luke Bascombe (Ashley Walters) e Misha Frank (Faye Marsay) já antecipa um dos eixos centrais da série: o gênero. Misha, mulher e investigadora, se incomoda com a atenção desproporcional dada ao garoto acusado e insiste que não se pode esquecer da vítima. O roteiro, no entanto, não acomoda a crítica num discurso pronto: ao contrário, segue em sua complexidade. A crítica de Misha permanece como ferida aberta, atravessando os episódios sem ser resolvida — como ocorre também na vida real.

É apenas no terceiro episódio que uma cena de tirar o fôlego desloca o centro narrativo: a psicóloga social Briony Ariston (Erin Doherty) conduz uma sessão com Jamie. Ali, não há julgamento. Há escuta. E nessa escuta, emerge a sombra daquilo que se naturaliza nas franjas da cultura digital: misoginia, ressentimento, abandono afetivo, vulnerabilidade social. A cena não busca explicações fáceis. Mas aponta para a confluência entre estrutura psíquica e estrutura social — algo que Hoggart já articulava, de modo seminal, em sua crítica à cultura de massa e à forma como ela reconfigura o mundo interior dos sujeitos.

Em The Uses of Literacy, Hoggart afirmava que a cultura não deve ser lida apenas como conteúdo, mas como forma de vida. E que a chamada “cultura popular” não é um conjunto de falhas ou carências — é uma resposta, por vezes trágica, às condições materiais e simbólicas em que os sujeitos vivem. A série, à sua maneira, recupera esse gesto: ela não reduz o comportamento dos adolescentes às redes sociais, nem os apresenta como vítimas passivas da tecnologia. Ela mostra como essas redes, fóruns, discursos e códigos entram no mundo interno — mas sempre em tensão com o que já estava lá: classe, gênero, família, desejo, medo, ressentimento.

Ver Adolescência depois de ter sido tocado por Hoggart é perceber que aquela sensibilidade crítica permanece urgente. Que os “usos da cultura” hoje envolvem algoritmos, masculinidades tóxicas, fóruns de incels e performatividades digitais — mas que, em seu núcleo, a questão permanece: como os sujeitos vivem, sentem e resistem diante das formas simbólicas que os atravessam?

Talvez por isso o conceito freudiano do “retorno do recalcado” tenha, para mim, encontrado aqui sua dobra perfeita. Adolescência escuta o que costuma ser silenciado: a dor que não vira discurso, os afetos que atravessam as redes, os modos de vida que insistem mesmo quando tudo parece conspirar contra. O que Hoggart me ensinou — e o que a série reafirma — é que a cultura vive dentro da gente. E que escutar isso, mesmo quando dói, é uma forma de não esquecer de onde a gente veio, nem do que ainda precisa ser dito.

Por uma psicanálise da narrativa do golpe (25/08/2017)

Comentei no post de Leonardo Cisneiros sobre o assunto algo que me interessa bastante do ponto de vista sociológico, mais até do que o jogo político eleitoral mesmo. Tenho realmente curiosidade em entender como é a psicologia por trás da chamada “narrativa do golpe”, como ela funciona para quem a defende ou, como no meu caso, sentiu-se, não raras as vezes, mesmo sem querer, impelido a evocá-la. De que forma ela opera como mecanismo explicativo dos fatos políticos para uma parte significativa dos que se colocam no espectro político de esquerda? Acho que esse é um debate paralelo ao dos possíveis efeitos da inconstitucionalidade do Impeachment de Dilma. São dois fenômenos que apesar de relacionados não precisam ficar no mesmo plano analítico. Trato só do primeiro aqui.

Minha hipótese é a seguinte: as dinâmicas do jogo político no regime de coalizão fizeram com que as lógicas de diferenciação partidária pelo viés ideológico tenham sido alçadas (no nível da percepção) a uma existência para-real, quase de feitio literário, espécie de ornamento discursivo sem referencialidade substantiva no mundo, o que ajudou a impulsionar um descrédito generalizado das práticas dos políticos quando se movimentam para ganhar a sobrevida no que sabem fazer do jeito que sempre fizeram. Esse fenômeno se acentua e se potencializa ao paroxismo sob os efeitos da operação Lava-Jato.A pergunta que me faço é: e nós, cá aqui dentro, o que temos a ver com isso?

A narrativa do golpe é contrafactual na medida em que, enquanto narrativa mítico-revisionista, com mais afinco e sucesso do que outras, ela visa de maneira forçada, porque não assentada no jogo real das movimentações políticas reais, a reagrupar as chamadas esquerdas a partir do farelo deixado pela hegemonia lulopetista. A dificuldade em tratar o “golpe” de outra forma que não nos termos dicotômicos (uma dicotomia que só existe operada na e pela narrativa, diga-se) aparece toda vez que há evidência de que o jogo está sendo jogado da mesma forma por jogadores que apenas fingem disputar espaços de poder no esquema binário nos referidos termos discursivos que os situa na disputa entre moços e bandidos, “golpeadores e golpeados”.

O problema é que a pergunta “política” que aparece sempre, no entanto, para quem defende esta narrativa tal como aventada nas hostes partidárias petistas, por exemplo, é sempre pragmática nos termos do próprio jogo que nivela a todos na mesma prática: quem colocaremos no lugar de Lula? É por isso que a narrativa parece não corresponder a realidade criada pela própria narrativa: os atores não param de jogar o jogo em seus próprios termos e o último recurso político para “salvar o sistema político”da polícia, ou melhor, dos efeitos da Lava-Jato, (Lula, nesse sentido, tem sido exemplar: defendeu Aécio, Temer, os empresários todos) é também um discurso que tende a reformular a realidade sem tocá-la, porque quer justamente salvá-la sem destruir quem fazia parte do sistema.

Aqui faço um parênteses importante: no que digo não há julgamento de valor. Acho que é próprio de um sistema ameaçado tentar encontrar os meios de sua sobrevivência. Nesse ponto as meias verdades de lado a outro do espectro político funcionam como alimento das falas dos políticos que do PSDB ao DEM, passando pelo PSB, PT, PMDB, etc. estão no salvem-se quem puder gerado como reação da Lava-Jato. Percebam que isso não quer dizer que não haja jogo político e viés na própria operação. Que não haja lados no fator que desestabilizou o sistema. Há sim e percebo para que lado ele pende. Meu ponto, contudo, é sobre a disjunção criada entre narrativa e a realidade na qual se assenta a trama discursiva do golpe, que se nutre dos ad docs infinitos do cotidiano político para organizar sem expor em definitivo a gangrena que o sistema político produz para funcionar tal qual vem funcionando. A pergunta sobre como opera a narrativa do golpe vem exatamente desse nó.Para a esquerda ela se traduz no dilema gerado por uma possível responsabilidade parcial ou plena de Lula pelo estado de coisas atuais: caberia um “salvador” que teria sido ao mesmo tempo “causador” de grande parte das mazelas das quais ele chega para nos “salvar”?

É assim que a idéia de “golpe” aparece como mediação-borracha que apaga as informações mais difíceis de serem digeridas. Há muito de psicanálise a ser feita: o que faremos daquilo que foi maior projeto de esquerda do Brasil e se tornou hoje uma espécie de monstro engolidor dos sonhos que ajudou a criar?

Não há respostas fáceis. Imagino que a tal “retórica do golpe” só faça sentido num momento coletivo de profunda sensação de impotência na qual toda uma geração de militantes e simpatizantes das causas de esquerda se encontra. E diante de tamanha sensação de impotência, as pessoas formadas pelo suco de cultura que aquele projeto produziu, preferem sentir esse nada reativo chamado “golpe” a nada sentir. Nietzsche é ainda um excelente psicólogo nesse sentido da análise do comportamento humano diante da dissolução da vontade de potência. Não me impressiona que a narrativa do golpe opere por conta disso: queremos nos salvar diante de um mal que ajudamos a criar. Para que isso ocorra é preciso projetar o mal em algo ou alguém.

Para as cúpulas partidárias o discurso é útil porque “livra” dos erros cometidos e cria rivais de artifício e ou conveniência (PSDB, PMDB: os golpistas de plantão). Para militância isso atenua as culpas vexatórias deixadas pela leniência de ter deixado as coisas acontecerem dessa forma, mesmo que, penso eu, tenham ocorrido em parte sem ninguém de fato saber de tudo. Mas como numa tragédia grega, o inconsciente culpado não funciona pela lógica racional, e o que importa é a sobrevivência psíquica: ou por acaso Édipo deixou de furar os próprios olhos porque ignorava que Jocasta era sua mãe? Camus dizia que para os gregos não saber já era um crime gravíssimo. A culpa não provinha de uma consciência, era decorrente porém da consequência refratada e difusa de seus efeitos. Parafraseando Lula eu diria o seguinte: eu também não sabia. Mas fica, como respingo incômodo de militante que defendeu o projeto como um todo, um famoso jeito popular de ironia: não sabia, mas e daí?

O problema maior talvez para essa massa de gente de formação e sensibilidade de esquerda na qual me incluo é o de entender que o jogo continua sendo jogado independente do que as verdades fatuais digam a respeito de quem está jogando. E aí é vem o bom e velho: o que fazer? O golpe enquanto narrativa é um nome dado ao revés produzido pela dinâmica do jogo político real, na minha opinião. A mesma dinâmica que produz desânimo e apatia. E diante do sentimento de impotência, que é o meu, eu me pergunto extendendo a questão aos que se sentem também assim: seremos todos reféns do que conseguimos ser até aqui?

Acho que quando Jampa fala da “retórica do golpe” não tá falando do plano fático do que de fato aconteceu no Brasil em 2016, mas do plano dos discursos e sua interação com a prática. Tem uma coisinha lá da filosofia que é que um critério pra saber se um sujeito realmente possui uma crença é ver se ele age de forma consistente com ela. E parece haver um claro descompasso entre uma “retórica do golpe” e as atitudes de quem a usa. Não tem a menor lógica no planeta acionar o discurso de uma ruptura radical da normalidade democrática, de dizer que estamos em um estado de exceção, que estamos numa ditadura, e agir como Lula e os seus vêm agindo: se encontrando com os golpistas, adotando certas posturas no congresso etc. Há uma contradição performática patente. Isso não quer dizer que não se possa reconhecer o impeachment como golpe. O problema é que a adoção descaradamente teatral desse discurso pelo PT tem o desgastado. O PT se coloca como vítima privilegiada desse golpe, mas eu acho que o golpe foi no pacto fundador da Constituição de 1988 e o PT entregou o quanto pôde anéis, colares, tiaras e brincos e acabou degolado.

Leonardo Cisneiros

Rosário Sá Barreto: educadora. (texto escrito em 29/09/2017)

Nenhuma outra pessoa foi tão importante em minha formação intelectual e humana quanto Maria Rosário Sá Barreto. Não por acaso nos agradecimentos de minha tese de doutorado ela aparece na sequência de meus pais: o tipo de impacto produzido por ela em minha vida foi da ordem do incomensurável.

Sinto por ela em igual medida o mesmo tipo de gratidão que tenho pela minha família.Garoto de subúrbio com problemas de adaptação em colégio de classe média recifense, via a mim mesmo e era visto por muitos professores, como alguém limitado intelectualmente, com forte inclinação ao fracasso escolar porque pouco afeito às atividades da inteligência. Anos noventa corriam soltos e o ambiente escolar da sala de aula me parecia insuportável. Tudo confirmava esse prognóstico de minhas limitações. Tudo não, quase tudo.

Lembro como se fosse hoje do exercício de produção de texto que Rosário fez em sala de aula depois de um debate em torno da letra da música Que país é esse?, da Legião Urbana. Eu estava morrendo de vergonha de minha escrita de mil erros. Esperei a correção de meu texto por ela como tudo o mais que eu esperava da escola: na certeza previsível do meu próprio fracasso. Rosário sentou ao meu lado, colocou o papel pautado com aquela caligrafia que mais parecia hieróglifos na minha banca, e disse com a mão sobre meu braço: ” não tenha medo de suas ideias, esse aqui é seu texto. Você é muito inteligente. Suas ideias estão aí. Se treinamos um pouco você vai expressar e organizar melhor o que tanto tem aí dentro. Textos servem para isso também: ajudar a gente a expressar as coisas que estão dentro da cabeça da gente. Confie em você. Eu confio.”

Eu poderia tentar descrever a dimensão disso para o resto da minha vida como um todo. Mas imagino que seria vã a tentativa. Todo o resto de mim se confunde com o que sou a partir daquele momento banal da vocação pedagógica dela. Não consigo nem imaginar quantas vezes ela fez isso e de quantas formas diferentes com tantas e tantas pessoas.Reconheço que as palavras nesses momentos talvez sejam realmente o anúncio do desentendimento entre o sentido que as coisas têm para gente e o que elas realmente significam no mundo. Mas insisto um pouco mais, porque foi isso, no fundo, o que aprendi com ela.

Não consigo ser quem sou sem o reconhecimento da importância dela para mim. Sinto-me felizmente uma pessoa melhor por ter conseguido, naquela aula, acreditar nesta mulher excepcional de plenitude humana e vocação pedagógica inabalável. E felicidade é dimensionar a dor e a delícia de ser quem se é. Obrigado Rô, por tudo. Desejo toda paz e serenidade à família.

Cosme e Damião contra as fakenews.

Hoje é dia de São Cosme e Damião. Uma festa que conheço como católica, mas praticada por gente negra de religião afro-brasileira. Nas lembranças do Facebook hoje, tinha essa recordação da querida Pimenta Débora Rúbia Full sobre a comemoração de “CoRme e Damião” lá em nossa rua. É muita riqueza de vida que temos no Brasil. Uma criança, lá na UR-6, um bairro esquecido na fronteira do Recife com Joboatão dos Guararapes, tem na vizinhança próxima um homem negro que fazia do quintal de sua casa um terreno sagrado, um terreiro no qual a relação com suas crenças e ancestrais se manifestavam. Senhor Rinaldo, quanta alegria e riqueza poder ter crescido naquela sua vizinhança!

Ele estava sempre vestido de branco e minha avó, católica, vez por outra dizia para ficarmos longe da casa dele porque ele fazia coisas com o diabo. Depois de crescer sempre fiquei achando incrível como o medo dela daquilo era fruto de uma “crença compartilhada”: ninguém teria tanto medo de algo que no fundo não acreditasse. Apesar de serem muitas as pessoas adultas como minha avó, nós as crianças não acreditávamos muito nessa suposta relação de Seu Rinaldo com o demo não. Todos os dias 27 de Setembro ele fazia pacotinhos com bombons e dava a todas as crianças da rua para celebrar a festa de Cosme e Damião. Era uma alegria só! Como alguém que fazia isso só pela alegria de fazer teria algo com o demônio? Não tinha. Seu Rinaldo sempre tratava a todos com muito carinho e respeito.

Ali, ainda pequeno, tive minha primeira aula contra as fake news: não é bom acreditar sempre no que ouvimos, nem das pessoas que mais amamos e confiamos. Isso porque a mentira não é apenas a franqueza de canalhas se comunicando com o mundo, isso ela é também. Mas às vezes mentir é o resquício de maldade incorporada por pessoas comuns, depois de um empenho que veio de cima para baixo, das estruturas maiores de poder. A gente sabe disso, mas esquece. E esquecendo, ficamos a brigar contra quem, como nós, está na parte mais frágil de uma disputa injusta: uma senhora negra e pobre que via num senhor negro e pobre um mal inexistente. Quantos de nós, em nome da defesa dos de cima, estamos lutando contra falsos inimigos, contra gente comum como minha avó?

Salve Ibeji! Salve Cosme e Damião!

Um agradecimento (texto escrito diretamente no facebook, em 29 de junho de 2015)

É amor que chama, né?
Amor imenso entre dois homens… e isso não se tinha antes, não se dizia. O medo da homossexualidade nos proibia. “Macho que é macho…” dizíamos, sem saber o que de fato perdíamos. “Homens não sabem cuidar, não têm o traquejo.” E nos abstínhamos justamente do tipo de contato fomentador da encantadora sensação de proximidade. Amor entre homens—qual o problema? Dúvidas sobre a masculinidade? Seria isso mesmo o problema? Nossas relações, entre homens, pensávamos, só seriam “normais” se o amor fosse reduzido à ausência do toque, dos carinhos. Medo, de novo.

Numa sociedade maculada pelo machismo, toda a educação é pautada por uma acentuada marcação de gênero. Menina pode isso e aquilo, não pode o resto. Brincos em recém-nascidas. Rosa. Boneca. Meninos: tudo azul ou verde, não vá errar. Cabelos curtos—”imaginem se confundirem?” Tudo em função de um receio não explicitado, mas constantemente imposto de maneira violenta e perspicaz. No adulto, a ideia ainda moderna, mas sempre machista, informa que o homem “pode ajudar”, mas que “essas coisas são função das mães mesmo.” Naturalmente, lógico. Podemos, aqui e ali, trocar uma fraldinha, mas sem com isso tocar na estrutura que nos deforma em nosso jeito de amar.

E depois—depois mesmo de uma vida inteira ouvindo e repetindo esses atos, esses gestos, essas negações da função do cuidado por nós, homens—fica de fato difícil sabermos de onde vem tanto preconceito dentro de nós, porque, de tanto repetir, transformamos esse medo irrefletido em segunda natureza.

Mas se a vida da gente fosse só reprodução do mesmo, não teria tanta graça. Fazemo-nos com e contra tudo que somos, com e contra os valores e limites de nossos pais. E se rompemos, aqui e acolá, uma lógica, se conseguimos encontrar verdade e beleza no colorido do arco-íris, sem receio do significado do amor ali exposto depois de tanta socialização redutora—sim, o amor homossexual é lindo, seja ele erótico ou não—sim, se consigo amar meu filho com mais toque, cuidado, carinho e menos medo disso, é porque, de fato, o mundo hétero (homens e mulheres que se veem como tais) pode aprender muito com o que ainda desconhece.

Agradeço por tudo isso a todos os amigos e amigas homossexuais. Sem vocês e sem o que aprendi sobre a pequenez de meu mundo, sem vocês—gays, lésbicas e travestis—que pude encontrar em minha vida, sem o amor que sinto por vocês, não saberia amar meus filhos como os amo. E sem isso, o mundo inteiro seria bem pior.

Daí minha alegria com o simbolismo de nossa vitória. Obrigado. Mesmo.

Foto: Lenina Mesquita

Foto: Lenina Mesquita

Escreva pro seu menino

Esse texto é uma adaptação aumentada do que escrevi em comentário ainda quando não sabia como seria a sequência do grupo. Achei a ideia de conversar sobre o assunto incrível e uma oportunidade para rever certas coisas.

Daniel, primeiro obrigado novamente pelo convite em participar do grupo. Segundo, mas ainda assim primeiramente, fora Temer.

Vou tentar dizer o que me veio à cabeça ao ler o seu texto, me refiro ao do lançamento da proposta, não ao do depoimento, que só vi depois. Faço em tom de auto-análise que é o que imagino fazer sentido aqui. Eu acho que tem algumas premissas sobre essa conversa imaginária que precisaríamos acertar. A ideia pressupõe um acerto de contas consigo mesmo. Os depoimentos até aqui, como já bem descreveu Bernardo Jurema e, em outro tom Eduardo Amorim, mostram como há um pano de fundo cultural que, apesar de nossas diferenças individuais, de experiências sensíveis e singulares, estamos de certa forma unidos numa relação tênue de recusa e aceitação de nossa própria cultura de base machista e patriarcal. Sem conhecer, me vi no sensível e forte depoimento do Lucas Franco. No de Manoel Antônio, quanta coisa para pensar…

Digo isso pensando que quer queiramos ou não tornamo-nos os homens que somos, nos limites e falhas, acertos e erros, no preenchimento concreto de nossas experiências e também nos silêncios (às vezes necessários, diga-se) que nos fizeram ser o que somos até aqui. Aos 11 anos eu morava num dos subúrbios mais violentos do Recife à época e, sinceramente, foi justamente por não ter conseguido ser o que eu gostaria de ser ali naquele momento, por ter fracassado no que eu pude dizer a mim mesmo naquela situação e não em outra, é por conta daquele menino franzino e frágil que hoje tenho outros tipos de silêncios que me calam diante de meus filhos. Explico depois do parênteses.

(Noto que em quase todos os depoimentos até aqui apareceu essa impressão de fragilidade. E me faço uma pergunta em voz alta: será que numa cultura machista como a nossa algum garoto consegue preencher os padrões e se sentir forte, totalmente seguro no ideal de masculinidade que a ele se apresenta como ideal de si? E não seria a impossibilidade disso acontecer o nosso trunfo, quase a condição e a razão de ser dessa conversa? No caso afirmativo, pensemos nos que não estão aqui. Não aqueles que ainda não estão porque ainda não foram chamados por algum tipo de esquecimento. Mas nos que dificilmente gostariam de ter um papo como esse aqui. Os casos nos quais julgaríamos ser mais difícil a nossa conversa, amigos que vivem bem e são ou aparentam ser felizes dentro do modelo o qual não nos encaixamos, como nossos depoimentos deixam antever. Os que, ao nosso modo de ver, aderiram de maneira menos conflituosa à cultura machista e que, por ter sido assim incorporada, sem conflitos maiores ou rupturas, tornaria mais difícil uma conversa como essa, porque para aqueles indivíduos a adequação aos valores do modelo corresponde ao que são, é isso que a sociologia mostra quando analisa socializações produzidas sem fraturas, produzindo assim uma dificuldade maior de separar a percepção de um mundo vivido como verdade -ser homem é isso e aquilo – com a verdade do mundo como um todo, não dá para ser homem de outro jeito. Penso na força que toda quebra por fragilidade não acomoda na política da gente com a gente mesmo. E melhor do que isso, penso no como no melhor da vida, defeito feito qualidade, no como reinterpretar o caminho da fraqueza inicial é mote para tantas outras conversas maravilhosas que estão por vir.)

Como vocês, fui um menino bem amado e cuidado. Quase mimado por ser primogênito, fato deveras esquecido, mas que é de profunda relevância na construção de uma masculinidade em terras patriarcais. Vivi minha infância e adolescência me dividindo entre o bairro violento onde morava(Ur-6/ Ibura) e a escola de classe média no centro da cidade (Colégio Marista). A escola, lugar incrível de aprendizado de tantas coisas importantes dentro e fora de sala de aula, foi também o lugar onde fui mais exposto a situações de consumismo, que sempre achei menos violenta para os meninos do que para as meninas, diga-se. Lugar no qual senti pela primeira vez uma vergonha enorme de ser pobre num bairro violento de Recife e que quis, mais talvez do que por conta de minha impressão de fragilidade com os outros meninos, ser diferente do que eu era. No meu bairro, os meninos mais viris e fortes, mais masculinos em certo sentido, foram morrendo (assassinados) antes de completar os 18 anos, porque eram suas qualidades que eram recrutadas para trabalho do tráfico de drogas. Isso cala sobre o tipo de virilidade e masculinidade que tenho até hoje. Na verdade eu quis muito profundamente ser como eles eram, fazer o que eles faziam, inclusive roubar e traficar. Não pude. Isso foi vivido como fracasso e mesmo hoje tenho uma percepção ambígua e difícil sobre o que é vencer. A ideia de que alguns fracassos salvam a gente é muito forte para mim, como também a de que uma estratégia de vida importante é a de o tempo inteiro ficar atento para como transformar defeitos em qualidades.

Acho difícil pensar no que conversaria comigo mesmo com aquela idade. Penso o tempo inteiro nas razões pelas quais tive destino diferente daqueles outros meninos. Isso é central na minha vida, e é silenciado na minha experiência de pai. Outro dia, numa ação conjunta do Direitos Urbanos no Coque, que nem é o bairro onde morei, levei meus filhos lá e vi Anna, minha filha mais velha, que tava com 9 anos, interagir com as crianças de lá e brincar no parquinho sujo e cheio de lama. Um choro incontrolável veio. Saí de perto, não queria que ela perguntasse os porquês daquele choro. Acho que não saberia responder. Acho que me tornei um homem que aprendi a chorar certas coisas e outras não. Mas aprendi que nem as coisas que aprendi a chorar, as devo chorar na frente de todo mundo. Na frente de meus filhos é tabu.

***

Nesse momento de evidência do feminismo, de uma certa agitação em relação às questões de políticas identitárias, sobretudo as que se articulam em torno da idéia de protagonismo (quem deve falar onde e como), eu fico pensando em como fazer para pensar minha masculinidade tal como é, considerando o jeito que ela foi construída, sem precisar necessariamente negar o que ela significa pela normatividade retroativa do presente. Vejo parte do feminismo embarcar nessa de se é homem “cale a boca” e lembro do quanto isso pode ser nocivo para a vida social de forma mais ampla. Na minha opinião homens se posicionar não deve ser nunca entendido como necessariamente negação de protagonismo das mulheres. Acho que é importante, necessário que se acuse o nosso machismo, que vem inclusive dessa experiência de socialização a qual estamos nos referindo nesses depoimentos, mas, na minha opinião, é importante afirmar justamente que há uma complexidade na construção da masculinidade apesar e por conta do machismo. Não se vence o machismo sem entende-lo, sem conversar sobre com quem está dentro dele.

Acho que há vida para além do machismo no machismo, é preciso fazer do defeito qualidade. E acho que foi assim que vivi o meu até aqui. Não acho que sou exemplo. Só acho que vivi o meu junto às mulheres que amei. Vivo o meu machismo e a luta contra ele junto aos meus filhos às mulheres que amei e amo. Não sei como fazer diferente disso. Acho que uma parte desse entendimento, dessa maneira de entender que nem tudo se resolve na prescrição e normatividade, acho que isso tem se perdido na maneira que discutimos esses assuntos. Por isso acho que quanto mais mistura, de homens e mulheres que gostariam de conversar sobre o assunto, melhor. Não aprendi nada sobre o meu machismo ficando apenas entre os machistas com quem convivi. Então, de minha experiência, é na mistura mesmo que a masculinidade pode virar outra coisa que uma representação esteriotipada de si mesma. Espero que o grupo ganhe em comentários e depoimentos. Abraços, Dani. Parabéns mais uma vez pela iniciativa.

Pausa no trabalho (de sociologia): uma pequena reflexão sobre o mesmo. (Texto escrito no facebook, 11/06/2017).

Cada dia fico mais convencido de uma coisa em relação ao meu trabalho: ou se faz uma sociologia baseada em premissas racionais rigorosas que exigem empenho no trabalho empírico, ou ficaremos cada vez mais afundados no pitoresco exercício da reflexão em segundo grau. Ou seja, ficaremos presos a essa eterna e circular interpretação de lugares comuns livrescos.

Digo mais. As chances de algo realmente interessante surgir desse bojo de leitores de sociologia alheia, ou seja, as chances de algo desse tipo de conhecimento informar e ensinar sobre as lógicas de funcionamento do social específico que se quer analisado e estudado são muito pequenas. Elas são sempre inversamente proporcionais a nossa capacidade de contrariar a força contida na crença partilhada nos termos dessa forma de tratar a sociologia como sendo apenas um exercício de acumulação de cultura sociológica.

O que temos de melhor na nossa produção sociológica é muitas vezes produzido em trabalhos que surgem como exemplos fora da curva da formação institucional. Isso ocorre em parte porque somos formados para ser bons leitores de sociologia já feita, e pouco, e raramente, para sermos bons sociólogos. Ou se muda algo desse quadro ou é isso mesmo o destino do que se diz sob a alcunha da ciência social: o resultado vai ser sempre a irrelevância do que dizemos sobre nós mesmos e sobre os outros. Ser irrelevante por conta da própria natureza do que nossa inteligência consegue produzir é de uma tristeza apavorante.

Comentário sobre O Rei do outro polo, escrito no facebook, 8/03/2015

Lendo o interessantíssimo artigo “O Rei do Outro Polo: Paulo Coelho na Literatura Brasileira”, deparo-me com a certeza de que aceitar os lugares comuns construídos dentro do próprio mundo acadêmico é sempre uma perda do ponto de vista da produção de conhecimento, ao menos para a sociologia. Fernando Antonio Pinheiro Filho fez trabalho cuidadoso buscando entender (antes de julgar e prejulgar pelo senso comum acadêmico) como o fenômeno Paulo Coelho se tornou possível.

O resultado é uma análise contra-intuitiva, que se aventura na ousadia da análise crítica dos textos, atentando para a complexidade de variáveis que atuam no fenômeno editorial no Brasil e no mundo. É claro que o horizonte de uma certa crítica vai continuar vociferando que em Paulo Coelho existe “menos literatura que numa lista telefônica”, como já vi escrito por aí. Mas sem esse foco de suspensão temporária do julgamento que a sociologia produz, seria impossível, fora do preconceito, entender o tipo de trabalho e o valor nele construído para milhares de pessoas que se deleitaram e apreciam a leitura da obra de Coelho. Deixo uma palhinha aqui com vocês, no mesmo espírito iniciático do Mago:

“Como se Coelho construísse a dificuldade de transitar por temas abstrusos para em seguida resolvê-la usando a simplicidade como antídoto. Se os meandros da urdidura dos segredos esotéricos estão reservados ao especialista, sua resolução prática está à disposição de todos. Nesse sentido ele atua diante do leitor como o mediador entre o esotérico e exotérico […]. Mas seu papel só é eficaz pelo uso da linguagem, que, evitando qualquer sofisticação e mesmo obstinando-se na reprodução do lugar comum, elide a distância social entre autor e leitor. Foram apagadas – o que é ainda mais decisivo- as separações sociais que atuam na possibilidade diferencial de retenção do “tempo dos sonhos”. […] Tudo somado, abre-se para o leitor o mergulho em uma leitura de evasão, que dá a seu sujeito a possibilidade de controle, pouco importa se ilusório, do tempo da vida – desta vida, detalhe que ao menos no plano simbólico reconverte a evasão em direção a seu ponto de origem (“evasão para o mundo”, conforme a expressão de Sérgio Buarque de Holanda ao comentar a poesia de Manuel Bandeira), à forma de vida presente que se quer superar.”

Sociologia da literatura como exercício fino de se colocar, em pensamento, no lugar do outro. De volta ao mundo nerd da sociologia! Iupi!

Pierre Bourdieu: a didática reflexiva de uma disciplina (texto escrito no facebook, 13/08/ 2017)

Tive os primeiros contatos com os trabalhos de Pierre Bourdieu no final da década de noventa. Fazer a graduação em sociologia na França nesse período deixou marcas indeléveis na minha maneira de conceber o ofício da pesquisa. Já nas primeiras leituras tive a seguinte impressão: da crítica dele ao “pensamento escolástico” deriva necessariamente uma uma série importante de questões pedagógicas que em algum momento, por coerência lógica, deve se colocar como desafio para os pesquisadores que levam a sério as premissas da crítica sociológica por ele assentada. Pois bem. Acredito profundamente que a crítica sociológica ao intelectualismo empreendida por Bourdieu não deveria ser lida como um libelo anti-intelectual. E, mais do que isso, vejo na crítica tal como elaborada, um esforço de defesa das prerrogativas propriamente intelectuais da produção do conhecimento, um reforço da defesa dos valores de sua feitura, uma vez conhecidos alcances e limites de seus critérios de reconhecimento e validação. Como traduzir isso em condução das aulas?

Foi para lidar com as consequências desse entendimento mais amplo da obra do sociólogo francês, hoje amadurecido pelas experiências de vida e pesquisa as quais me formaram daquele tempo para cá, que ministrei em 2015 uma disciplina de sociologia da literatura. Não satisfeito com os resultados obtidos naquela primeira investida, submeto a disciplina ao exercício de “correção paciente” na qual identifico o prazeroso mérito do meu esforço de traduzir em aula aquilo que uma crítica sociológica havia formulado nos termos de uma análise do social.

Em 2015 havia feito um blog que foi uma espécie de ferramenta da disciplina em construção. O que implicava dizer que ele se modifica a cada aula, e que está sempre sendo modificado em função da dinâmica mesma da disciplina. Agora, em 2017, atualizo a proposta. Dito isso, partilho aqui o site de forma um pouco mais ampla, marcando algumas pessoas que sei direta ou indiretamente se interessam pela obra de Bourdieu, para quem sabe gerar alguma conversa sobre formas de ensinar a sociologia seja da literatura ou outra. Ou apenas conversar sobre maneiras estimular os estudantes a tomarem gosto pela pesquisa empírica, lugar de encontro cioso e tenso dos instrumentos da razão com o mundo sempre arredio. Eis o blog.

Texto sobre Jessé Souza e polêmica sobre Sérgio Buarque de Holanda (texto escrito em um grupo privado no facebook, em resposta a um debate sobre a obra de Jessé Souza).

Meu dois centavos sobre a polêmica em torno do novo livro de Jessé Souza. (Compilação de comentários em conversas em grupos do facebook)

Começo pelo fim, ou seja, pela resposta que Jessé deu ao artigo do historiador Thiago Krause. (http://tinyurl.com/ycrux78r) Sempre vou achar desonesto um argumento circular, que não abre espaço para seu próprio erro. Nenhuma objeção seria capaz de se confrontar de maneira a demonstrar a fragilidade do argumento de Jessé porque simplesmente, na arquitetura da montagem de sua defesa, quem o critica estaria sempre exemplificando o fato de sua análise haver desvendado os mistérios do sistema de dominação brasileiro. Quem o critica estaria sempre e necessariamente a favor desse sistema. Assim fica fácil não ter opositores e pessoas que discordem de você. Apesar de me considerar do mesmo espectro ideológico de Jessé, de admirar parte de sua obra, acredito que essa postura não condiz com aquilo que uma sociologia crítica e reflexiva se dispõe a produzir. É possível, porém, supor que o contexto de polarização política o tenha levado a fazer uma leitura menos rigorosa que propriamente sociológica das interpretações históricas do Brasil. Uma leitura ruim, não apenas por ser mais política. Mas que acho o debate pode ajudar a pensar umas coisas legais e por isso a analiso.

Minha leitura mais genérica sobre a posição atual de Jessé como intelectual é a seguinte: ele vinha relativamente bem até assumir o IPEA. Vinha fazendo um movimento interessante no próprio trabalho que o tirava de uma formação estritamente teórica intensificada em doutorado feito na Alemanha, tracejando uma construção de reflexão mais empiricamente embasada, ainda que feita a partir de leitura enviesada e limitada da obra de Pierre Bourdieu. As pesquisas sobre as classes batalhadoras e a ralé, ainda que ancoradas numa sociologia da educação importada e sem amparo empírico de mediação para dar conta da realidade brasileira, tinham apelo propriamente sociológico no contexto político do lulo-petismo. Apelo crítico, diga-se de lembrança, pois Jessé foi uma das figuras que defendeu à época com razão, no debate público, que o discurso de ascensão de milhares à classe média era um engodo do ponto de vista sociológico.

Mas a sociologia não é uma disciplina imune às escolhas políticas de quem a pratica. Existia uma fragilidade do empenho sociológico de Jessé Souza desde o primeiro momento que se agrava nesse novo período: ele faz uma leitura limitada da tradição brasileira de interpretação do Brasil primeiro por não perceber com a devida ênfase a diferença entre história das ideias (a qual ele mesmo está vinculado pelo tipo de exegese que faz) e uma sociologia dos intelectuais (a qual ele tenta se vincular através de apropriação de vocabulário bourdieusiano). A falta de discernimento nítido entre essas duas tradições do pensamento deixa no ar a demanda mais trabalhosa (teórica e empiricamente) de uma sociologia dos intelectuais, infelizmente tarefa ainda para ser feita no Brasil nos termos críticos que o Jessé pensa fazer.

É a falta dessa reflexividade que agrava as limitações de Jessé no debate que ele mesmo cavou para si. O fato dele se servir de muletas teóricas importadas (notadamente uma retórica retirada da obra de Bourdieu) para dar suporte a defesa de seu repertório aparentemente crítico contido em sua reflexão política (bem menos sociológica que sua reflexão sobre batalhadores e ralé), produz um efeito de aguçar os limites de sua reflexão propriamente sociológica, que a meu entender não perde completamente a importância, apenas se expõe com mais clareza o que realmente ela é até aqui: um embrião de pensamento sociológico crítico apenas iniciado .

Há um grave problema de modus operandi a ser resolvido pelo Jessé. Toda a reflexão dele refere-se a um projeto sociológico que inicialmente estava a meio caminho de uma sociologia das classes populares (batalhadores, ralé) e uma reflexão bem menos sociológica que passa a usar como recurso sistemático as tematizações rarefeitas de uma sociologia dos intelectuais (que apesar de ser premissa de sua reflexão, nunca foi realmente feita e aparece em seus argumentos como justaposição da reflexão bourdieusiana ao contexto brasileiro). A meu entender Jessé não teria como dar continuidade ao trabalho inicialmente interessante que havia começado nos trabalhos teórico-empíricos sobre setores das classes populares sem ter que assumir, como sequência lógica de seu empenho inicial, tarefas importantes em volume e densidade analíticas no domínio da sociologia da educação e dos intelectuais, coisa que nunca nem sequer esboçou a intenção de fazer. E é justamente por isso que ele precisa recorrer a artifícios retóricos para se defender das críticas.

Acho importante aqui complementar a minha opinião sobre a pendenga com uma contextualização mínima de minha opinião. Creio que isso ajuda também a entender meu argumento. O contexto de minha leitura tem a ver com meu trabalho atual e minha crítica não seria de todo honesta sem a apresentação de minhas premissas.


Eu venho tentando desenvolver uma pesquisa sobre Antonio Candido a partir de intuições que foram gestadas em minha tese de doutorado. Minha hipótese de trabalho versa sobre algo que chamei no projeto de “controle da sociologia”, uma espécie de efeito gerado pelo peso institucional das ideias de Candido no universo de produção da chamada sociologia da literatura que, quando voltada a estudar literatura brasileira, se vê obrigada a lidar com uma hierarquia de procedimentos ligadas a meu entender aos critérios de validação consolidados por Candido na idéia de redução estrutural, uma sociologia das formas literárias. Tendo tido uma formação acadêmica (graduação e mestrado) bastante francesa, tornei-me sociológico num contexto no qual a sociologia bourdieusiana representava a expressão de algo incontornável para os de minha geração. Atento aos principais aspectos da sociologia bourdieusiana, para mim, para se obter coerência na reflexão sociológica, não seria possível lançar uma hipótese como a minha do “controle da sociologia” sem que eu pudesse minimamente referenciá-la na pesquisa empírica, por exemplo, circunscrevendo o “controle” através de análise comparativa dos tipos de trabalho tidos como “sociologia da literatura” produzidos nos departamentos de literatura e os que aparecem, aqui acolá, nos departamentos de sociologia (ou de qualquer uma das ciências sociais). É diante dessa dificuldade que me vejo hoje tendo que moldar as ambições teóricas do meu projeto por falta de ferramentas de tratamento do material empírico que pudessem honrar, nesse estágio de minha reflexão, meu intento descritivo contido na hipótese. Só para constar, não desisti de testá-la: procuro formas de extração mecânica das informações do Currículo Lattes que me possibilitem testar com a devida qualidade minha hipótese, que pode ou não se confirmar.

O que isso tem a ver com as críticas que o Jessé Souza faz a respeito de Sérgio Buarque de Holanda e a chamada “elite do atraso”?

Para explicar a relação entre o dilema metodológico de meu trabalho e o gesto crítico sociologicamente imaturo de Jessé eu gostaria de lembrar que Bourdieu foi um crítico voraz e perspicaz daquilo que chamamos de história das idéias. A ela o autor de Méditations Pascaliennes opunha sistematicamente uma sociologia materialista sensível à dimensão simbólica constitutiva do mundo social. Essa sociologia rastreia os aspectos institucionais e de internalização de valores e formas de ver e conceber o mundo (habitus acadêmico) que opera em espaços sociais dotados de significados específicos (campo acadêmico). O conhecimento por ela produzido tenta percorrer o caminho que explica como as pessoas pensam da maneira que pensam e agem da maneira que agem. Ora, a crítica construída por Bourdieu é, nesse sentido, correlata a evolução de sua própria produção que, via sociologia da educação (“Les héritiers, La Réproduction. etc.), passando por uma sociologia da cultura (La distinction), engendrou uma sociologia dos intelectuais (Hommo Academicus, La noblesse d’État). Estou simplificando aqui a partir de um esquema de evolução que não foi tão linear, mas faço isso para mostrar que a lógica que dá coerência a essa perspectiva em contexto se encontra na forma basilar de uma teoria ampla da socialização que articula o trabalho empírico em torno da sequência histórica de socialização intelectual sem a qual nenhuma crítica aos intelectuais estaria bem fundamentada nos termos da sociologia bourdieusiana. Dito isso, voltemos à situação do Jessé.

É por conta da ausência de uma sociologia substantiva dos intelectuais e suas instituições formativas que a reflexão teórica dele fica, ela também, debilitada. Para se ter uma ideia, por mais que isso possa ser uma opção, Jessé não lida nem com o melhor do uso da abordagem bourdieusiana brasileira já produzida, não faz interlocução crítica nem com Miceli (pioneiro na sociologia dos intelectuais de roupagem bourdieusiana no Brasil), nem com o pessoal do Rio de Janeiro (Afrânio Garcia e CiA). Como se faz sociologia dos intelectuais, digo, uma crítica ao Pensamento Social Brasileiro, a uma suposta tradição de leitura de Sérgio Buarque de Holanda a partir do referencial bourdieusiano no Brasil, sem sequer mencionar esses trabalhos? Enquanto você está dimensionando a pesquisa empírica (como ele estava fazendo nos trabalhos sobre a ralé e os batalhadores) essas limitações não aparecem. Quando você parte para o embate teórico sem o trabalho empírico que corresponda sua ambição teórica, essas fragilidades são expostas.

Na minha opinião o limite é tão mais sociológico quanto mais a opção passa por uma suposição política: Jessé antecipa em ansiedade uma hipótese que está hipostasiada por uma sociologia ainda por ser feita (a sociologia dos intelectuais brasileiros) para defender seu propósito polêmico, bem mais pautado pelo cenário político do que pela sociologia. Em outras palavras: sem sair da história das ideias na qual ele também está preso, em sobrevoo, Jessé faz uma crítica por via “hermenêutica” a algo que só poderia ser caracterizado, nos termos da teoria sociológica a qual ele se fia, através de uma sociologia robusta dos intelectuais e das instituições que os formaram. Como lembrado por Cesar Melo, mesmo se levado em conta apenas o registro específico da história das idéias, há problemas importantes a serem destacados por conta da radicalidade da hipótese defendida. Diante de tese tão forte, espera-se mais do que uma generalização efetuada em cima de análise que versa sobre aspecto bastante específico de Raízes do Brasil. Análise efetuada sem que haja a identificação dos mecanismos específicos pelos quais as ideias de patrimonialismo e populismo se consolidaram como hegemônicas dentro de um quadro universitário e intelectual bastante complexo e volumoso como é o brasileiro. Pode-se perguntar, por exemplo, contra a generalização feita por Jessé, em quais das interpretações especificamente, já que a obra de Sérgio Buarque tem sido analisada e decifrada de maneira conflituosa e diversa no seio da tradição de pensamento a qual ela está filiada.

O principal erro sociológico de Jessé é, nesse sentido, que ele se baseia numa sociologia dos intelectuais já feita (na França?) para inferir e se referir à “tradição inteira” de pensamento social no Brasil. O que quer dizer do ponto de vista sociológico a frase “o programa político do PSDB é todo retirado de Raízes do Brasil”? Ou ainda “Sérgio Buarque foi um dos fundadores do PT, fez todo mundo de imbecil, da direita à esquerda”? Que análise de obra ou institucional dá respaldo a uma frase de efeito como a que diz: “Há uma tradição inteira, 99 de 100 intelectuais até hoje professam esse tipo de coisa.”? (ver entrevista de Jessé: https://revistacult.uol.com.br/home/jesse-souza-a-elite-do-atraso/). É natural que diante de frases como essas se façam as perguntas cabíveis: cadê a análise do programa do PSDB?A do programa do PT? Não seria preciso verificar a maneira que se apresenta a coerência de certas ideias de Sérgio Buarque contidas no Raízes do Brasil na forma em que estariam presentes no estatuto de fundação desses partidos e compará-las às contidas nos programas de governo de FHC, Lula, e nos de Dilma, para que hipótese tão contundente fizesse algum sentido? Não seria esse o mínimo de trabalho sociológico necessário para caracterizar os termos daquilo que Jessé defende?