#Ocupe Escola: os meios qualificam os fins

Meu primo Diego Valério não é o maior fã da escola que já conheci em minha vida. Vinha se arrastando a cada ano no penoso ofício de acumulação de horas inúteis da frequentação mecânica e compulsória da sala de aula. Parto dessa constatação pessoal a respeito de um personagem isolado dessa linda história para me perguntar: qual seria a importância mais duradoura desse movimento?

Faço essa pergunta pensando numa ideia que Paulo Freire defendia muito bem na crítica dele ao que chamava de ensino bancário: a gente se faz sempre com e contra as instituições nas quais estamos inseridos. Mesmo na pior escola, dizia Freire, vai sempre existir alguém que por alguma razão encontra um jeito de aprender a lidar com aquele tipo de aprendizado. Isso porque a inteligência humana consegue encontrar caminho na falha e aceitar para si, ao pesar e apesar da instituição, dentro da estrutura mesma de ensino estanque e/ou repressora, uma maneira de se proteger do mundo, um tipo de conhecimento que, se reconhecido, passa a servir de auxílio pra vida mesma em vários sentidos. Não será esse o tipo de ensinamento/aprendizado diante do qual estamos com as ocupações das escolas?

Minha impressão é que o aspecto mais poderoso e político desse movimento das escolas é o que faz a escola real ocupada transforma-se em escola símbolo. A rede escolar no Brasil na sua complexa rede segregada (particular/pública) filtra de maneira violenta um número incalculável de talentos perdidos dentro da instituição concebida tal como está. As ocupações pelos alunos revelam o imenso contraste entre o seu potencial efetivo, o que cada escola poderia ser, e a realidade, o que de fato cada uma delas é.

Volto ao caso ilustrativo de meu primo para exemplificar essa ideia. Egresso da escola privada, na qual nunca havia se sentido bem dentro, não conseguindo nem sair de vez nem aproveitar o que lá existe de bom, pressionado pelo tipo de demanda social que o sucesso escolar supostamente inscreve em seus bem sucedidos, estava meu primo ali, junto a tantos outros, de saco cheio de uma vida inteira dentro dessa instituição que sempre se mostrou incapaz de ouvir e interagir com outras competências suas que não aquelas que são requisitadas dentro da sala de aula.“Pra que serve mesmo tudo isso?” Pergunta que parece redundar na cabeça da garotada. E não sem razão, eu diria.

A Educação é um direito difuso da sociedade. E a escola pública é a responsável por ela, à frente de toda instituição escolar. Se o projeto escolar brasileiro ainda não consegue dar conta disso, a crise do ensino estadual em São Paulo tem sido o lugar onde esse papel está sendo assumido.

Por muito pouco o Diego teria perdido essa oportunidade. Quanta gente não pensaria: que pena esse menino precisar sair da escola particular? Tem me impressionado a força de contraponto de ideias tão naturalizadas como a que aparece em depoimentos como o da Lenina, mãe do Diego:

“Ele estava numa escola privada até a metade do ano. Como corria o risco de ser reprovado mais uma vez mudamos ele para escola pública. E eu dou graças a deus porque se ele estivesse na particular permaneceria alheio a tudo isso.”

O que indica que com a movimentação política e principalmente a meu ver pelo forte apelo simbólico da ocupação física das escolas algo aconteceu. Como pode esse movimento de forma tão forte alterar o significado da escola para alguém que passou já tanto tempo dentro dela sabendo na prática o que ela é?

A própria ocupação traz uma resposta possível: suas tarefas em função de um objetivo político maior  trazem à tona os significados latentes da escola em seu potencial, aquilo para que em tese ela foi criada.
A escola tornou-se como nunca para ele um lugar de interação onde é possível encontrar uma razão sincera para estar. Até então, como um zumbi sem função para as engrenagens mortificadas daquele modelo, não conseguia acreditar na própria razão de ser da escola. Uma entidade que sempre aparecia como mediadora de algo e que como tal não fazia sentido algum para ele. Com a ocupação e o movimento político, ele passou se situar num espaço-tempo repleto de sentidos urgentes, e passou a conseguir enxergar o ideal da escola republicana para além daquilo que ela conseguiu ser sendo do jeito foi para ele até ali. O cuidar do terreno da escola. O varrer as salas de aula. O reorganizar seu uso. A produção dos eventos. O participar das aulas que falam sobre aquilo que está sendo produzido por eles. O refletir sobre as estratégias políticas. O cozinhar para os demais. O pensar a serventia da escola sob diversos aspectos. O conhecer a estrutura física por esse ângulo do cuidado. O se perguntar os porquês de defendê-la sendo ela o que é.

Dou a real: estou para ver um projeto escolar conseguir produzir esse tipo de efeito pedagógico através do jeito tradicional de pensar a sala de aula! Não faz.

Na minha opinião entender a importância e a profundidade desse movimento de ocupação das escolas em São Paulo mais duradouro, passa por se dar o direito de se juntar à emoção da mãe do Diego ao vê-lo pela primeira vez se importar sinceramente com sua escola.

Se juntar àquela emoção significa entrar fundo na seguinte pergunta: como um jovem que durante toda sua vida nunca encontrou sentido na escola passa a entender seu valor apesar do que ela realmente é para ele, a saber: um lugar muitas vezes chato e inútil. Como isso ocorre por conta e através da ocupação?

A escola, tal como a conheci, foi quase sempre tratada como um meio para seleção e preparação de quem vai ascender socialmente e com isso, só com isso, ganhar status de cidadão num país onde povo é uma coisa e cidadãos são outra. A instituição fica fadada a nunca cumprir o seu papel que gregos e troianos brasileiros concordam em atribuir a ela de transformar a sociedade.
Pensemos juntos no efeito simbólico das ocupações. A escola tratada como fim pelos alunos acaba mostrando que os fins podem e talvez devam ser outros. Que aula essa garotada incrível está nos dando!

Dito de ainda de outra forma, para enfatizar a força do que está sendo feito. Talvez a gente não precise tanto de uma escola que ensine bem ao maior número possível de alunos a como conquistar para si um lugar (no vestibular ou) na sociedade tal como conseguimos faze-la até aqui: segregada, “segregadora” e “confundidora” das palavras direito e privilégio. Se reconhecermos a urgência das transformações políticas que precisamos fazer para que a educação formal tenha algum sentido, para que ela seja um direito que nos ajude a conquistar mais direitos e não a lutar cada um pelos privilégios que nos forem possíveis, podemos descobrir, finalmente, que toda essa gente a quem pensamos que temos que ensinar as matérias da escola para que eles possam entrar na sociedade, bem, talvez possamos pensar que ela já é a sociedade, tal como esses jovens estão nos mostrando que são.

É preciso atentar para a ampliação de significado da palavra “escola” que esses estudantes estão oferecendo a todos nós. As escolas ocupadas fazem aparecer na profusão de materiais que foi produzida nas ocupações algo maior do que o ganho político mais imediato já alcançado. Nele observamos encantados quase como num passe de mágica o brotar de dentro da massa amorfa de alunos estatisticamente predestinados ao fracasso, um sem número de competências e talentos que naquele formato tradicional de escola passaria, sabemos de antemão, completamente desapercebido. Como não confrontar a imagem viva da escola ocupada e cuidada pelos alunos (com sua organização ativa e modulada em função de objetivos políticos) àquela morta e sem sal que aniquila sonhos ao invés de semeá-los? Como não ver nas escolas ocupadas o embrião de uma escola ideal na qual o aprendizado está ligado à vida como forma de vínculo entre a curiosidade e um tipo de melhoramento das pessoas que à aquisição de novos conhecimentos pode em tese presumida produzir?

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No meu TCC estudei um grupo de poetas do final do século XIX chamado A Padaria Espiritual. Eles eram de Fortaleza e produziram uma espécie de jornal manifesto chamado O pão, no qual divulgavam poesia simbolista, crônicas sociais e crítica literária da poesia da época. O que me interessou naquele grupo foi menos o valor estético de seus escritos e mais o significado de ter um grupo de pessoas, de jovens intelectuais que, alguns anos após a Proclamação da República, investia parte significativa de seu tempo para oferecer “o pão do espírito” aos seus contemporâneos. Achava incrível que uma crença baseada numa ideologia (a ideia de uma república no Brasil pós escravocrata) pudesse ter gerado sonho tão potente de ascensão social através da educação – a maioria dos poetas era de mulatos que tentava usar a literatura como forma de reconhecimento público de suas qualidades. Eles declamavam seus versos em praça pública com o intuito de atrair mais gente para o universo das letras e do conhecimento.

A Padaria Espiritual talvez não tenha muito a ver com essa moçada que está hoje defendendo suas escolas. Mas há algo nesse símbolo de possibilidade de ascensão social que a ideia de escola ganha com a república que me parece, aqui como lá, algo a ser refletido como motor de uma guinada genuína na plataforma de transformação efetiva da sociedade que passe pela educação formal. Uma escola verdadeira precisa ser capaz de produzir sonhos verdadeiros.
Meu paralelo com a Padaria Espiritual é feito apenas em um sentido específico: a ideologia da República, por mais ilusória que tenha sido, provocou nos jovens intelectuais de Fortaleza a esperança de vencer através da educação. O crença na ilusão, já dizia uma máxima da sociologia clássica, não é nunca ilusória em seus efeitos. A escola real ocupada produz um efeito poderoso de lembrança do potencial latente da escola como vetor de mudança social. E daí vem provavelmente boa parte de sua força simbólica.

Indo mais além nessa leitura diria ser fundamental reconhecer algo no contexto político das ocupações. Há uma inteligência política dos meninos e das meninas do movimento que contrasta com o momento em que o Brasil se afunda numa crise causada exatamente pela falta desse tipo inteligência.

 

Não é pouco o que já conseguiram até aqui. Venceram um dos políticos mais fortes do país com fortes pretensões à presidência da república. Um político que havia passado ileso por problemas importantes ocorridas em seu governo como a crise hídrica, que afeta a toda a população de São Paulo. O atraso absurdo na ampliação da malha ferroviária. Foi esse político que conta com o apoio quase irrestrito dos principais veículos de comunicação do estado – as rádios, jornais e tvs – que foi derrotado pelas ocupações. Os estudantes desmascararam, no processo, várias táticas típicas de uma forma de fazer política que para muitos se confundia com a forma de enxergar o mundo do chamado paulistano médio. Com imaginação e inteligência, revelaram nos momentos certos a táticas escusas do governo, desmascarando o uso do aparato do Estado para produção da mentira deslavada.

De 2013 pra cá nota-se um amadurecimento da mensagem política tributária da insatisfação das pessoas: do movimento passe livre às escolas ocupadas, dos rolezinhos ao Ocupe Estelita, uma política de Estado que represente seus objetivos por cálculos de ascensão contados a partir do crescimento do consumo de bens e serviços, estará inevitavelmente fadada ao fracasso.

Sem se sentir parte de um movimento político maior, meu primo Diego seria apenas mais um que não conseguiu caminho dentro da lógica escolar. Com as ocupações ele e seus amigos se tornam um corpo mais amplo cujo a dimensão, a força e o sentido, hoje, fazem parte integrada da história do país.

 

Tragédias no Facebook

Facebook é um lugar realmente muito estranho, mas  didático sob muitos aspectos.  É uma rede importante. A rede social real (politicamente atuante) que se torna possível montar em torno de questões relevantes e as possibilidades de atuação concreta que isso traz é fascinante. Você se diz:  os encontros e trocas que esse negócio dá são incríveis!

Mas aí você vê as pessoas se disputando o direito de medir pesos de tragédias. E pensa: é o mesmo lugar sobre outra perspectiva. E continua a observar aquela gente se acusando umas às outras da mediocridade de suas recíprocas  análises do senso comum que, convenhamos todos, em se tratando da maior parte dos assuntos aos quais tratamos por aqui, é o lugar de onde conseguimos falar.

Eu acho que existem níveis de postagens no facebook.  Claro, não existe nivelamento por simetria no mundo social. E  é bom ter isso em mente. Não esquecer mesmo. Porque é pensando nisso que sobrevivo nesse universo virtual. O trato diferencial de  textos que são impressões pessoais, reações individuais dos amigos às notícias, daqules nos quais se patilham informações com relevância política mais direta, é condição sem qual a sanidade mental é impossível  por aqui.   Para tudo há um “qual a relevância disso?” Exitem filtros dentro dos filtros do Facebook, né não?
Nesses últimos dois dias intensifiquei as atividades de partilha de informações sobre a tragédia ocasionada pelo crime ambiental cometido pela Samarco em Minas Gerais. Na minha TL, que sei ter um alcance limitado, mas que julgo importante, foi quase só isso. Mas também nos grupos de atuação dos quais faço parte. Tem função? Tem importância?  Acho que politicamente a nossa opinião,  a verdadeira opinião pública,  precisa ser forjada e bem alimentada em fontes relativamente seguras. Essa opinião pode e deve pressionar politicamente os governos a tomarem  as medidas necessárias em relação à tragédia e à prevenção de outras. Isso está ao nosso alcance. Podemos e temos o direito de expressar nosso lamento íntimo pela dor alheia, aqui ou em qualquer lugar. Seletivamente ou não,  diga-se. Isso nem é um problema real. As pessoas tem o direito de reagir às informações que recebem, da maneira que conseguirem. O que vejo com maus olhos é a seletividade tacanha da mídia corporativa,  implicada até a alma com o projeto que vem destruindo parte importante do nosso futuro,  e nós ficarmos sem poder de reação. Eis o ponto que acho importante pensar e conversar a respeito.  Porque a Internet pode ser um lugar de contraponto. E usa-la nesse sentido é imprescindível. #nãofoiacidente #prayforparis

Pedro Paulo: o falso dilema entre violência contra mulher e reação normal emotiva

A reflexão abaixo é foi feita como reação a esses vídeo e texto, e publicado em minha TL no facebook.

O machismo estrutural é uma coisa horrível de fato. A mídia expõe o caso de violência doméstica cometido pelo secretário da prefeitura do Rio de Janeiro. A notícia é dada de forma a expor sobremaneira a intimidade das pessoas envolvidas. Isso só reforça o ranço da violência por trás do ato de agressão.

Utilizando-se da voz passiva para descrever a notícia “a mulher foi agredida” e não o mais correto “Pedro Paulo a agrediu”, a notícia e o boletim de ocorrência se alinham ao senso comum do machismo vigente. Dessa maneira, ao reagir a repercussão da notícia, o agressor termina por se tornar a vítima diante da própria ex esposa (e dos telespectadores da notícia, diga-se), porque a notícia a colocou numa situação de constrangimento totalmente desnecessária.

Explico melhor esse ponto.Tratado como questão isolada, o problema ganha a versão que o próprio Pedro Paulo dá ao ocorrido: foi um caso esporádico, não se enquadra na lei Maria da Penha. Visão que, se lida num contexto cultural mais amplo, quer dizer o seguinte: eu não sou aquele preto e pobre que bate na mulher quando chego bêbado em casa, todos os dias. Eu não sou um monstro. Ora, numa visão de contexto sobre a violência contra as mulheres, eu devo ser enquadrado na lei Maria da Penha, não apenas porque não faço isso de forma recorrente, mas porque não posso fazer isso nunca. O jeito de lidar com a violência tipificada (sentido sociológico) pelo seu veio de classe faz com que no caso da violência praticada contra mulheres de classe média a agressão apareça como algo individualizado, de uma tragédia pessoal específica, na qual a violência que recai sobre a mulher (depois da cometida pelo ex-marido) seja a super exposição de fatos de sua vida íntima. Esse tipo de visão tenta passar a ideia de que a violência tenha sua causa, explicação e justificativa dentro da própria relação do casal, não estabelecendo nenhuma relação entre o “caso isolado”e os dados estatísticos sobre a violência contra a mulher de uma forma geral.

O problema do machismo é um problema público. O secretário diz que pediu desculpas para a família e que agora como figura pública pede novamente “em público”. Ora, nem digo que ele deva ir para masmorra passar o resto de sua vida lá. Mas ele deve responder de forma pública, que não é sinônimo apenas de “em público” e muito menos “para dos holofotes da mídia”, mas responder diante e dentro das instituições públicas responsáveis. Isso porque bater em uma mulher significa bater em todas do ponto de vista do problema estrutural em questão.

Além disso, a notícia consegue a incrível façanha de transformar a voz da mulher agredida numa reclamação contra a própria mídia por ter tornado a vida dela um inferno. Depois de uma cobertura dessas, imagino que a mulher deve ter se perguntado mil vezes se fez o certo em ter denunciado o marido no boletim de ocorrência da polícia, agora que uma pergunta mais difícil de se fazer, mas mais condizente com a situação, ou seja, a que precisava ser feita, seria a seguinte: ele teria batido mais vezes se ela não tivesse denunciado? E as perguntas decorrentes dessa porque cada boletim de ocorrência faz parte de algo maior do que o caso específico pode dizer de si mesmo: quantos outros homens que também não são habitualmente violentos e ou agressivos batem “apenas uma vez” as suas companheiras? Quantos mais ou menos homens bateriam em mulheres “apenas uma vez” caso essas denúncias não fossem feitas para evitar esse tipo de inferno?

O marido diz que se exceder numa discussão é uma situação normal (ao ponto de agredir fisicamente a esposa). Quebrar um copo é uma situação normal, ninguém vai à polícia por causa disso. O fato dela ter ido à polícia, que não é uma coisa que fazemos todos os dias, expõe a não naturalidade da situação. Alexandra denunciou para se defender.

Quando invisibiliza as mulheres anônimas, desconsiderando as histórias individuais por trás dos números, a denuncia pode por exemplo provocar um agravamento da violência dentro de casa. Quando super expomos as mulheres “midiatizaveis” como no caso em questão, elas ficam na situação de ter que minimizar a violência que elas sofreram para se proteger de outras, nitidamente a da própria mídia.

Se a gente que está fora da situação transforma, de um jeito ou de outro, num inferno a vida das mulheres que denunciam, estamos roubando delas um instrumento de defesa, que é a própria denúncia.

Direitos Urbanos: a dor e delícia dos lugares ocupados

O que chamo de Direitos Urbanos – incluo aí o Ocupe Estelita e o Estelita Brasil, entre diversos outros subgrupos- esse agrupamento suprapartidário de indivíduos, é uma composição instável e fragmentária de pessoas que se articula em torno da questão dos direitos difusos da sociedade. Esse agrupamento não funciona de maneira uniforme e, em sua modulação constitutiva, produz força política que é alavancada em momentos de crises causadas por fatos políticos produzidos pela desfarçatez das transgressões das instâncias administrativas. Ao atuar nos espaços institucionais existentes expondo as práticas incrustadas no poder público, o Direitos Urbanos vai criando condições para que a política se mostre do jeito que ela é. Na indefinição de um lugar para o grupo no tabuleiro institucional posto com que constantemente interage, reside parte de sua força: sem conhecer esse lugar não há como definir interesses e repetir as práticas correntes de barganha que estabilizam o jogo naturalizando a forma distorcida como ele vem sendo jogado em todas as esferas da vida pública.

A contaminação dessa lógica é tanta que fica estabelecido no senso comum que somente de fora do tabuleiro institucional é possível alguma atuação consistente e legítima. Isso é experimentado lindamente e de forma complexa pelo Direitos Urbanos, sempre entendido por mim nessa forma expandida a qual o concebo conjuntamente com o Ocupe Estelita e o Estelita Brasil. E é daí que vem, por um lado, a constante tentativa de enquadrar o grupo no jogo. Pelo outro lado, o que vem é a perversidade da cobrança (inclusive por parte do poder que é enraizado na promiscuidade público privada) por completa desvinculação dos integrantes do grupo de qualquer lugar no tabuleiro, especificamente os lugares partidários. Não é de outro lugar que vem a sutileza da importante diferença de tensão gerada pela participação no grupo de pessoas como Edilson Silva ou Raul Jungmann que são políticos e a participação de pessoas importantes do grupo no mandato de Edilson Silva na Assembléia Legislativa de Pernambuco.

Os lugares que os integrantes da movimentação ocupam no tabuleiro são muitos e muito diversos. São pontos de tensão, fatores que interferem nas dinâmicas internas e externas, mas não da maneira simplista que tem se tentado imputar. Esses lugares não tem como definir uma posição para o grupo pois ele interage com o tabuleiro, mas não funciona como ele. Não por acaso, o grupo se fortalece também por conta de divergências nos agrupamentos específicos que vão se formando dentro do próprio agrupamento maior, sempre mais difuso e amorfo, diante das crises. Nessa dinâmica na qual a diversidade de tipos só cresce, fica muito difícil deteriorar a imagem de integrantes de origens e referenciais tão diversos, e que, na lógica mesma a que se propõe o movimento, expõe, re-expõe e mais uma vez revela a qualidade mesquinha da política tal como vem sendo conduzida.

E esse outro fato importante de que dentro da composição social do movimento, uma parcela significativa de jovens, seja de filhos de quadros importantes do celeiro político-institucional – há filhos de políticos, de juízes, de advogados importantes, de quadros da administração pública, de empresários etc.- aguça sobremaneira as tensões que produzem o principal efeito da criação do movimento que gira em torno dos Direitos Urbanos: a exposição das nefastas dinâmicas de poder que tentam dissimular quais são efetivamente os diversos tipos lícitos e ilícitos de práticas de promiscuidade nos processos decisórios entre governantes eleitos e membros de setores privados específicos. Dinâmicas essas que tentam ser apagadas através da naturalização do que há de pior no uso do poder público. Foi assim em vários momentos: do afastamento da promotora Belize Câmara à queda das liminares, do alvará irregular de demolição à votação esdrúxula da lei (18.138/2015) na Câmara Municipal do Recife. Algo intensificado em período recente, nessa gestão que, forçada a reagir aos estímulos que a crítica do movimento produz, expõe de maneira aguda a promiscuidade que antes era apenas escondida. O que agora termina tendo de ser ainda mais escancarado o teor dessa promiscuidade, uma vez que precisou ser defendida de maneira mais aberta, por isso a violenta reação, mentirosa e vil, contra o movimento. O poder municipal se vê obrigado não só a defender os interesses dos empreiteiros no caso do Novo Recife. Isso eles vinham fazendo sempre. O que salta aos nossos olhos é que eles passam a defender de maneira aberta as condições para que as forças continuem atuando do mesmo jeito, já que essas condições são abaladas pelos questionamentos do movimento à forma como a prefeitura incorpora-se à atuação da iniciativa privada no caso específico do Novo Recife. Isso faz com que, a partir dessa exposição contrastante entre o discurso oficial e a realidade dos fatos, tal postura também se torne vergonhosa para esses políticos e seus bajuladores.

Há, porém, um outro fator de mesma ordem geracional que tem produzido bastante embaraço e confusão: o constrangimento dos pais, e não são poucos, inclusive de gente de dentro do PSB, do PT, do PCdoB, aliás, de praticamente todos os partidos da base aliada, ao verem seus filhos e filhas participarem do movimento. Constrangimento que a meu entender faz parte da mesma dinâmica desveladora que vem expondo de maneira quase didática o que em tese todos dizem já saber. O efeito de incomodo que produzimos com o surgimento do Direitos Urbanos corresponde a seguinte situação: se antes todos já sabíamos e fingíamos por diversas razões não saber – refiro-me às dinâmicas por trás das práticas de poder-  com o aparecimento do movimento, esse conhecimento que era sempre implícito, tornou-se incapaz de esconder-se de si mesmo. Não sei se o incomodo gerado pelo constrangimento do efeito de verdade que essa situação causa vai mudar de maneira concreta o jeito de se fazer as coisas na política de Recife. Mas não tenho dúvidas que isso tem mudado o jeito de fazer política das pessoas que fazem parte do movimento.

E aos que imaginam ver em minha opinião sobre a nota do PT, algum tipo de desrespeito ou desacato à figura paterna, saibam que aprendi com meu pai, João Paulo, que opiniões e posicionamentos são o alicerce da boa política, justamente quando são forjados na análise fina do conteúdo político das coisas. Só um grupo com a vocação republicana e democrática como o Direitos Urbanos, tal como eu o entendo, torna possível que uma diferença de leitura política como essa entre eu e meu pai sobre questões ligadas ao desenvolvimento urbano, transforme-se em medida ainda mais reveladora da qualidade horrenda dos políticos que estamos enfrentando. E digo isso de fato com a tranquilidade de nunca ter visto João Paulo defender o projeto Novo Recife, e de desconhecer qualquer  ato provindo dele em favor especificamente desse empreendimento. E digo sem medo algum, que independente de ser filho dele, sou capaz de fazer as críticas que julgo dignas e necessárias, e ao mesmo tempo reconhecer avanços que a gestão infinitamente mais democrática dele (comparada as subsequentes) proporcionou para o surgimento de uma discussão mais sistemática com fóruns e espaços como os conselhos que aparecem como instancias as quais recorremos agora, no furor das disputas nas quais estamos inseridos.

E mais. É do respeito e da admiração que sinto e nutro por ele, que não me imagino em atitude crítica como essa estar desalinhado com o que aprendi.  O que de fato imagino é que, se fosse filho de alguém que quando prefeito, como agora é Geraldo Júlio, fosse capaz de usar a propaganda da própria prefeitura para enfrentar um movimento social acusando-o de vandalismo (como fez o atual prefeito), de reagir de maneira tão apolítica, se negando ao diálogo, diante do enfrentamento feito de modo franco e honesto, eu não poderia nem teria condições de dizer o que disse da mesma forma que o fiz a respeito da nota do PT. A minha opinião crítica que difere de outras posturas que visam destruir o partido, porque é uma leitura política que, até onde consigo perceber, me coloca numa postura crítica construtiva, diante de um estado de coisas desolador dentro do partido.

E aos petistas que apoiam o movimento e têm alguma dúvida se esse apoio pode ser posição do partido, que se entenda que, do ponto de vista propriamente político, o partido pode e deve apoiar a causa do Estelita. Mas diante da história recente e das cobranças instauradas, não vai conseguir fazê-lo de qualquer maneira, porque existem condições a serem criadas para isso. A mínima dessas condições, é o reconhecimento da parcela de responsabilidade que lhe cabe no processo que desencadeou o que agora ocorre. Sem isso, nenhum valor político pode ser aferido de um posicionamento de apoio, por maior que seja a simpatia de muitos dos filiados ao movimento.

O “rolezinho”do Estelita e minha alegria: a rasteira da cidade em todos nós

Eu deveria estar triste porque o ato ontem acabou no RioMar, um centro comercial de lojas que representa um modelo de vida societária que eu acho redutor, segregador e ruim para cidade. Dentro da minha perspectiva, o lugar feliz de se terminar uma caminhada simbólica era na praça pública, lugar o qual depositamos a esperança do encontro e da mistura na dinâmica viva de uma cidade que parece ser vocacionada para isso.

Mas ao ver as imagens do ato dentro do Shopping eu não acreditei no que meus olhos e o meu coração me pediam. A tristeza simplesmente não me veio. Vi muitos amigos sensatos, pessoas a quem admiro, externando a opinião segundo a qual teria sido um tiro no pé o ato no RioMar, porque era um movimento assustador para pessoas que, não prevenidas – eu acrescentaria- não prevenidas porque justamente “asceptizadas” pela rotina prosaica e sagrada do templo do consumo – estariam perdendo a possibilidade de dialogar com setores mais conservadores da sociedade que, até aqui, não simpatizam com o movimento apenas por desinformação, e não por má fé.
Mesmo tendo ouvindo esse cuidado crítico ( e o respeitando), a minha impressão é de que o ato produz algo maior e mais forte do que a recusa/aceitação ou aderência/repulsão de setores da opinião pública ao movimento. O ato teve uma dupla relevância política para mim:

1- o impacto simbólico de mostrar que o movimento entende o quanto aquele espaço tem a ver diretamente com o que está acontecendo na cidade como um todo e ; 2- talvez mais importante, transformou um lugar que não é por definição um espaço público, em um lugar onde acontece um “evento público”.

O shopping já é um lugar que dissimula e mimetiza o espaço público sem de fato ser. Mas quando fenômenos como os do “rolezinho” e esse ato de ontem acontecem, ele de fato se transforma em outra coisa que precisa ser avaliada. Esse fato é político. Um verdadeiro milagre, totalmente contra-intuitivo, de produção simbólica da própria cidade. Isso quer dizer que o Shopping, quer queiramos ou não, faz parte sim de nossa cidade, inclusive tendo abocanhado espaço importante num lugar estratégico de interseção entre as varias regiões. As pessoas estão lá e, queiramos ou não, aceitemos ou não, pelas razões que devem existir para isso, gostam de ir e de ficar naquele espaço. E talvez não haja outro lugar de fato mais interessante de dizer que há outras formas de se viver, de se mostrar isso, que numa apropriação pacífica e simbólica de um lugar que ao negar a cidade, precisa ser negado por dentro, de dentro, para que possa ser ele também integrado à uma dinâmica mais complexa e plena que a cidade passa a exigir quando paulatinamente ganha consciência de si.

O ato me revelou algo de realmente subversivo: mostrou-me que foi a cidade, não o movimento, não a prefeitura ou o Shopping, foi ela que atuou com sua força disforme inesperada na produção de uma mistura. Todos levamos uma rasteira quando a cidade insiste em ser promiscua de si mesma, apesar das vontades das partes interessadas em ficarem cada uma no seu espaço predefinido por suas próprias lógicas. A cidade nos venceu a todos ontem e isso é motivo muita alegria e não de apreensão, apesar da confusão que possa causar. E sei que causa. Não senti tristeza. Não mesmo.

 

Link para vídeo: https://www.facebook.com/laizaxavier/videos/1088115004539119/?pnref=story

Um smartphone roubado…

– Porra, ele roubou meu celular. Merda, que merda! Foi um presente da minha mãe. Tem tudo meu ali dentro: fotos, textos, trabalhos. Acho que deveria correr atrás. Devo gritar? Quem sabe alguém derruba ele da bicicleta. É isso. Vou correr e gritar “pega o ladrão!”

[Vejo depois de pensar tudo isso num intervalo de segundo a bicicleta começar a se afastar e dou início a corrida, o pensamento sempre mais ágil do que minhas pernas finas].

Grito: “pega o ladrão!”. Novamente: “pega o ladrão”. Continuo correndo, ainda em meio a ilusão de alguma escuta. Vendo o rapaz negro se distanciar ao descer a ladeira numa bicicleta velha, comecei a imaginar o que aconteceria se alguém realmente conseguisse para-lo. O que aconteceria se ele fosse derrubado? As minhas pernas continuam correndo, eu continuo a gritar, mas eu me perguntava: o que aconteceria com moleque da bicicleta que levara meu celular?

Muitas cenas recentes desse já velho FB me vêm à mente. Lembrei da morte do pequeno Eduardo, ainda tão recente e já tão esquecida. Pior: a lembrança era da quantidade de pessoas que vi defendê-lo por não ser ladrão, “não merecia”, ou, justificar sua morte porque, morando na favela, talvez fosse. Será que iam pensar que esse rapaz “merecia”?

Memória ingrata e mais rápida que minhas pernas. Trouxe também a lembrança de que há tantas pessoas dispostas ao linchamento, à violência mais primária para a confirmação daquilo que consideram ser efeito de justiça: “bandido bom é bandido morto”.

– Quantos exemplos? Quantos mais?

Pensava tudo isso e corria. Continuava a correr. As pernas lentas. A voz já não era mais tão potente: ” pega o ladrão!” Corria. Gritava mais forte: “pega o ladrão!”

E lembrava:
– ele não merece. É ladrão. Levou algo importante para mim, mas não merece.
E já via o moleque se afastar levando meu celular com certo alívio.

– Leva essa merda. Talvez perdê-lo desse jeito seja melhor do que nossa “justiça”.
Na minha falta de preparo físico, senti meu coração em taquicardia. Imaginei-me em vítima (de um roubo de celular) sendo meio para a aniquilação física de meu “algoz”.

– Devo estar louco por me sentir aliviado. Não queria, lógico, perder meu celular. Mas que mundo é esse, que país é esse, no qual podemos imaginar violência tão atroz como reparação de crimes banais, contra alguém que sei lá por qual razão roubou meu celular. Sim, meu celular… tinha coisas importantes nele. Muitas. Mas nenhuma delas, fiquei bem feliz de lembrar, nenhuma delas me dá vontade de matar. Devo estar louco. Não sei. Mas me senti em paz ao vê-lo já bem distante, sem que ninguém mais o pudesse parar. Vai moleque filho da mãe, leva em paz. Que mundo estranho…

Pensando o caso da notícia da morte do jovem vítima de preconceito homofóbico

Sei que corro forte risco ao escrever essa nota. Mas não resisti. Escrevo porque sei que pode existir preconceito sem ódio. E isso faz alguma diferença. Digo isso sendo uma pessoa que é totalmente a favor da criminalização da homofobia. Existe já uma comoção em torno da morte do jovem vítima de preconceito, porque seus pais formam um casal gay. Tive o cuidado de ler e comparar as matérias que trataram do assunto e acho muito importante lidar com as informações da maneira mais responsável possível, porque a acusação é grave e as notícias não são muito bem dadas. Estranhei o fato da notícia da morte ( http://migre.me/oXHZo) ter sido dada sem palavra “espacamamento”, que aparecia na primeira situação (http://migre.me/oXHZo). Vocês podem me dizer, mas com a morte do garoto, isso não importa. Entre agressão e espancamento, não há diferenças. Olha, quando li a primeira matéria, a imagem que me veio à mente foi a do ódio de 5 outros adolescentes que batiam compulsivamente num garoto só porque ele era filho de um casal gay. Ao que indica a informação médica “exames feitos no garoto também constataram que ele teve hemorragia, mas não apresentava sinais externos de violência física”, insinua que não houve espancamento. Eu teria cautela em se contrapor a um ódio que talvez não tenha existido, porque isso, a meu ver, é terreno movediço para que ele cresça. Dois dos 5 meninos foram pedir desculpas, informação que também é contraditória com a tese do ódio, geralmente perpetrado por pessoas já insensíveis a esse tipo de gesto.

Alguém pode argumentar que o preconceito é a cama do ódio. Mas não ver as nuances entre diferentes casos, é também reproduzir preconceito para deter aquele que já existe. Imagino, por exemplo, que exista uma dor diferente que é de imaginar que seu filho foi morto espancado pelo ódio, e uma visão mais amena, ver que ele foi vítima de uma agressão na qual seu corpo foi de alguma forma preservado, não negado pela força da violência física.

Em todos os casos, é preciso justiça e apoio à família. Mas com o cuidado com o que se diz e como se diz, se corre menos risco de amplificar algo pelo medo que temos dessa violência ser generalizada. É preciso ter cuidado porque também existe luta contra o preconceito com ódio, e as vezes, na certezas de estamos do lado certo, esquecemos disso.