Sobre Cacos


“O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito [o caco] para fazer dele um tema que, em seguida, fará parte da partitura de sua vida. Voltará ao tema repetindo-o, modificando-o, desenvolvendo-o, transpondo-o, como faz um compositor com os temas de sua sonata” (Milan Kundera, A insustentável leveza do ser).

Uma vida pode ser lida como um amultuado de cacos. Se guiada pelo ímpeto da beleza, ela pode acomodar os pedaços, compondo as arrestas irregulares e, sem medo de imperfeições, conceber-se enquanto mosaico. Durante muito tempo esse foi um conceito realativamente aceito de arte, de composição artistica.
O que é uma vida bem vivida? Seria essa a pergunta mais fundamental?
Transformar cacos em beleza talvez seja, no fundo(de onde não me perguntem!), a tarefa de todo ser humano adulto diante de sua própria existência real. Reorganizar em lógica que busca harmonia, as frases, os temas (Jorge, não ria de mim, não sou músico!), que, se o compositor for bom, se fundirão todos em sonata…(em boa sonata). Numa dimensão de totalidade onde as partes interagem entre si de tal forma que não se pode mais notar a natureza fragmentada oriunda dos sons – (caramba, hegelianismo numa fase dessa da vida devia ser estritamente proíbido) , a melodia, ou seja, os cacos de uma vida reagrupados de maneira harmônica (ou harmoniosa), revelam o esforço de apagar dissonâncias (as arestas que são atributos de qualquer caco), e a “beleza” seria assim entendida como a vitória desse errafecer de disformidades sonoras.
Eu gosto de mosaicos. São metáforas formidáveis da existência humana. Nele, talvez esse o segredo do seu belo, os fragmentos não desaparecem: eles se conformam à beleza. As vezes, em momentos de paz, sinto-me um mosaico de mim mesmo.
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“[…] E que o desprezo dos metodólogos por tudo que se distancie tanto dos cânones estreitos que eles mesmos forjaram em termos absolutos do rigor serve frequentemente para mascarar a superficialidade rotineira de uma prática sem imaginação e quase sempre alijada daquilo que constitui a condição verdadeira do verdadeiro rigor: a crítica reflexiva das técnicas e dos procedimentos.” (P. Bourdieu)

Por uma sociologia dos sociólogos recifenses

Primeira Parte

1- Homo Academicus à CFCH: lição de estranhamento


A aula inaugural de Pierre Bourdieu no College de France começa com as seguintes palavras:

“Nós devíamos poder pronunciar uma lição, mesmo que inaugural, sem se perguntar com qual direito: a instituição está aqui para descartar essa interrogação, e a angustia ligada ao arbitrário que se faz presente dentro dos começos.” (Leçon sur la Leçon, les editions de minuit, 1982.p 7)

Bourdieu sabia que era isso mesmo que ele estava fazendo, pronunciando uma aula que lhe era de direito e que lhe atribuía legitimidade. Tanto sabia que usou desse recurso para mostrar que a ciência que ele ali representava estava lá para por em suspenso, ou ao menos em suspeita, algumas das legitimidades ali presentes. A sociologia, dizia ele, ” ciência da instituição e da relação, feliz ou infeliz, à instituição, supõe e produz uma distância intransponível, e às vezes insuportável, e não apenas para instituição; ela arranca o estado de inocência que permite de preencher com alegria (grifos do próprio Boudieu) as expectativas da instituição.”

Para ele, imagino, jogando com o jogo de palavras e de posições que estão ao seu alcance, fazia-se possível, porque decorre daquilo mesmo que a sociologia exige e produz, uma defesa da reflexividade como propriedade mais fundamental da ciência que assumiu como sua: “todas as proposições que esta ciência enuncia podem e devem se aplicar ao sujeito que faz a ciência”. Não vou aqui discorrer sobre o que, nessa visão, acarretaria na falta de alegria dos intelectuais ao se verem como um objeto de estudo da sociologia. Mas falarei mais de meus incomodos de não poder tomar meu universo como objeto de conhecimento sociológico.

Começar falando de uma aula magistral (e aqui, realmente magistral, porque dada com a presença dos mestres já consagrados da instituição), realizada na França, numa das instituições de maior prestigio daquele país, para falar de meu estranhamento com o universo do CFCH, pode parecer, no mínimo dos mínimos, esdrúxulo. Mas como negar, de minha parte, que, tanto a leitura como o contato direto com uma sociologia tributária dessa perspectiva reflexiva, são fontes constantes de angustias e inquietações com relação aos padrões de produção sociológica do qual hoje faço parte? Mais. Em auto-crítica, ou em esforço disso, pergunto-me se minhas angustias com relação aos tais padrões, já que não estão, como tudo o mais, embasadas (as angustias) em um verdadeiro inventário sociologicamente fundado de razões, pergunto-me se não são elas apenas caprichos arrogantes herdados da assimilação de uma cultura sociológica produzida nos grandes centros de produção acadêmica. O que foi assimilado nesses centros parece ou aparece como deslocado quando transferido para uma região periférica de produção acadêmica. Essa é minha impressão. E estas as questões que dela decorrem: não estaria eu reproduzindo, em moldes um pouco diferentes, uma lógica normativa de imposição de uma maneira de lidar com a sociologia digna de uma mente colonizada? Não estaria assumindo para mim parte daquilo que imagino criticar quando extravaso minhas angustias?
De fato, digo-me, enquanto a angustia permanece em estado latente, como acontece comigo, ela não se torna capaz de elaborar a pergunta que seria a meu ver a única sociologicamente rentável: o padrão de produção da sociologia cefichiana não poderia ser ele, como pede a reflexividade própria à sociologia a qual me inspiro objeto de aplicação do conhecimento sociológico?

Não é sem auto-complacência que se diz que não se entra em sociologia sem esgarçar as aderências e adesões pelas quais integramos um grupo, sem condenar as crenças que são constitutivas do pertencer e renegar toda ligação de afiliação ou filiação. Mas para entrar em sociologia é preciso o quê? Quando e como podemos nos considerar sociólogos e ser considerados como sociólogos? Não seriam essas dúvidas que a instituição deveria neutralizar? Para quem essas questões realmente importam?

Pertencer ao mundo do CFCH para mim é entender que esse estranhamento meu deve encontrar respaldo na sociologia mesma na qual deposito minhas crenças (esperanças de elucidação e esclarecimento do modus operandi do mundo social) e com a qual me esforço de entender o mundo, inclusive o meu mundo de produção (o universo dos intelectuais cefichianos). Mas entender isso significa apenas e não mais do que isso um dizer-se a si mesmo que em um momento ou em outro seria preciso um debruçar-se propriamente sociológico sobre esse mundo, saindo assim de mera doxa intelectualizada com vínculos em visões sociológicas já feitas do mundo, para construção de um discurso real e sociologicamente embasado a respeito das condições de um tipo de produção que hoje de alguma forma desmereço sem conhecer realmente suas razões de ser.

Nas falsas brincadeiras com amigos nas quais falamos de “cefichismo” (doença intelectual com sintomas como “teoréia aguda” ou o “mal da erudição empaca pesquisa”, ou ainda um “antisociologismo crônico”), estamos diante desse estado de coisas cujo meu estranhamento é apenas mais um sintoma: ele é uma vontade de entender por que alguns valores da produção do conhecimento sociológico são postos em questão de maneira concreta, apesar de velada, por todos nós.

Por razões que julgo obvias não tomaria como objeto de estudo os intelectuais das ciências humanas e sociais do CFCH. Tão obvias quantos minhas razões seriam o valor de uma sociologia que, descrevendo nosso mundo de produção sociológica, mais ou menos do jeito que ele é e produz, nos daria os meios de entender, entre outras coisas, porque continuamos a não conseguir querer de fato saber quem nós somos.

Jampa.

Nuvens, Sonhos e … Psicanálise.

“Inculcaram-me nesse tempo a noção de pitombas – e as pitombas me serviram para designar todos os objetos esféricos. Depois me explicaram que a generalização era um erro, e isto me perturbou.” (Graciliano Ramos, Infância, 1945).

Graciliano Ramos intitulou “Nuvens” o primeiro capítulo de suas memórias de infância. O título não se referia aos condensados de água, claro. Nele encontramos mais o atributo da imaginação contido nas nuvens que é em última instância forma que ganha forma através de imagens. Ou melhor dizendo, da imaginação. É aquilo que a literatura faz com o real (mesmo quando realista): ela transforma flocos flutuantes informes em dragões alados, em cachorros fantásticos, em tigres com dentes de sabre. Transforma pitombas em generalização teórica, mundo empírico em um abstrato.

Existe um site que sempre visito onde as pessoas contam sonhos . Na experiência psicanalítica, como numa grande construção literária dando formas às nuvens de nosso inconsciente, ao verbalizar e tornar visíveis as imagens sonhadas, damo-nos os meios para que nossa imaginação analítica interprete aspectos de nosso mundo psíquico que, naquele momento, torna inteligível, ou ao menos sensível, a natureza informe do universo dos sonhos. Um dos primeiro sonhos que li no site citado me impressionou bastante. Não consegui encontrá-lo novamente, mas o reformulo aqui em liberdade literária. Espero que o dono não venha tirar satisfações comigo de minhas interpretações, afinal de contas, tanto uma (a liberdade literária) como outra (minhas interpretações) são totalmente imaginadas. Então vamos a minha reformulação:

“Um adulto a quem penso ser eu chega para fazer sua análise. Não era bem um consultório, mas uma casa, familiar. A analista pedia para o adulto que ainda penso ser eu tirar a camisa e fechar os olhos. Eu achava, pensando que ele era eu, que ela queria me hipnotizar. Eu senti agora já sabendo de mim umas carícias nas costas e ela me balançava. A psicanalista falava coisas e eu não entendia. Perguntava-me por que eu continuava de olhos abertos. Eu tinha a impressão de fechá-los, mas de continuar sempre vendo.

Depois ela sentou, explicou-me umas coisas que não me lembro se entendi ou não. De repente entrava uma criança no quarto que estávamos. A psicanlista tentava explicar pra o meninote muito afavelmente que estávamos numa análise. Entrava outra criança. Eu tentava encontrar minha camisa. Linda, a analista me passava minha roupa e eu ia me vestir numa espécie de armário. Eu a via conversar com uma mulher enquanto tentava confusamente me vestir. Tinha medo de que alguém me visse naquela situação, mas ao mesmo tempo achava que todo mundo sabia que não havíamos feito nada demais. Só análise. Mesmo assim, achava que as pessoas desconfiavam da psicanálise como subterfúgio para o sexo. Alguma coisa aconteceu e me vi em situação de sair da casa sem conseguir estar vestido.
Vi-me vestido com uma calcinha. Na hora que tentei calçar meus sapatos, vi que já havia sapatos nos meus pés. Tirei-os e calcei os outros. Continuava de calcinha e isso me incomodava.
Ao sair da casa teve a coisa do peixe…
Uma rua que ficava ao lado de um canal ou um rio, não se sabe bem, foi cenário de um espetáculo nuca visto. As pessoas falavam do peixe sol. Observei, admirado, a estranha beleza desse peixe. Ele reluzia a água podre e fétida e ao redor dele, a água parecia pura e límpida. Existia uma particularidade nesse espécime que merece toda uma atenção: ele só morria por causa de uma doença, a gripe. ”

Claro, toda interpretação de sonho precisa de um contexto. Precisa de uma estrutura psíquica, de uma história de vida, que dêem suporte analítico a interpretação daquele sonho. Não conheço o dono do sonho e todas essas informações me são desconhecidas. Como encontrar nexo num peixe que morre de gripe? Ou nas imagens de um adulto com medo de ser julgado por fazer sexo ao fazer psicanálise? E o que dizer de calçar sapatos em pés já calçados? E a calcinha?

Uma pergunta que sempre me fiz e pode ajudar nesse esforço é: como, uma ferramenta tão especifica de análise, como é a da psicanálise, pode dar conta de casos tão diferentes, tão heterogêneos e se conceber, em fim de conta, como uma teoria explicativa de estruturas mais gerais do inconsciente humano. A mesma psicanálise que cuida das neuroses alheias cuida das minhas, que invariâncias psíquicas estão por trás dessa “funcionalidade” psico-analítica? Como pitombas podem virar esferas e “representar” tudo que é redondo no mundo? Como o sonho de outrem pode se transformar em nuvem com formas que dêem vazão a minha imaginação?

Como não tenho respostas, deixo aqui a esperança nublada do resto…

Jampa.

Amor, Passado, Príncipe.

Tenho a mania estranhamente adolescente de guardar as minhas cartas de amor em um recanto. Tanto as escritas por mim quanto as recebidas. Narcisismo? Mais. Vez por outra, nas escondidas, recolho-me a uma leitura atenciosa dos afetos desfeitos. Eu acho um exercício valioso de treinamento sociológico. Objetivação do passado mais profundamente subjetivo. Os “te quero pra sempre ao meu lado”, “ nada na minha vida foi tão profundo do que o que vivemos nessa relação”, “te amo e acho que isso nunca vai acabar”, lidos com a distância do tempo, tem um efeito historicizante, e, e isso não é pouco, desnuda os invariantes estruturais de nossas sempre românticas expectativas amorosas, apaixonadas, colocando-nos secamente no fluxo instável de nossos afetos. Quanto mais sincero o amor, as palavras mais apaixonadas, mais e mais forte é o efeito crítico da percepção de um passado tão único, tão específico, que é estranho pensar naquelas palavras imaginando os sentimentos ali expressados. Sim, eles não existem mais.

Existe nessa bizarra prática algo de profundamente tragicômico: a gente lê, desfruta melancolicamente de um passado perdido para sempre, e, como não dizer, procura nela(na prática) e nele (no passado) refúgio para dilemas mais atuais que, para melhor efeito terapêutico, tenham fonte em mesma verdade profunda daqueles sentimentos de outrora. A história apesar de contextualizar também revela, mesmo que de maneira metafórica, invariâncias estruturais.

Um homem quer ser amado para ser príncipe, pequeno príncipe. Fazer da mulher a encarnação do desejo e do encanto é o imperativo de seu reinado amoroso, no passado e no presente. O bom pequeno príncipe revela-se quando descobre de maneira lírica a abstração que é amar loucamente.

Encontrando um aviador, o príncipe, sempre ingênuo, e por isso mesmo sempre amante, sempre apaixonado, deve pedir: “Aviador, desenha para mim uma mulher linda para que eu possa amar.” E ao olhar o desenho, e ver os traços delineando curvas, exibindo discretamente busto, sugerindo seios, o principezinho deve reclamar: “mas ela parece cansada.” Na esperança de contentar a nobreza do garoto o aviador deve fazer mais uma tentativa. Mais linhas em esboço para expressar com delicadeza as formas femininas. Uma longa silhueta ilustrar uma beleza helênica, proporcional, encantadora. “ Mas ela parece triste”. O aviador não perde a paciência. Reflete um pouco e lembra das ovelhas. Desenha uma bonita casa e diz: “ sua princesa está lá dentro”. O príncipe, feliz da vida, contenta-se com tamanha perfeição.

O passado morto, nunca morre de fato na gente. As emoções passam, as pessoas passam, a vida passa. Mas o menino príncipe guarda o desenho da casa na esperança de que um dia, a princesa saia dali de dentro, sem estar nem triste nem cansada, para depois disso, quem sabe, queimar as cartas do passado e dizer: não é mais meu, tudo isso que passou.

Jampa.
RETRATO DE FAMÍLIA

Este retrato de família
Está um tanto empoeirado.
Já não se vê no rosto do pai
Quanto dinheiro ele ganhou.

Nas mãos dos tios não se percebem
As viagens que ambos fizeram.
A avó ficou lisa, amarela,
Sem memórias da monarquia.

Os meninos, como estão mudados.
O rosto de Pedro é tranquilo,
Usou os melhores sonhos.
E João não é mais mentiroso.

O jardim tornou-se fantástico.
As flores são placas cinzentas.
E a areia, sob pés extintos,
É um oceano de névoa.

No semicírculo das cadeiras
Nota-se um certo movimento.
As crianças trocam de lugar,
Mas sem barulho: é um retrato.

Vinte anos é um grande tempo.
Modela qualquer imagem.
Se uma figura vai murchando,
Outra, sorrindo, se propõe.

Esses estranhos assentados,
Meus parentes? Não acredito.
São visitas se divertindo
Numa sala que se abre pouco.

Ficaram traços de família
Perdidos no jeito dos corpos.
Bastante para sugerir
Que um corpo é cheio se surpresas.

A moldura deste retrato
Em vão prende seus personagens.
Estão ali voluntariamente,
Saberiam – se preciso – voar.

Poderiam subtilizar-se
No claro-escuro do salão,
Ir morar no fundo dos móveis
Ou no bolso de velhos coletes.

A casa tem muitas gavetas
E papéis, escadas compridas.
Quem sabe a malícia das coisas,
Quando a matéria se aborrece?

O retrato não me responde,
Ele me fita e se contempla
Nos meus olhos empoeirados.
E no cristal se multiplicam

Os parentes mortos e vivos.
Já não distingo os que se foram
Dos que restaram. Percebo apenas
A estranha ideia de família

viajando através da carne.

Carlos Drummond de Andrade, A Rosa do Povo, 1945

Impressões sobre Budapeste

Acabo de ler um romance de capa cor de mostarda. Gostei. Imaginei para ele diversos títulos como o piegas “Amar é como aprender uma nova língua” ou “Desamar e esquecer ”, ou “O pêndulo de José Costa”, ou ainda “ Sob o olhar de quem não assina”, e tantos outros que imaginei durante a leitura de Budapeste, de Chico Buarque.

A trama do livro se equilibra no fio tenso de uma crise conjugal contada a partir do universo de um “ghost writer”: profissional que escreve para outros assinarem em seu lugar. Achei de fato ousado da parte de Chico tomar fio tão tênue para conduzir um romance. Perguntava-me a cada parágrafo se aquele mote manteria a narrativa viva até o fim. Para minha satisfação, o livro é um cuidado só. E, na medida em que tememos a ruptura desse fio de barbante que aparenta segurar a narrativa por um cadinho de nada, percebemos que as coisas vão acontecendo na vida de José Costa.

Como gostaria que as pessoas lessem o livro saboreando e descobrindo o enredo, não vou comentá-lo. Deixo aqui minha vaga e modesta opinião sobre esse equilíbrio tênue da trama como sendo a grande qualidade do livro. Sim. Pois a beleza, a poesia de que falam alguns críticos, provém dessa dilatação do romance que usa um foco aparentemente central como eixo da trama (relacionado à crise conjugal de José Costa e Vanda), mas que, ao atentarmos bem, só ganha sentido através da relação da personagem principal com a linguagem entendida em sentido amplo: sua profissão de escritor anônimo que cria um ponto de vista atravessado pela problemática do reconhecimento autoral, as línguas estranhas e familiares entrecortando as maneiras de conhecer e reconhecer o mundo e a si mesmo, os diferentes códigos culturais, tudo isso são espécies de personagens invisíveis do livro.

Exemplo disso se encontra nos momentos onde a confluência entre linguagem e percepção (da personagem) se exacerba, e vemos até José Costa se “tornar” Zsoze Kósta e Vanda aparecer germanicamente como Wanda.

Vale ainda ressaltar, entre tantas outras coisas do romance, a estrutura pendular na organização dos capítulos: a oscilação de José Costa entre duas mulheres (Vanda e Kriska) e duas cidades (Rio e Budapeste). Nela, os caminhos dos personagens se confundem com linguagens. O “real” é retido, modificado, construído pela palavra, e o jogo ficcional dialoga com ele mesmo, revelando, entre outras coisas, as artimanhas da própria literatura (do escritor), ao usar as palavras contra outras de maneira a exprimir idéias, sentimentos e anseios a respeito dele mesmo e do mundo. Claro, nesse caso, Budapeste também é livro bem cuidado, pois, sendo história contada por um “escritor de anonimato”, bela sacada de Chico, a artimanha dessa empreitada literária parece ganhar também um desvelar singelo. Prática sabida de todos, como quase tudo que é “segredo” no mundo social, o escrever para outrem se torna prática invisível porque, quanto mais sabida, mais (de)negada por ter que ocultar – e é justamente isso que garante sua funcionalidade e efetividade – a maneira que funciona sem ser desvendada. Assim, só um narrador empático ao mundo secreto dos escritores anônimos, um autêntico “ghost writer” poderia ver o que ninguém vê, sentir o que ninguém sente, e, porque não dizer, mostrar o que todos sabem mas ninguém mostra. Um verdadeiro exercício, vou arriscar, de sociologia implícita.

Jampa (será?)

À Boa Viagem do Lindu de Oscar Niemeyer (Com a licença de João Cabral de Melo Neto).

Eis casas-grandes de engenho,
verticais, escancaradas,
onde se existe em extensão,
e a alma todoaberta se espraia.

Não se sabe se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Jampa
“imensos limites da praia”

ou ginástica(o parque), para ensinar
quem for viver naquelas bandas
um deixar-se, um deixar viver de
alma arejada, não fanática.