Levis-Strauss: Homenagem Estrutural aos seus 100 anos

Hoje, sexta feira 28 de novembro de 2008, comemora-se o centenário de Claude Lévis-Strauss. Para quem não conhece a obra do famoso antropólogo francês é uma ótima oportunidade de fazer o primeiro contato com os escritos do pai da antropologia estrutural. Para quem domina o francês a dica é dar uma olhada nas homenagens do Courrier De L’ UNESCO. O velhinho, longe de ser o Papai Noel, foi estudioso erudito atento dos mitos de diversas culturas. E é com essa imagem que ele aparece vivinho da silva em uma homenagem feita pela TV Arte. Vale a pena assistir o vídeo baseado no Tristes Trópicos. No site da Arte você também encontra discursos e textos de Levis-Strauss sobre a relação entre raça e cultura. Um deles podemos inclusive ouvir o áudio. Em português, Ana Cesar lembrou da comemoração.

Senti falta de comentários críticos, mas acho que essas datas comemorativas são assim mesmo. A ciência fica um pouco de lado, talvez infelizmente, e fica o mito… se conseguirmos sobrepor essa linguagem e decifrar a espinha dorsal que a estrutura, fica aquele saborosa sensação de que apesar da continuidade, o mito Lévis-Strauss não é apenas um invariante estrutural dos outros mitos que ele tanto analisou a ponto de propor um método universal para dar inteligibilidade a todos eles!

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Desvio narrativo ou… o dinheiro dado as putas

Desci as escadas estreitas. Já era quase noite e a Av. Conde da Boa Vista parecia a mesma de sempre. O que digo? As calçadas agora são um pouco mais largas, feitas com tijolos retangulares de um colorido fosco, encardido. Aguns deles são de um vermelho esbraquiçado pela poeira. Ao pisá-los imagino sangue coagulado com terra em cima. As pessoas são tijolos. Olho para uma menina na rua, uma garota de rua, como se dizia. Agora ela está em “situação de rua”. A liguagem são tijolos.Fico com pena da criança. Lembro que ela é uma criança. Ela tem pouca cor e sorrisos cinzas a enfeitam por contraste quando se confrontam ao seu olhar. Algumas pessoas tem ainda coragem de encarar. Meu sorriso é cinza. Dela não se conhece o riso. E isso é julgamento meu. Sempre sou claro, conciso, moral, miserabilista. Rir também não é meu forte.

Não estou no meu carro, isso é raro. E agora me surpreendo vendo as pessoas dentro dos automóveis. Será que sou assim também quando olhado de fora? Aquele homem de óculos. O que ele faz? Ele alonga o braço direito fazendo uma pequena inclinação para baixo com o ombro, suponho que muda a estação de rádio. Nada mais normal. Logicamente está voltando para casa depois de mais um dia trabalhando sei lá onde. Será que esse cara é feliz? Tem filhos? Afasto-me da minha síndrome Marta Suplicy. Afinal, o cara pode estar satisfeito com a vida de muitas formas.

Mas e aquela menina alí. Uma patricinha, deduzo. Deve estar falando com o namorado. O jeito de sorrir ao celular, de morder o pedaço da unha olhando no retrovisor interno e de não dar a mínima para o engarafamento que tira a paciência de outros motoristas menos distraídos, tudo denucia o namorico da moça. Uma formosura.

Sigo andando. Um ônibus abarrotado, ótima amostra representativa. Não lembro a última vez que entrei numa lata apertada daquelas. Observo do chão o jogo de janelas. Uma mulher alta e bonita sentada perto da porta dianteira projeta seus olhos para fora, ela os move em direção ao que se passa em baixo. Alí, numa Mercedes Bens cinza, um homem conversa com uma menina sorrindo no banco traseiro. Ele usa para isso o mesmo artificio da moça apaixonada, mostrando que os espelhos de carro tem muitas funções latentes.

Fora dos veículos as pessoas olham e não percebem a divisão espacial injusta contida entre as duas janelas, uma alta, transparente e panorâmica, a outra baixa, escura, mas automática e climatizada.Alguém com uma cara de tijolo vermelho vem perdir esmola no sinal ao homem de janela automática. Esmola é dinheiro encardido, é compra violenta da vergonha esquecida pelo hábito de pedir(e de dar e não dar). O vidro desce e uma nota de cinco reais aparece, sai da mão limpa e passa para uma suja, de cor escura como a do encarnado calçamento. Somos cristãos, compadecemos limpos da miséria alheia empodrecida. Dar dinheiro não é um gesto de compra, diria. Porque essa troca entre a culpa e o cinco reais não revela a elevação maior de nossas relações humanas.

Continuo minha caminhada. Penso no dinheiro. Faço uma pequena digressão filosófica sobre a natureza humana… Da força de trabalho ao corpo da prostituta, do carro importado à passagem do ônibus superlotado, do valor das coisas ao das pessoas, tudo está mediado pela monetarização de nossas sociedades. No caso das putas, essa coisa do dinheiro as coloca em situação ambivalente: na prostituição a relação entre os sexos está submetida absolutamente ao ato sexual( ou sensual no sentido mais amplo), a mulher está aí rebaixada à sua generalidade sem especificidade humana própria, ela representa o que cada exemplar genericamente pode oferecer (nenhum aspecto específico de sua personalidade é levado em conta). O dinheiro aí, como na psicanalise, tem um papel fundamental porque ele é o equivalente econômico dessa relação reificante. Ele, como a mulher prostituta, é o tipo genérico dos valores econômicos. Simmel tem uma frase lapidar a esse respeito:

“ O nível inferior da dignidade humana é alcançado quando, por uma retribuição tão anônima, tão exterior e objetiva, uma mulher concede o que ela possue de mais íntimo e mais pessoal e que não deveria sacrificar a não ser por um impulso totalmente individual, contrabalançado por uma doação não menos individual do homem em relação a mulher”( Simmel 2006, p.52)*.

Deixo a filosofia. Na verdade não existe ambivalência alguma. Chego ao fim da minha caminhada inesperada. Olho meu carro parado na garagem de casa. Vejo-me no retrovisor… as olheiras são o contorno do passeio que fiz. Elas delineiam também o peso dos meus pés calçados por um par de tênes Nike, pesados e sujos com a poeira das culpas de minha condição de classe média.

*Gerg Simmel (2006), A Filosofia do Amor, São Paulo, Martins Fontes.

Posições: Cesar, Jampa e uma tese sobre Graciliano Ramos

Pé na Jaca no meu Eunismo blogueiro ( entre amigos)

Minha amiga Wander me enviou recentemente as matérias da Bravo! (não encontrei o link da matéria mesma, mas quem quiser pode me pedir que mando por e-mail) de março de 2003. Naquele momento se comemoravam os 50 anos da morte de Graciliano Ramos e a revista dedicara a capa e alguns artigos ao autor de Vidas Secas. O título presente na capa: “A resistência do camarada Graciliano”. A ele se seguia um complemento: “ Começa a ser relançada a obra do militante que dispensou o discurso panfletário para se tornar um dos maiores romancistas brasileiros”. Ok.

A matéria agora me interessa pouco. Na verdade, a lembrança da amiga me fez relfetir sobre alguns elementos pessoais que julgo importantes sobre construção de minha tese. Como eles não poderão aparecer de forma real no corpo de meu trabalho, aproveito o tom sempre mais egocentrado do blogue para fazer de mais um dia improdutivo de trabalho, um momento de dividir os dilemas e os percalços de quem se aventura numa empreitada intelectual como esta. Por que diabos escolhi estudar a obra de um autor tão canonizado?

Confessaria que a culpa foi de meu amigo Cesar. Eu cometi esse desvio em direção à literatura por pura falta de conhecimento e pela interlocução que estabelecemos e que continuamos até hoje. Fui ludibriado pelo amigo. E agradeço.

Mas até aqui nenhum problema. Nossos amigos tem todo o dever de nos ajudar a encontrar nossos caminhos, mesmo quando eles não estão conscientes (nem nós) do impacto deles em nossas vidas. Existe algo nessas influências que não são apenas do domínio do anedótico, elas entram no terreno do emblemático. Daqui em diante é esforço de situar minhas tomadas de posição intelectuais (digamos assim) em função das que eu imaginava serem as dele (de Cesar), formulando assim uma parte, não a menos importante, do que me levou chegar até aqui.

Hoje meu trabalho se encontra numa situação interessante e delicada justamente por conta do tipo de relação hesitante que tenho com a literatura (sobretudo em relação à crítica literária, domínio do conhecimento que detém, no Brasil, e não só aqui, uma espécie de monopólio sobre o discurso literário). Na minha busca inicial por legitimação num universo até então desconhecido por mim (o acadêmico), o modelo que tentei seguir, em certo sendido a minha revelia, era o de uma intelectualidade tal como a que incarnava o meu amigo teuto-sergipano. E não creio que isso tenha sido ruim.

Foi assim:

Foi com ele que ouvi pela primeira vez nomes que desconhecia, como o de Roberto Schwarz e, pasmem, Antonio Candido. Foi depois dele que li um pouco desses autores. Sim. E através dele, por conta de suas visitas constantes e intermináveis as bibliotecas, que percebi que o conhecimento não vinha sozinho para nós durantes as aulas. Sim, obrigado. Essas coisas se aprendem. E para mim é sempre engraçado ouvir de outras pessoas testemunhos parecidos com o meu.

Tem mais. A partir dele fui modulando as percepções que eu mesmo tinha e tenho sobre o que a literatura representava para mim. E ter ficado na sociologia parece-me uma maneira embora lacunar, legítima de tentar consolidar as especificidades de um tipo típico de intelectual a habitus clivado. Eu escolhi a literatura, em outras palavras, para poder aceitar mal ou bem as impressões de Jampa sobre Jampa. Eu estou permanentemente seduzido por uma visão de mim mesmo como sendo a de um “intelectual pela metade”, formado pelo esforço de vencer pelcaços, e não pela positividade de um percuso escolar e acadêmico impecável que corroborariam com as expectativas do mundo sobre minha própria intelectualidade.

Essa visão de intelectual completo, pelo recurso da proximidade, quem me dava era ele, Cesar. Não que ele fosse de fato (ninguém é completo, sabemos), mas o modelo, digamos assim, do que era ser mais inteiro em termos de dedicação e obtenção de resultados estava para mim delineado naquele sergipano de estirpe recifense.

Essa impressão de imperfeição em mim tem portanto ligação com minha relação de amizade com o amigo (poderia citar outras pessoas como Diogo, ou Mestre Giva no caso dessa minha gênese intelectual, mas fico com Cesar para não complexificar demais o sistema). Tal impressão continua e se acentua no caso da tese na medida em que sou forçado a forjar meu discurso sociológico contra a autonomia perniciosa da crítica literária. Crítica literária que é a profissão par excelence daquele que me enfiou sem saber nessa enrascada dos diabos.

Devo uma explicação quanto ao “perniciosa” dito a respeito da autonomia da crítica literária. Não tenho nada contra a crítica literária e muito menos contra o meu amigo Cesar, muito pelo contrário, retiro dos dois (da crítica e de Cesar) grande parte de minha motivação para dar cabo de meu trabalho. Mas a elaboração da autonomia disciplinar sobre o objeto literário impele meu trabalho a margem do processo de inteleção das obras. E isso porque a crítica é aparentemente invencível, uma vez que, como crítica da sociologia, a crítica literária está sempre se definindo e se redefinindo em refinamento e autenticidade. E isso na medida em que concebe sua autonomia, em redundância cabida, no estudo do que existe de mais autonomo na literatura: suas formas. Quem em sã consciência ousaria dizer que em se trantando de estudos literários, a sociologia não deva ser apenas uma “visão de mundo” que apoia à critica no desvendar dos mistérios literários? Eu heim!

Pois bem, noves fora minha “ousadia” de tentar tratar a obra de Graliano Ramos pelo seu contexto, coisa batida, mas também menosprezada e pouco feita (tendo em vista aqui o desnível do tratamento dado entre os demais elementos do Arquivo Graciliano Ramos no IEB e o dado à serie Recortes, onde se encontram recortes de jornais feitos pelo próprio autor sobre as opiniões críticas aparecidas em jornais sobre sua obra, esta última parte é a que eu estudo), eu ousaria dizer em meu favor o seguinte: em meio a deficiência e a leituras precarias fica a idéia de uma preocupação legítima com os elementos que compõem uma obra para além dela e de seu autor. Coisa que é também batida, sem dúvidas, mas que raramente é feita e que pode ter sua valia independentemente do refinamento alcançado no tratamento analítico da obra ela mesma.

E nesse breve percurso, arrogo-me a dizer: dos muitos escritos que li sobre a obra do Velho Graça, de tão tematizados por adjetivos repetidos, eu diria que esse volume de crítica dedicada a sua obra dá à idéia de “lugar comum” uma semântica toda apropriada onde a redundância chega a ser uma coisa desleal, ela reforça em pleonasmo as coisas que são sempre ditas e reditas a respeito do autor. “Obra indissociavel do homem”, “homem engajado que não se rendeu aos ditames da hortodoxia do realismo socialista”, “um dos maiores romancistas brasileiro”. Não diria que essas coisas são mentiras, ou que estão erradas. Mas elas vem sendo ditas desde do falecimento do autor, em 1953. Por que não se fala no processo de legitimação pública pelo qual sua obra passou durante a comemoração do seu aniversário de 50 anos largamente registrada pela imprensa da época? E depois, com mais intensidade, quando sabida a gravidade de sua doença, no aniversário de 60? Nenhum estudo dessa ordem tiraria dele(Graciliano), a meu ver, a importância e a relevância de sua obra literária(atribuida pelo julgo da crítica), só acrescentaria, mais uma vez a meu ver, um conhecimento sobre os mecanismo que toda obra (grande ou pequena em valor artístico) tem que enfrentar para se tornar grande ou pequena na representação que nos fazemos dela socialmente (o que inclui também, ora bolas, seu valor estético).

Assim realizo e explicito esse meu diálogo implícito com meu amigo Cesar. Um diálogo tão latente quanto a sociologia que analiso na obra e nos leitores que registraram opinião sobre os livros de Graciliano nos jornais. Neles (nos diálogos implícitos) se revelam aspectos de um caminho percorrido (não todos, e nem os que foram salientados se esgotam em si mesmos). Devem continuar ocultando muito(ainda os diálogos), mas, no blogue como na vida, é precisso confiar no processo. E continuar executando as etapas, e se possível melhorar o que produzimos levando em conta o que é possível fazer ao condiderar nossos limites atuais. Assim, mais um texto se finda, mas deixa em aberto, como não poderia deixar de ser, o que deve ser desvelado desse esforço de tentar desvelar tantas coisas.

Impressões sobre o Pré-ALAS

Participei como platéia do encontro chamado Pré-ALAS. O ALAS é o congresso da Associação Latino-Americana de Sociologia que ocorrerá ano que vem no Rio de Janeiro. O evento que se realizou entre 03 e 05 de novembro aqui no Recife tinha como objetivo ser uma espécie de aperitivo ao congresso maior que estar por vir.

Vi pouco e não poderia emitir uma opinião mais ampliada sobre o evento como um todo. Mas gostaria de tecer comentário sobre três atividades as quais tive acesso. A mesa redonda “Uma agenda para os estudos sobre crime e violência no século XXI”(04/11/08, das 8 ao meio dia no auditório do CCSA), o grupo de trabalho (GT) “Pensamento Social na América Latina” (04/11/08, 14 às 17 horas no CFCH) e por último a mesa redonda “Democracia, desigualdade, participação e novos atores na América Latina” (05/11/08, 8 ao meio dia no Centro de Educação).

Opinião sobre mesa redonda sobre crime e violência: agenda social, agenda sociológica

Na mesa redonda sobre a agenda de estudos sobre crime e violência o que mais me impressionou foi perceber o vínculo intervencionista das preocupações das possíveis “agendas científicas”. Se as ciências sociais surgem historicamente em parte por conta do volume e densidade que as sociedades industriais deram à morfologia de suas cidades, e o sem número de fenômenos sociais que vão aparecer em decorrência disso, não deixa de ser interessante perceber o quanto uma idéia de “medicina social” (conhecer para intervir e sanar problemas) permeia os objetivos das agendas ali propostas. Nada contra.

Mas é interessante porque perigoso, eu acrescentaria. Essa definição de agendas nos moldes da relação de heterônomia entre sociologia e política pública de segurança define contornos políticos (na verdade sociais) à agenda científica que passa a pensar seus objetos em função de ideais de diminuição das taxas de criminalidade e violência. Mais uma vez, nada contra o uso do conhecimento sociológico nas agendas políticas dos políticos e governantes. Porém é preciso convir, é preciso ter preocupação com a ciência e sua função específica principal cujo a qual, creio eu, ainda ser aquela de produzir conhecimento sobre as lógicas de funcionamento do mundo social.

Se esse meu receio for real, ou seja, se for verdade que aquelas proposições de agendas de estudo foram estruturadas apenas em função de vínculos com a demanda pública por segurança, numa situação como essa descrita, parece-me que é factível aceitar o declínio da distinção instituinte e instrutiva dada pela própria sociologia entre um problema social e um sociológico. Aparecendo de maneira dissolvida nos moldes para lá de perniciosos dessa razão sociológica (uma sociologia aparentemente desprovida de sua função latente), a sociologia do crime visa encontrar soluções para o crime e para violência (criminologia) sem muitas vezes se ater ao entendimento das lógicas, mecanismos, formas de funcionamento do mundo social que engendram “situações de violência”, “formação de criminosos”, “culturas do crime” etc. Estuda-se polícia, estudam-se políticas de segurança (e querem se estudar seus impactos, onde?, na diminuição ou não das taxas disso e daquilo), mas, e isso me intriga, estudar o caldo sócio-cultural que estrutura essa agenda parece não interessar ninguém. É démodé. Podem me chamar de leigo e conservador, de desconhecer as teorias da janela quebrada ou de suas semelhantes, mas fazer sociologia para mim sem falar sistematicamente de aspectos de socialização sempre vai me parecer algo como fazer bolo de trigo sem colocar margarina: produz algo seco, ruim de digerir e, last but not least, não parece bolo.

Jessé Souza: discurso inaudível, sociologia morta e seus diálogos sem interlocutores


O principal personagem do grupo de trabalho sobre “Pensamento Social na América Latina” e da mesa redonda sobre democracia e desigualdade tem nome: Jessé Souza. Primeiro por fazer uma exposição crítica à idéia de pensamento social num grupo sobre pensamento social. E depois por defender idéias fortes como é a de ralé estrutural, que por sua vez reveste uma crítica por si só já instigante, onde elementos culturais fortemente presentes e aceitos como sendo parte de nossa brasilidade são colocados como elementos de um “mito do Brasil” a ser triturado pela ciência.

O que achei extremamente interessante nos dois momentos foi a impossibilidade de comunicar que se externalizava na hexis corporal de Jessé Souza ao expor, sempre com muita clareza e destreza, o seu pensamento crítico. O suor, os suspiros de impaciência com apresentações que reproduziam contextualizações teóricas de pensamentos teóricos, traduziam o apelo da consciência de alguém que sabia estar falando para um auditório onde os principais interlocutores (os integrantes da mesa) eram surdos ao que ele dizia.

O problema é que se por um lado Jessé Souza tem toda a razão de se colocar da maneira que se colocou(dando argumento-patada em todos), o limite de sua postura está, a meu ver, na pouca ênfase dada às propriedades sociológicas de seu discurso sociológico. Aceitando discutir os resultados teóricos de seu estudo sobre a ralé estrutural como mais uma teoria sobre o mundo social, perde-se de vista o essêncial de sua crítica, caindo-se assim no mesmo equivoco que torna inaudível a especificidade do discurso que deu vazão a produção dessa teoria: ou seja, o sociológico (Jessé de Souza) não enfatizando que é com sua maneira de investigar que ele produz crítica, ou seja, através de seus métodos, seus recursos técnicos de pesquisa – entrevistas, análise estatística, análise de documentos, uso de conceitos, etc. –, ele perde a oportunidade de interar e fazer entender que a verdade e não apenas a veracidade de suas proposições depende do bom uso desses procedimentos.

Nesse sentido acho típicas as exemplificações de alguns elementos de pesquisas dados durante a sua exposição. A mais característica sendo a que visa explicar a tendência ao fracasso escolar de alunos oriundos da ralé. A capacidade de concentração é algo que se aprende, diz Jessé Souza. Ele acrescenta depois de forma imagética que as pessoas de classe média, quando na idade escolar aprenderam a se concentrar em casa, vendo seus pais lendo jornais e livros, descobrindo a concentração como algo possível.

(O que vou dizer agora pode ser uma injustiça produzida pela temporalidade limitada de uma apresentação de meia hora num evento como o que comento. Mas julgo da pertinência dessa crítica por não ter percebido em nenhum momento uma preocupação que levasse o debate para esse ponto que trato.)

Pois bem, Jessé usa nesse exemplo sobre a concentração um argumento estruturado dentro de uma lógica bourdieusiana do A Reprodução. Parênteses para dizer que esse é um livro aparentemente mal lido no Brasil tendo em vista as acusações tolas de estruturalismo que detêm tanto o interesse de nossos debates acadêmicos. Nesse argumento a inteligibilidade do fenômeno da “burrice” (dos não atentos em sala de aula) aparece quando se sobrepõe (depois de descrições muito detalhadas no caso das pesquisas que deram origem ao livro de Bourdieu e Passeron) a congruência ideologicamente camuflada das estruturas da cultura dominante (porque legitima, a ecolar) e a da classe dominante ( a cultura das famílias mais abastadas sociocultural e economicamente). Até aqui tudo bem.

O problema é que se você omite, como tende também a fazer Jessé Souza, a importância da análise estatística, da etnografia que descreve as relações de aprendizado no seio familiar e escolar, da construção de uma relação específica no uso dos conceitos para a construção de um argumento sociológico interpretando essa base material (por que usar a estatística para “explicar” ou dar “conformidade” ao dito real que a teoria trata?), você acaba por ratificar as “razões da inaudibilidade” do seu discurso. Por isso minha simpatia pelo discurso de Jessé Souza é grande, mas parece esbarrar naquilo que ele critica só até certo ponto, seu vínculo com uma maneira de refutar e conjecturar sobre o mundo social vinculada ao modo de operar do pensamento social.

Atualização: coloco abaixo o texto de Diogo Valença que trata das impressões dele do evento. O texto está nos comentários, mas julguei que ele ilustra bem e dá uma perspectiva a mais (mais completa) ao que disse e “de coup” que era de interesse da maioria.
Jessé Souza e a arrogância da “grande teoria” (por Diogo Valença)
Gostaria de tecer um rápido comentário às impressões do meu amigo Jampa sobre o Pré-ALAS. Primeiro, queria fazer um reparo. O próximo ALAS não será no Rio de Janeiro, mas em Buenos Aires. Quanto à mesa sobre criminalidade, gostei da visão crítica de Jampa e tendo a concordar com o cuidado que ele teve na defesa da especificidade do ponto de vista sociológico. Ele não desconsidera ser legítima a preocupação prática na sociologia, mas tenta colocar as balizas norteadoras desse intento. Como envolver a sociologia em problemas práticos? Eu acho que isso pode ser feito, mas deve ser feito dentro da contribuição que à sociologia pode dar ao conhecimento sobre o mundo social, ou então a sociologia não servirá de nada. Foi assim que entendi o comentário crítico de Jampa. Porém, eu acho que há toda uma discussão na sociologia, que está meio esquecida, sobre a possibilidade de unir o raciocínio pragmático ao raciocínio científico, numa espécie de sociologia aplicada, para usar uma expressão tão cara a Florestan Fernandes. Seria a idéia de que o sociólogo pode atuar nos processos de intervenção social, a partir do prisma de sua especialidade científica, e ao mesmo tempo ser um agente político de transformação. Isso implica, de certo modo, união entre fato e valor no próprio terreno da ciência. Haveria várias perguntas aí, é claro, sobre qual a direção da mudança, a quem interessa essa intervenção social, que cabe à análise sociológica desvendar. Acho que só em processos de intervenção social, nos quais os sociólogos venham a participar, é que essas questões podem ser respondidas e não adianta nada conjecturar sobre isso. Mas acho importante o questionamento de Jampa e esses comentários que agora fiz desejo que sejam vistos apenas como um acréscimo das minhas posições às palavras do amigo.(Continua…)

Jessé Souza (comentário)Eu também estive presente na apresentação de Jessé Souza no GT Pensamento Social Latino-Americano. Como Jampa, reconheço que Jessé está fazendo um trabalho importante de investigador e simpatizo com as críticas radicais que ele tem feito a vários dos mitos do pensamento social brasileiro. No entanto, o que mais me chamou a atenção na postura dele foi um enorme desconhecimento de toda uma tradição de pensamento desenvolvida na América Latina, não só por cientistas sociais, mas também por pensadores políticos, como Mariátegui, que construíram uma visão original de nossas formações sociais. O que estava em jogo no GT “pensamento social latino-americano”, a meu ver, era exatamente isso. Esses autores não são importantes para Jessé porque ele considera que a grande teoria, mais “complexa” (termo que ele utilizou), desenvolvida na Europa, pode dar conta de nossos fenômenos sociais, brasileiros e latino-americanos. Por isso ele não vai ler autores latino-americanos e sim pegar os autores verdadeiramente complexos. Ora, Jessé é um leitor atento de Bourdieu, como bem apontou Jampa, e sabemos que Bourdieu foi um sociólogo que refletia teoricamente a partir de seus objetos de investigação, realizando uma verdadeira construção conceitual na sociologia a partir de elementos concretos, numa simbiose marcante entre teoria e empiria. A meu ver, esse é o verdadeiro caminho na teorização das ciências sociais. Por isso Bourdieu tinha uma forte aversão à grande teoria à la Parsons, ou mesmo à teoria de médio alcance de um Merton. Acho que nesse ponto Jessé não aprendeu a lição do mestre, porque ele deixa de ter a visão da especificidade do concreto quando tenta retirar de Foucault, por exemplo, que ele citou, elementos para entender o poder nas instituições modernas e aplicar esses conceitos ao Brasil. Ele diz, com razão, que o Brasil é uma nação “moderna” e, por isso, a teorização construída na Europa também nos cabe. Nisso estou de acordo, porém se há problemas universais das nações modernas, há problemas específicos de cada uma das nações modernas quando lidamos com as diferenças de suas origens históricas. Isso já é muito sabido e não vou discutir algo que já foi tão debatido pelos cientistas sociais latino-americanos desde os anos 60. Acho que Jessé pensa estar fazendo algo totalmente novo e desconsiderando que a perspectiva de interpretação global que ele tenta levar adiante, criticando o culturalismo e tentando realizar a ponte entre cultura e estrutura, foi algo muito desenvolvido nas ciências sociais latino-americanas a partir de investigações muito concretas, como as de Pablo González Casanova, Anibal Quijano, Orlando Fals Borda, Florestan Fernandes e vários outros. O que ele fez foi algo típico da grande teoria, achar que pode explicar tudo e todos os casos concretos. Penso que na sua prática de pesquisador Jessé possa ter superado essa visão, que, a meu ver, é um índice de colonialismo mental. Basta estudarmos a teoria altamente complexa dos centros hegemônicos de produção cultural e, pronto, seremos capazes de lidar com qualquer problema empírico do Brasil, ou da África, ou da Ásia. Não acredito que esse seja o caminho, porque seria descontextualizar teorias importantes, mas que levam a marca de seu meio social e colocam questões que muitas vezes não podem ter muito sentido para nós. É uma forma de perpetuar relações de dominação que se dão no âmbito internacional dentro da reflexão sociológica. Não sei se Jampa notou, mas muitas vezes Jessé demonstrava estar fazendo algo totalmente novo, inventando a roda e desconsiderando toda uma produção importante feita anteriormente que, em muitos aspectos, foi mais longe do que ele conseguiu, com um “grau menor de complexidade”, porque os cientistas sociais latino-americanos foram capazes de superar o complexo de inferioridade do cultivo da “grande teoria” na periferia. Foram cientistas sociais que não tinham as grandes ambições teóricas de Jessé, mas que realizaram estudos concretos da realidade concreta e, por conta disso, deram uma contribuição muito importante à teoria geral, por exemplo, do capitalismo, que tem sido reaproveitada na análise global do capitalismo. É marcante, por exemplo, como Florestan Fernandes apontou certas tendências do capitalismo mundial a partir das análises que ele fez do capitalismo dependente na periferia e, sem o tom arrogante da grande teoria, ele deu uma contribuição muito original a partir de suas pesquisas concretas. Esses comentários nada tendem a desmerecer o trabalho de Jessé, porém acho que há contradições entre seu talento de pesquisador e a sedução que ele sofre pela grande teoria, daí o tom arrogante de achar que ele está fazendo algo totalmente inédito. Sob esse prisma, eu acho que ele não conseguiu fazer uma crítica do pensamento social latino-americano, fez a crítica apenas de uma das vertentes desse pensamento, que ele chama de culturalista, e desconhece outros trabalhos que seriam dignos de nota. Penso que ele não deve ter cuidado para acabar no exercício escolástico de aplicar ao Brasil os o comentário de obras dos autores mais complexos que ele leu e que produziram em outros contextos sociais…

UFPE via Universités en France: estranhamento antropológico na experiência acadêmica de um jovem suburbano (I Parte)

Conheço pouco Luciano Oliveira. De encontro, lembro de uma única vez. Em sua sala marcamos para conversarmos acerca de Graciliano Ramos, personagem central de uma tese tratando da relação complexa entre sociologia e literatura no Brasil. Na ocasião eu percebi duas coisas dele. Por um lado, sua amabilidade para comigo. Ele me pareceu um sujeito extremamente educado, prestando atenção no que eu lhe falava mesmo deixando transparecer que considerava minhas preocupações um pouco tolas. (Elas devem ser de fato) Lembro que quando falei da polêmica que analisara em meu mestrado a respeito da verossimilhança de Paulo Honório, ele me disse em tom de brincadeira: “Paulo Honório escrevia do jeito que Graciliano imaginou e pronto”. Eu achei engraçado e amigável aquela maneira de relevar minhas preocupações. Não existia desrespeito, mas era como se ele me dissesse: “não tente tirar leite de pedra menino”. Como cabeça dura que sou, disse-me, meu propósito foi legítimo. Por outro lado, senti certo descontentamento da parte dele com o universo universitário. Algo no que ele me dizia soava aos meus ouvidos como: “não faço parte disso aqui”. As vezes me sinto assim também.

Pois bem, essas impressões do homem me ficaram. E a elas se juntaram outras de textos dele que li. Delas (das impressões) retiro motivação para esta pequena reflexão blogueira que pretendo desenvolver em duas partes.Deles (dos textos de Luciano) retiro as nuances do que quero dizer, tomo dalí os elementos nos quais me apoiar. (Essa primeira parte aqui, leitor, é uma justificativa metodológica do texto.)

Num artigo sobre Graciliano Ramos, por exemplo, que infelizmente não posso citar porque não tenho as referências, mas onde, foi assim que o li, com um olhar de “amador” (porque amante da obra e admirador do homem que a escreveu), Lucinano procurava indentificar e decifrar aquilo que a crítica chamou a atenção como sendo a imbricação necessária do homem Graciliano ao escritor. Uma bela homenagem. É um texto que guardo comigo e que com certeza vou usar em minha tese compondo com e contrapondo contra seus argumentos.

Gosto muito de um outro que me foi indicado por Alfredo Cesar. Acho-o fantástico. Um pequeno estudo de caso sobre a opinião de alunos de Direito no Recife sobre a pena de açoite para pichadores. E confesso: o que me mais me encantou nesse texto foi a atitude metodológica de exposição que, mostrando passo a passo o seu desenvolvimento, delineia com verdadeira honestidade os critérios da construção do objeto.

Nesses textos coerentemente com as minhas impressões do encontro percebo o mesmo contraste: algo que me aproxima do olhar e ao mesmo tempo me distancia na postura. Seria essa dupla impressão fruto de nossas experiências ao mesmo tempo similares e tão dispares?

Se me pergunto com sinceridade o que me leva a querer escrever sobre essa minha ínfima relação com o professor Luciano Oliveira, eu diria que mais do que nosso pequeno encontro e os artigos a cima evocados, foi seu texto de blogue que me impulsionou a reagrupar essas impressões e recordações e querer tratá-las de um ponto de vista mais… mais auto-analítico, digamos assim.

Lendo seu Brasil via Paris: descobertas de um estudante brasileiro no país dos bricoleurs senti uma vontade irresistível de entender meu sentimento paradoxal de empatia e estranhamento durante minha leitura deste artigo. Um sentimento daqueles que você tem quando, tendo partilhado uma experiência análoga, termina por perceber os pontos de semelhança e diferença e se perguntar encasquetado: “não sendo a mesma pessoa daquela vivência vivi situações e sensações semelhantes, mas por que algo daquela experiência recontada, portanto tão parecida, escapa a minha compreensão?”

Pensei, pensei, pensei. Por que não esboçar um paralelo? Algo do tipo contrastar alguns elementos do que julguei essencial no texto do Professor Luciano Oliveira, que é esse revelar a importância da viagem para construção de um olhar antropológico, de estranhamento a respeito do mundo que antes nos parecia familiar, comparando com minha própria experiência de estadia na França. Melhor. Que tal falar de um aspecto deixado de lado no relato/análise dele e que talvez mais do que todos os outros represente o calo recalcado de quem sai e volta de uma experiência acadêmica num país tido como desenvolvido: o estranhamento com o próprio meio universitário e acadêmico.

Traçar uma “comparação” com esse viés específico tem duas vantagens:

1) eliminar em parte o problema segundo o qual seria inapropriado tornar inteligível esse contraste entre a minha experiência e a dele na França porque se tratam de vivências que não se deram em mesmo tempo histórico e que foram vividas entre pessoas muito diferentes. Nesse sentido, contra esse argumento, eu diria que é justamente porque não se trata de uma comparação termo a termo, mas sim de uma avaliação a respeito da ausência ou quase ausência no olhar antropológico de Luciano Oliveira sobre o estranhamento com o mundo acadêmico mesmo (o nosso universo de produção cultural por excelência, a UFPE), que nos traria de quebra, em nosso favor, elementos para avaliar uma condição que é a nossa( a de intelectuais de um país periférico, num estado periférico). Claro, não se pode deixar de ter em mente o seguinte: em 1986, ano do início do doutorado de Luciano Oliveira na França, eu ainda estava me confrontando com meus dilemas de adolescente suburbano. Morando em um bairro de subúrbio violentíssimo (Ur-6 Ibura), entrando numa escola de classe média (Marista Recife), e, no período em que ele se tornava doutor, não sei nem se sabia onde era a França no mapa do mundo). Contudo, a Education Nationale continuou basicamente a mesma e as políticas de educação na França pouco se alteraram com as alternâncias de governo, como Luciano bem situou, educação na França é responsabilidade de Estado, fazendo com que a escolha de tratar do nosso estranhamento em função da experiência universitária seja uma fonte riquíssima de reflexividade. E isso porque se perguntar realmente sobre as condições de possibilidade da sociologia no Brasil, em Pernambuco e em Recife passa necessáriamente por uma preocupação sobre o tipo de sociologia que é produzida num país onde a educação não é (ao menos em sentido francês, do republicanismo francês, uma questão de Estado)
2) assim, mesmo sendo difícil comparar a França de 2000 (ano em que fui para lá) a de 1986(ano em que o Luciano Oliveira foi) – e sempre tendo em mente que no horizonte de comparação temos como mediadores do estranhamento antropológico um jovem estudante de graduação oriundo de classe popular marcado por uma trajetória de fracasso escolar recente e um mestre oriundo da classe média –, a escolha pelo contraste no próprio universo acadêmico pode ser extremamente interessante justamente por servir de reflexão a respeito não mais de generalidades da cultura brasileira, mas de elementos práticos de compatibilidade e incompatibilidade entre ethos acadêmicos do centro e da periferia do mundo de produção intelectual.
to be continue…
( A ser editado com o decorrer da análise).