Pernambuco não para de surpreender. Veja o que encontramos no site http://www.pebodycount.com.br/, uma iniciativa que nos mantem em alerta para o volume de assassinatos no estado:
“Procurei ver onde Pernambuco se encaixava nessa tabela e, vejam só: considerando a média de assassinatos por armas de fogo entre 2002 e 2004 (3.639), superamos as baixas de 15 conflitos armados em outros países do mundo, entre eles, a Guerra das Malvinas e a disputa por território entre israelenses e palestinos.”
Essa tabelinha do lado, indica isso: numeros de nossa miséria humanda. O que me faz lembrar uma antiga aula de estatistica que tive onde o professor perguntava: o que dizer daquilo que os dados nos dizem? Tarefa prosaica do sociólogo ficar lendo tabelas e “traduzindo” para uma linguagem mundana as taxas, as proporções e percentagens. Muita gente acha fria, desumana uma sociologia que se apoia em números. Para essas pessoas, ela oculta as histórias de sofrimento por trás da roupagem neutra dos simbolos matemáticos. Hoje tenho uma visão mais pragmática da sociologia e acho que numeros, conceitos, e outras ferramentas devem ser usadas conjutamente quando isso traz esclarecimento sobre o mundo. Mas não deixa de ser irônico perceber que certas questões “humanistas” só conseguem vir a tona com a medição e comparação desses “numeros de sofrimento e da dor”.
Jampa
Anúncios

Depois da “fama”

Acho que desde o início desse blogue(Março 05, 2004) tomo de maneira razoavelmente constante os comentários dos amigos como mote paras outros textos. Depois de alguns anos nesse espaço, o mote da “fama” me faz ter vontande de avaliar um pouco dos objetivos desse lugar onde tantas vezes dividi inquietações e alegrias, tristezas e melancolias. Essse meu topus da “retorica de tensão” vem aqui e agora relembrar seu primeiro post e se perguntar se os objetivos ali imaginados foram cumpridos.

O que dizia?:

“Aqui farei meu diário quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as oscilações do espírito, caráter e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoável no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o “oxymore” pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: “bien écrire le médiocre”, dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução.”

Engraçado perceber que dizia com certo estilo, o que sabia não conseguir faze com destreza, escrever. Mas o fato é que o blogue continua sim(com ou sem mérito formal), acredito, cumprindo sua função de dividir minha miséria com a alheia. Apesar de restrita no alcance, nessa calçada da “fama” voltada para troca de idéias, onde o mérito que fica é a sujeira do concreto entre as unhas pintadas de esmalte vermelho(adoro essa imagem dos holofotes que iluminam as mentes tantas vezes debeis das belas atrizes), segue-se o caminho pouco estrelado do debate sobre o mundo (social, politico, artistico, etc.).

E nesse cineminha, o glamour quer dizer o seguinte: acordar cedo, estudar, ler, escrever, discutir idéias com amigos (pares da sociologia). Assim, vez por outra, quando por alguma circusntância da vida, for abordado por um jornalista por ser “filho de”( e as suposições que esse fato gera), poder dizer com humildade e orgulho do pai que, sim sou “filho de”, mas com idéias e opiniões própias também uai! Lição aprendida em casa( inclusive com o próprio pai), mas ampliada e desenvolvida no mundo.

Jampa

As palavras por si só falam?



ASSALTO E MORTE IIentrevista » Acrísio CoutinhoPublicado em 15.05.2007 (em http://jc.uol.com.br/jornal/2007/05/15/not_231638.php – Para assinantes).

“Eu queria matar os dois”

Revoltado com a forma banal como a esposa foi assassinada, o executivo Acrísio Coutinho quis entrar na viatura da PM para pegar os dois adolescentes, mas foi contido por parentes. “Queria matar os dois.”
JC – Como o senhor ficou sabendo o que aconteceu com sua esposa?
CRÍSIO COUTINHO – Eu estava em casa. Mas nem em casa a gente consegue se sentir protegido, agora. Há menos de três meses assaltaram e mataram um aposentado na nossa rua. Mesmo assim, nada acontece. Para mim, os culpados por isso tudo são essas pessoas que defendem os direitos humanos. Por causa delas é que ninguém pode fazer nada com esses garotos que matam para roubar. Eu mesmo queria matar os dois, mas não deixaram. Ninguém pode encostar a mão num menino desses. Essa situação só vai mudar quando tragédias desse tipo começarem a acontecer na família desse pessoal.
JC – O que o senhor pretende fazer?
ACRÍSIO – Não faço idéia de como vai ser a minha vida daqui para a frente. Passamos o fim de semana em Gravatá. Comemoramos o Dia das Mães. Chegamos aqui às 7h e ela foi fazer uma feira rápida. De repente, aconteceu isso. Só quem está passando é quem sabe o tamanho da dor.
Opinião de Jampa? Respeito a dor. Mas a lógica do Jornal(na entrevista com o rapaz a “frieza” dele é ressaltada porque voltou para dormir depois de ter atirado numa pessoa), a reação do marido( “eu queria matar os dois, mas não deixaram”), e como tudo é tratado… (com o expanto da naturalidade em vários sentidos: a do adolescente sendo o mal a ser eliminado, a naturalidade com a qual o menino parece falar das sua própria brutalidade, a naturalidade com a qual a reação de querer matar o assassino de sua mulher aparece como um esforço de “fazer justiça com as próprias mãos”), tudo isso corrói demais a alma. Olho por olho, e o mundo acabará cego, dizia o pacifista. Ao que me parece… nossos olhos (espelhos de que alma meu Deus!) já não servem mais pra muita coisa não.

Opinião de classe: sobre uma autocrítica sem flagrante criminal

Nada pode denunciar melhor nossa hipocrisia do que os esforços toscos por parte dos membros de nossa elite para “reconhecer” publicamente que alguma coisa está errada (com as atitudes nunca antes contestadas por eles). Esse tipo de meia culpa, é meia, para não dizer medíocre, até quando tenta ponderar sobre dividas sociais históricas das elites com o todo social.

Não deixa de ser engraçado ver gente se rebolindo, inquieto, reclamando das “algemas da democracia” (http://jc.uol.com.br/jornal/2007/05/11/not_231132.php – para assinantes). O texto de José Paulo Cavalcanti Filho, aqui mais uma vez, advogado, cai como luva de aristocrata no Jornal de Pais Mendonça. Ele mais uma vez aparece como condensador de lógicas de classe que, por omitir a posição real de quem o escreve (de membro da elite que agora percebe ser atacada), torna visível e condensada a eterna falta de sensibilidade de nossas elites com os problemas de ordem pública.

É claro que no texto se defende, aparentemente, valores universais:

“Todos devem responder por seus atos, claro. Se for o caso, devem também ir à prisão. Mas só depois do devido processo legal e de sentença judicial. Prisão, antes do processo, só em casos bem específicos: flagrante delito, risco de violência física, coação de testemunhas. Fora disso, resta só um gesto desnecessário e menor de autoritarismo.”

Mas é mais evidente que a preocupação não é com universo social como um todo:

“Na primeira e mais espalhafatosa dessas operações, o presidente da Schincariol foi preso e algemado em seu quarto. De madrugada. Tudo sob as luzes da TV. A acusação (ou pretexto) era a de fraude fiscal – sem que sequer tivesse sido lavrado o correspondente auto de infração, mais isso só se soube mais tarde.”

Claro que numa sociedade como a nossa, dizer as coisas dessa maneira pareceria por demais elitista, então que se faça a meia culpa:

“Para os homens simples do povo, foi quase um delírio. Depois de décadas de impunidade, com penitenciárias entulhadas só por pretos, pardos e pobres, agora também ricos eram presos. A prática, no imaginário coletivo, funcionou como uma revanche dos oprimidos. Mas foi mesmo legal a operação?, eis a questão.”

Sim, a velha e boa legalidade dos ricos. Aquela feita para proteger:
“Homens sem antecedentes criminais, e com endereço certo[e que agora] são privados da liberdade – sem que representem qualquer perigo à sociedade. Nenhum deles jamais nos assaltaria, pelas esquinas do Recife.”
Exato. Quem nos assaltaria são os pretos, pardos e pobres, para os quais a lei universal não se enquadra da mesma maneira (o novo chefe de segurança de PE já informou sobre o tratamento que ele visa dar aos bandidos e marginais do povo, cadê as manifestações em prol da legalidade?), pois para eles ela funciona apenas no sentido de jogá-los nas celas amontoadas das nossas prisões. Mas diante de um tal estado de coisas, a meia culpa não podia ficar por aí:
“Nem é de hoje, esse autoritarismo. Que esses brasileiros anônimos, por tempo demais, são os mesmos que já sofrem nas cadeias sem mesmo ser condenados. Com nomes anunciados, com estardalhaço, pelas delegacias de polícia. Aviltados, diariamente, em programas policiais de rádio – em que são invariavelmente exibidos como arrombadores e maconheiros, também sem ser antes condenados. Tudo sob o silêncio cúmplice das elites.”
O que se esquece de dizer é que não apenas o silêncio é cúmplice, mas a palavra também. Porque no final das contas, a voz aparece em defesa de um ideal universal, não para responder aos exageros da policia e da imprensa cotidiana contra os mais oprimidos, mas num momento onde membros da elite estão “sofrendo” com possíveis exageros da Policia Federal (com direito, inclusive, a defesa pública de ex-governador – hilariante ver Jarbas falando de “espalhafato” da Policia Federal, porque a mesma prendeu empresários pernambucanos envolvidos com agora mais famoso do que nunca cartel dos combustíveis, diga-se, o objeto central da defesa de José Paulo Cavalcanti Filho).
Por essas e por outras, a crítica legitima dos possíveis exageros das autoridades policiais envolvidas no caso de prisões de ricos se revestem de um particularismo enviesado de classe. Nele, é o fato de “[d]epois de décadas de impunidade, com penitenciárias entulhadas só por pretos, pardos e pobres, agora também ricos eram presos” que influenciou no imaginário coletivo (que é coisa de pobre, de povinho que não pensa, só reage irracionalmente) dando a impressão de “revanche dos oprimidos”. E a lei ? pergunta atônito o autor que pensa nos pobres para salvar os … seus.

Jampa

Impressões do Mundo Cão (Sem dar nome aos bois)

Fui a uma palestra sobre política de segurança pública e sociedade na universidade. Julgo o assunto importante para mim, pessoalmente, por questões muito particulares, de história de vida. Cheguei atrasado e não quis atrapalhar. Ouvi de fora da sala o finalzinho da apresentação do palestrante, e na pausa entre a palestra e o debate, entrei me situando num recanto.

O debate não chegou a me assustar. A sociologia do crime, de alguma maneira desacreditada no discurso do palestrante, eram duas, e as duas, segundo ele, incorriam no mesmo erro: procurar causas primeiras da atitude criminosa, a razão de ser do criminoso. Apoiado em estudos críticos dessas vertentes, ele defendia uma sociologia mais pragmática, ela sim, em condições de ajudar a formular políticas de segurança pública. Uma sociologia que estudasse os agentes facilitadores da ação criminosa, e não suas causas sociais últimas ou primeiras (essas, segundo eles, não ajudam nas formulações de políticas de segurança pública eficazes, porque, pelo que entendi, são obviedades estruturais das quais não se pode tirar proveito).

O discurso me pareceu sóbrio, embasado em dados e em reflexões teóricas, dando ao trabalho ali apresentado alhures de cientificidade inquestionável (o que não quer dizer que o trabalho e as teses defendidas nele sejam inquestionáveis, bem ao contrário.) Apesar de conhecer pouco da literatura sobre a criminologia, a sociologia do crime, a sociologia das políticas de segurança (se é que isso já existe), aventuro-me aqui a comentar, de maneira despretensiosa e rápida (do meu ponto de vista sociológico) aspectos da discussão que participei apenas como expectador. Essa coisa de ser expectador é importante porque todo aquele debate me pareceu de fato espetacular. Feito para ser visto e apreciado como uma mis en scene onde as idéias são postas em tubos de ensaio para ganharem sua roupagem objetiva. Da minha cadeira, meu ponto de vista era de alguém que olha para quem está olhando o objeto de estudo. Eu quis, em exercício quase fenomenológico, pôr em suspensão o sujeito que observa o sujeito observando um objeto (que é também um sujeito, no caso das ciências sociais) para apreciar o debate a partir desse “ângulo inusitado” de uma reflexividade desinteressada.

Divertido, mas também tragicômico, encontrar nas questões sérias formuladas ao palestrante, um quê de um pedantismo intelectual que se preocupa com “os limites do conhecimento sociológico” para pensar no uso da sociologia na formulação de políticas públicas de segurança. “As ciências sociais não tendo o mesmo potencial de controle dos fenômenos que estuda, não tendo a mesma capacidade de experimentação, de verificação empírica no sentido estrito do termo, como elas podem ajudar na formulação de políticas que realmente melhorem um estado de coisas dado?” O engraçado é que esse pedantismo se reveste, claramente, de uma aparente modéstia: são os limites da utilidade do pensamento sociológico que estão em questão, é tudo aquilo que barra o potencial de aplicabilidade dos conhecimentos sociológicos no mundo social o que perturba.

Apesar de nunca ter acreditado, nem mesmo no início de minha formação, na neutralidade axiológica, ou na pureza cientifica de uma pesquisa sociológica (nem de outra ordem, apesar de reconhecer hoje que em outras ciências por muitas razões – inclusive sociais – a autonomia das condutas cientificas caracterizadas em ganhos epistemológicos em termos de estatuto de cientificidade é maior nas ciências tidas como exatas e/ou formais), acho que a questão da utilidade prática da sociologia tem mais chances de ser colocada adequadamente quando se assume uma perspectiva reflexiva (auto-reflexiva, com o perdão da redundância) o ponto de vista do sociólogo como, exatamente, o de expectador.

O que me aborrecia naquele debate todo era o constante auto-posicionamento dos seres pensantes na procura de soluções sociológicas para formulação de políticas públicas eficazes para o controle da violência. (Por não conhecer a literatura nem ter lido o livro do palestrante, minha intenção aqui, é menos de fazer uma digressão a respeito da inadequação da formulação teórica do que se defendeu na palestra, do que apontar para alguns pressupostos que, ao meu ver, com muita facilidade, são deixados de lado em nome de uma maior “operacionalidade” de um tipo de análise sociológica que combine políticas de prevenção e repressão da violência. Assim toda sociologia que se preocupe com o estudo das formas e conteúdos de socialização do criminoso, estão fadadas a serem tachadas de inadequadas quase que de imediato, pois não sugerem formas de controle e ou repressão dos agentes potenciais da violência.)

Eu defendi aqui em outro texto a idéia da natureza social da violência. Idéia segundo a qual algumas lógicas sociais, a serem estudadas com mais detalhes, estariam estruturando a conduta de alguns atores situados em posições especificas no mundo social. Seria essas lógicas que ao serem identificadas ao problema da violência justamente produziriam um fator de inteligibilidade sobre o ignorar mesmo das lógicas de classe operando na percepção mesma da gravidade do problema.

Não creio que o que eu penso seja uma heresia sociológica. E não creio que exista de fato incompatibilidade entre concepções da sociologia que prezem por perspectivas mais racionais (que se preocupem em identificar as estratégias de ação dos agentes criminais) e outras que considerem mais elementos históricos, do passado desses agentes, da maneira pela qual o tipo de socialização especifico ao qual foram submetidos tem valor “explicativo” do tipo de conduta adotada. Por mais que possa ser verdadeiro o fato desse conhecimento sobre a socialização não ter “aplicabilidade” para formulação de políticas porque “apenas” constatam dificuldades estruturais (entendi assim o argumento dele, mas é possível que esteja simplificando demais), acredito que, em caso de acumulação sistemática de conhecimento a respeito desses aspectos estruturais podem (se bem elaborados por uma sociologia de viés crítico) conceber conhecimento que sirva de guia para políticas localizadas de prevenção e, porque não, de repressão da violência em alguns casos.

Eu penso, por exemplo, não sei se forçando a analogia, em políticas de tratamento diferenciado que foram aplicadas na escola nacional francesa, depois dos estudos conclusivos da sociologia da educação(décadas de 60 e 70), que identificavam dificuldades escolares ligadas às lógicas de classe social funcionando como filtro seletor no seio dos mecanismos aparentemente meritocráticos da escola republicana. Claro que o problema da violência tem suas especificidades, mas não acredito, como leigo, que sejam singularidades que impeçam estudos sobre socialização dos agentes dos grupos criminosos. Nem que esses estudos sejam de todo incompatíveis com a vontade de tornar utilizável o conhecimento sociológico para fins de aplicabilidade social.

Sobre a consciência das pequenas coisas

Quando criança, queria ser jogador de futebol. Mas não sempre. Tive vontade mesmo, daquelas bem grandes, de brincar para sempre. Subir e descer as ladeiras gigantes, salvar a menininha linda que, em seguida, se apaixonaria por mim. (Tentei uma vez um ato heróico com a vizinha mais linda do mundo. Levei um murro. Até hoje desconfio de minha vocação de salvador daqui, dali, ou de qualquer lugar). O namorado dela, meu inimigo, fazia uma arte marcial. Passei dias com uma dor no rosto. Meses com vergonha. E guardo até hoje uma ferida na alma.

Na adolescência tive o meu primeiro contato com a política não mediada pela vida de meu pai. Do meu pai havia aprendido que ter ética tinha a ver com compromisso com causas coletivas (tinha uma idéia vaga do que isso queria dizer). Havia notado nele, antes disso, que a idéia de compromisso tinha a ver também com cumprimento de todo tipo de acordo, dos mais simples (pagar as contas) aos mais complexos, os que exigem confiança mutua. Alguns chamam isso de honra.

Outro dia, um grande amigo ligou e contou-me: você viu a nota no jornal falando de você? Ela dizia que seu pai quer lhe ver na política. Não havia visto. Fui ver. A nota tinha informações fidedignas. Deve ter sido meu pai, pensei.

Ao longo desse blogue escrito certamente em linhas tortas, venho deixando transparecer razões para o sucesso relativo do meu esforço para incorporar o metier de sociólogo. Numa época a qual vejo que vários amigos chegaram a pensar seriamente na possibilidade de suas candidaturas, é engraçado perceber que ocupando uma posição privilegiada em relação à deles no que diz respeito uma real possibilidade de congraçamento pelas urnas, assumi sempre a idéia segundo a qual em terra de “filhotismos” é legitimo com tudo correndo a favor, nadar contra, em nome também de uma dignidade e de convicções políticas. Alguns próximos dizem: “mas você sabendo disso, não pode evitar os erros do filhotismo. Os filhos de políticos de direita não ficam pensando nessas coisas”. Na minha cabeça de sociólogo, mesmo que barato (sem publicações, sem produção acadêmica), eu tenho clara uma coisa: apesar de entender o porquê de alguns amigos pensarem nisso dessa forma, não acho que a consciência de um mal (o filhotismo), per si, tenha o poder de impedir suas conseqüências. As relações de poder que se estabelecem ao logo de uma vida familiar não podem, pela dimensão mesma da relação parental, se estabelecer de maneira profissional no âmbito de uma política desprovida de confusões entre o público e o privado. Para mim o problema não é saber ou não de minhas qualidades políticas, de minhas competências para agregar pessoas em torno de um projeto (tudo isso talvez exista e seja proveitoso diante de um estado de coisas piores), mas saber da autonomia de uma empreitada como essa diante de lógicas de funcionamento do mundo social que colocariam em cheque ora a relação familiar ora a relação profissional.

A olhos desavisados isso que digo pode parecer resignação diante de condicionamentos sócio-culturais, ou um reconhecimento tosco de um autoritarismo paternal. Muito pelo contrário, vivi sempre numa casa onde o direito de opinar contra era possível e mesmo louvável. E meu esforço é e continua sempre o de encontrar boas maneiras de intervir e construir liberdades possíveis dentro do mundo social violento e obtuso que é o nosso. Porém, não julgo ser possível lutar contra um inimigo de tal envergadura histórica (o filhotismo) com a ingenuidade de uma consciência libertadora em meu favor. Quantas sanções íntimas e invisíveis para mim e para os outros não se fazem porque é o pai e não o homem público quem fica em dificuldades numa campanha eleitoral, ou numa polêmica no que diz respeito à cidade? É o filho ou cidadão o interlocutor?

Quando criança queria ser jogador de futebol, mas não sempre. Hoje, depois de ter levado um soco, mas já tendo beijado algumas namoradas (que amei), além de ter saído da adolescência sem ter participado de política estudantil estrito senso, sonho em me tornar sociólogo com produção e descobrir quem sabe algumas coisas sobre a nova revolução burguesa da classe média de Casa Forte, que por alguma ironia do destino parece estar começando em Boa Viagem, pela reivindicação popular de um parque arborizado e cheio de verde, salvando assim, não só BV do concreto de Niemeyer, mas o mundo do efeito estufa.

Jampa.